Depois de uma noite no Coliseu do Porto, os veteranos James rumaram à capital e propocionaram uma noite memorável com direito a casa cheia.

Nem mesmo a chuva parecia desmobilizar a moldura humana que se formava junto à entrada principal do Coliseu dos Recreios em Lisboa. Os James são conhecidos pelo grande público português e já se perdeu a conta do número de vezes que o coletivo britânico atuou no nosso país.

Só no ano passado, os James atuaram por duas vezes em Portugal. Uma no Rock in Rio e outra no Vilar de Mouros. No entanto, a passagem pelo Parque da Bela Vista não foi feliz para a banda de Manchester.

Por isso, os James tinham algo de provar na noite em que iam apresentar, Living in Extradordinary Times, o 15.º disco da carreira ao público lisboeta.

Uma primeira parte melancólica

No interior da sala, apinhada de gente, a primeira parte do concerto estava reservada para um alinhamento acústico e intimista dos James.

O ambiente que pairava na sala equipara-se a um serão familiar ou uma reunião de amigos de longa data. A escuridão na sala complementou também o clima intimista (apesar das luzes dos telemóveis destruírem um pouco o efeito).

A atuação começa com Hello (não confundir com o tema da Adele ou Lionel Richie) e prossegue com Broken by the Hurt, que Tim Booth dedica à sua irmã com o violino de Saul Davies a destacar-se.

“Segue outra canção alegre”, afirma o frontman de forma irónica, antes do grupo interpretar a canção All I’m Saying com um Antes de começarem, Tim Booth é interrompido por um espetador que grita algo impercetível e que recusa estar em silêncio, causando até algum desconforto em palco. “Importas-te de estar calado?” questiona o vocalista e o público repudia o atitude desse sujeito.

A primeira parte do concerto no Coliseu encerra com uma sequência de luxo. Começa com uma versão de Sit Down, um dos maiores êxitos da carreira dos James, cantada em plenos pulmões de, seguida, I Wanna Go Home e Just Like Fred Astaire encerram o set acústico.

“Eu sou como um gato”

Depois de um interregno de cerca de 20 minutos, a banda inglesa regressa ao palco, desta vez a todo gás. A percussão é o elemento musical de destaque na canção Hank, que apimenta os temas sócio-políticos que a canção aborda.

Ouve-se a faixa-homónima do mais recente disco e, em What’s It All About, Tim Booth faz uso de um megafone e recorre às suas icónicas danças para pôr o público ao rubro.

Em Tomorrow, o endiabrado vocalista dirige-se para zona do balcão do lado esquerdo e mistura-se entre os comuns mortais. Dá apertos de mão às pessoas que o pedem e circula de forma tranquila.

“Eu sou como um gato. Subo a uma árvore mas depois não sei como descer”, brinca Tim Booth referindo-se às suas incursões, que se viriam a repetir em Born of Frustation.

No alinhamento também há espaço para agradar os fãs mais devotos dos britânicos. “Esta [música] só 10 pessoas devem conhecer”, profere o vocalista em tom brincalhão e escuta-se então Stutter.

“There’s only one human race”

Na reta final, Gettin Away With It All, Leviathan e Sound deixam o público ao rubro. No segundo tema, o trompetista Andy Diagram sai de palco discretamente e aparece no piso mais alto onde está também público e atravessa-o de uma ponta a outra. Mal o músico termina a sua incursão, Tim Booth atira-se para o público para um sereno stage dive.

Já em regime encore, Saul Davies conversa com a multidão e refere que os James estavam em divída com o público lisboeta devido à atuação menos conseguida no festival do Rock in Rio.

A sequência escolhida pelos britânicos é sublime e parece que foi delineada para comaltar o fiasco do ano passado. Attention, Come Home ecoam pelo Coliseu adentro e o coro solitário do público, já no final de Many Faces, deixam os membros dos James boquiabertos.

Mal o público termina, ouvem-se os acordes de Laid, que faz com que o espetadores comecem a saltar de alegria. Quase duas horas depois, os James conseguem conquistar mais uma vez o público português com um concerto arrebatador.

Fotografias de Carolina Galvão