A websérie documental 15 memórias do fogo competirá no festival Webisode Film Fest, que decorre de 26 a 28 de abril, no Texas. Se a produção portuguesa vencer, poderá ser exibida em plataformas de streaming como a Netflix, HBO, ou Amazon.

Da autoria de Rodrigo Oliveira e Tiago Cerveira, 15 memórias do fogo dá voz às vítimas do incêndio que aconteceu a 15 de outubro de 2017, em Oliveira do Hospital – o pior incêndio florestal desse ano. Em 15 episódios, conta a história de 15 pessoas, todas afetadas pelo fogo de diferentes maneiras.

Não é a primeira vez que a websérie portuguesa entra numa importante competição internacional. Em 2018, venceu o Prémio de Melhor Curta da Juventude no CineEco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela. Este ano, faz parte da seleção oficial do Buenos Aires Web Fest e é a única obra portuguesa no CinemAmbiente, em Itália. Já integrou as The Lift Off Sessions, no Reino Unido e o Nukhufestem Nova Iorque.

Ainda assim, o prémio prometido pelo festival americano parece o mais apelativo: a distribuição em serviços de streaming internacionais.

Sentimento agridoce

Para Tiago Cerveira, realizador de 15 memórias do fogo, estar a competir neste festival é uma “satisfação que incomoda”. A grande dimensão do festival e o prémio não impedem que haja um sentimento agridoce, devido ao tema do trabalho.

É um orgulho ter um conteúdo habilitado a ser passado numa plataforma como a Netflix e noutras com o mesmo patamar de renome. Agora, tendo em conta o conteúdo, não nos põe num pleno de felicidade”, explica o realizador de 28 anos. No entanto, reconhece que é também uma forma de levar “essa sensibilização a uma escala mundial”.

A série foi uma forma de sensibilizar a região, e o país, para o que tinha acontecido. Rodrigo e Tiago foram também vítimas do fogo, mas não sofreram perdas significativas. Por isso, decidiram recolher testemunhos de quem foi afetado, para não deixar que as suas histórias fossem esquecidas.

“Como foi o dia 15?”

Rodrigo Oliveira e Tiago Cerveira, realizadores de 15 memórias de fogo

Rodrigo Oliveira e Tiago Cerveira, realizadores de 15 memórias do fogo

Tiago Cerveira é de Oliveira do Hospital, enquanto Rodrigo Oliveira é natural de Arganil. Os dois concelhos vizinhos foram os mais afetados pela tragédia que assolou a região. “Nós tendo sido uns sortudos, na medida em que não perdemos bens, não perdemos património, não perdemos entes queridos, sentimo-nos na obrigação de dar algum contributo”, afirma o realizador da série.

A recolha de testemunhos começou com uma pergunta: “como foi o dia 15?”. “Depois a conversa fluía por onde tinha de fluir, foi uma coisa muito terra-a-terra, sem querer encaminhar a entrevista para a tragédia, para o drama”, explica. Acima de tudo, queriam que fosse “algo cru, algo direto”. O objetivo era tanto imortalizar estas memórias, como servir de alerta para o futuro.

O projeto partiu da iniciativa do realizador e fotógrafo Tiago Cerveira e do designer Rodrigo Oliveira. A vontade e os meios que tinham disponíveis, associados às suas profissões, foram suficientes para dar início ao que se tornaria na websérie 15 memórias do fogo.

Recordar e sensibilizar

15 memórias do fogo

Frame do primeiro episódio de 15 memórias do fogo.

Em 15 episódios, tentaram contar histórias que representassem todos aqueles que tinham sido afetados pelo incêndio. Escolheram falar com uma queijeira, “que no fundo seria a voz dos pastores”, falaram com um empresário, com a comunidade estrangeira e com cidadãos comuns com histórias singulares.

Tivemos a certeza por onde não queríamos ir, que era para as tais histórias de tragédias. Nós conhecemos pessoas que perderam filhos, filhos que perderam pais, mas nunca quisemos ir por aí”, explica Tiago. Com esta série, queriam falar sobre os possíveis erros que tinham levado a um incêndio daquela dimensão, mas também tentar encontrar soluções para que nunca se voltasse a repetir.

Tiago Cerveira esclarece que 15 memórias do fogo tem uma índole políticanesse sentido de sensibilização, de alertar para aquilo que aconteceu e daqui a 20, 30, 40 anos existir um registo audiovisual de quem sentiu na pele aquela tragédia”.