No cinema, a câmara guia o nosso olhar, mostra-nos o que é essencial, ignora o que é acessório. Por detrás dessa câmara, está o realizador, que sabe exatamente aquilo que nos quer mostrar, ao que devemos prestar atenção. Tiago Cerveira, realizador da websérie documental 15 memórias do fogo, pede-nos que prestemos atenção às vítimas do maior incêndio de 2017, pede-nos não só que olhemos para elas, mas que não as esqueçamos.

Com a sua câmara, Tiago guia-nos pelo interior de Portugal. No Centro, mostra-nos ovelhas e pastores, crianças e caminhos. Mostra-nos jovens estrangeiros que escolheram terras abandonadas por muitos para as suas novas casas. Guia-nos até às cinzas e mostra-nos sempre o meio e a gente. Se prestarmos atenção, percebemos que nenhum olhar é por acaso.

Natural de Travanca de Lagos, Oliveira do Hospital, desde cedo Tiago Cerveira captou o quotidiano do interior rural. De câmara fotográfica na mão, pelos passeios na sua terra, retratava as histórias daqueles lugares e daquelas pessoas. Retratos próximos para uns, mas distantes e exóticos para outros. Aquilo que vê fica imortalizado em imagens que viajam por cidades, países e continentes.

O Meio e a Gente

interior rural portugal

Fotografia de Tiago Cerveira.

Todas estas histórias que Tiago nos conta enquadram-se no seu projeto O Meio e a Gente. Entre sorrisos, Tiago admite que é o seu “filho favorito”, a sua “assinatura para todos estes trabalhos”. Mas porquê retratar este mundo, estas formas de viver? Para mostrar um ponto de vista diferente. O ponto de vista de quem ali vive, de quem ali cresceu e de quem ali escolheu ficar.

“A sensibilidade para a questão rural sempre existiu porque eu moro numa aldeia, toda a gente sempre cultivou a sua quinta de subsistência, toda a gente teve animais, sempre lidei com pastores. É uma temática pela qual eu já estava apaixonado antes.”

Com 28 anos, Tiago sente-se sortudo por ter encontrado a arte do audiovisual, por conseguir expressar essa paixão desta forma. “No fundo, a câmara é a minha caneta, é aquilo com que eu escrevo, com que eu comunico” , diz. O Meio e a Gente já celebrou o seu quinto aniversário, em fevereiro deste ano.

fotógrafo

Making of do trabalho de Tiago Cerveira enquanto fotógrafo.

A vontade para contar histórias consolidou-se no curso de Comunicação Social e foi na tvAACSecção de Televisão da Associação Académica de Coimbra – que começou a interessar-se mais pelas câmaras. Conta-nos que nunca programou nada disto, que “as coisas foram acontecendo, como estão a acontecer até agora”.

Sente-se feliz com os projetos que vai fazendo, cada vez de maior escala e até reconhecimento. 15 memórias do fogo, a websérie sobre as vítimas dos incêndios de outubro de 2017, está a correr festivais internacionais.

Lê Mais 15 memórias do fogo: websérie portuguesa sobre os incêndios pode vir a ser exibida na Netflix
Rodrigo Oliveira e Tiago Cerveira

Rodrigo Oliveira é designer e amigo de Tiago, que o acompanha em muitos dos seus projetos. A fotografia é do making of de 15 memórias do fogo.

Ainda assim, diz não ter pressa de chegar ao topo. “E o topo é discutível. Se nós produzimos um conteúdo cujo efeito era sensibilizar um grupo de pessoas na região, mas ele depois tem um alcance nacional, então isso já é o topo que estava definido para aquele projeto”, reconhece.

Esta vitória que vai acontecendo dia a dia dá a Tiago o gosto e a força para continuar a trabalhar em diferentes projetos. Sem grandes expectativas, normalmente com pequenos orçamentos, inúmeras histórias são contadas e imortalizadas.

Manter o interior vivo

Um dos mais recentes projetos a que Tiago Cerveira dá o nome enquanto realizador chama-se Wildlings. Enquanto filmava 15 memórias do fogo conheceu Lynn Mylou, uma holandesa que trocou o seu país pelo interior do nosso. Lynn é mentora do Wildlings, um projeto que apela ao repovoamento do interior e à sustentabilidade. Tiago não hesitou em juntar-se à causa que lhe é tão próxima e realizou uma websérie de seis episódios que conta histórias reais daqueles que trocaram as suas cidades pelo Pinhal Interior, para estarem mais ligados à natureza.

Rodrigo Oliveira, Lynn Mylou e Tiago Cerveira equipa do Wildlings

Rodrigo Oliveira (designer), Lynn Mylou (mentora) e Tiago Cerveira (realizador), do projeto Wildlings.

Para Tiago Cerveira, retratar a vida no interior do país é importante também para a construção de um mundo melhor. É uma forma de mostrar como se pode viver em harmonia com a natureza e que “não é uma utopia”. Para que o interior permaneça vivo, é preciso contar as suas histórias, mas também que novas comecem a surgir. Há quem as oiça, há quem as conte e há quem as viva.