O Cais do Sodré está em festa. O MIL regressou à cidade em força e com ele toda a multidão que se deslocou para ver nomes como Conan Osíris, PAUS ou Pedro Mafama. A montra de artistas portugueses e ainda alguns estrangeiros tornou-se um dos eventos mais esperados em Lisboa, sendo que é aqui que observamos a música emergente a crescer fora da caixa.

Durante os três dias, no Palacete Marqueses de Pombal, foram muitas as talks a que os curiosos puderam assistir. Desde conferências sobre a música lusófona a debates sobre copyright na Europa, passando ainda por uma conversa com José Mário Branco sobre a sua carreira. O ecletismo é a palavra de eleição do MIL – Lisbon International Music Network. A criação de conteúdos foi outro importante tema que veio à baila (na talk “Why Content Creation Matters”) e foram-nos apresentados festivais tal como o PEOPLE Festival, com cunho especial de Justin Vernon (Bon Iver) e Aaron Dessner (The National).

À boleia dos sons emergentes conhecemos os próximos grandes da música

No concerto de abertura, na quarta-feira (27), vimos pontes a serem erguidas entre Portugal e o Brasil com a participação de Lula Pena, Letrux e Noite Bacaneza. Enquanto que Lula Pena trouxe uma abordagem mais popular da MPB, Letrux conquistou pela diferença com o disco Letrux em Noite de Climão, numa celebração do melhor que a lusofonia nos deu.

Quinta-feira (28) foi dia de saltitar entre as várias venues do Cais do Sodré e o frenesim começou cedo. Bea Pelea levou o reggaeton ao Titanic Sur Mer, apesar de o concerto ter terminado de forma abrupta com a técnica de som a fazê-lo inesperadamente. Espreitamos a jóia da música de fusão portuguesa, Pedro Mafama, num Roterdão a abarrotar e o destino levou-nos até Blu Samu, onde descobrimos a revelação belga do lo-fi hip-hop com uma voz soul interessante. É tê-la debaixo de olho, porque vai ter o seu boom em breve.

Fomos até PAUS para injectar uma boa dose de ritmo no corpo e fomos ao chão com Pongo, no Musicbox. Em noite de Blaya, outros valores se levantaram com a colega de banda (Buraka Som Sistema) que foi o pico do segundo dia do MIL. Pongo dançou, cantou, rebentou a extravagância e soube como liderar uma multidão sedenta por muito mais.

As MIL maravilhas do Cais

À sexta (29) dizemos adeus aos três dias de correria. O último dia de festa teve uma maior enchente muito devido à presença inevitável de Conan Osiris. Antes, no entanto, de coroarem o rei, os Ditch Days abriram o Estúdio TimeOut com o indie rock de final de tarde. Passámos pelo Sabotage onde os Beautify Junkyards estavam escondidos a fazer das suas, na sua calma e postura característica, e voámos até ao Viking, onde os Bluish nos transportaram para o espaço sideral com a sua sonoridade dreamy.

Às 22h, os Môrus começaram a festa no Longe com um spoken word afiado e ritmos tribais à mistura com uma guitarra. Entretanto, os Fogo Fogo davam a aula de cardio diária à multidão que os tinha ido ver, ainda que um Monolithe Noir desse corda à eletrónica (numa hora pouco favorável) ao mesmo tempo. Ainda conseguimos, contudo, dar um saltinho ao Roterdão e espreitar Bobbie Johnson, a rapper britânica que nos apresentou a amálgama sonora de grime, hip-hop e garage.

Conan Osiris tornou um Musicbox naturalmente apertado num local onde movimentar-se era privilégio. Da obscura Borrego a uma Adoro Bolos (que o público sabia na íntegra) passando pela fatídica Telemóveis – como descrita pelo artista. Se as paredes da sala colapsaram? Nunca estiveram tão perto, até pela presença de João Reis Moreira a mostrar que o seu corpo não tem limite (nem celulite ou celulitite).