Em vários momentos da história e pontos do mundo foi recorrente a ideia de que um governo domina o seu povo controlando os livros que este lê. A propósito do Dia do Livro Português, assinalado esta Terça-feira (26), o Espalha-Factos recorda livros que foram censurados ou banidos da sociedade em Portugal.

Comummente praticada por regimes ditatoriais, a censura em Portugal teve o seu exponente durante o Estado Novo que, ao longo de mais de 40 anos, sujeitou todos aqueles que tinham a escrita como profissão.

Aliás, de acordo com a listagem apresentada, em 2012, pelo investigador José Brandão, 900 títulos foram censurados, proibidos ou apreendidos pelo Estado Novo, devido à linguagem ou abordagem de temas polémicos.

Confere abaixo a lista com sete livros assinados por autores mais emblemáticos de língua portuguesa que nos fazem valorizar a liberdade de expressão.

Os Lusíadas, Luís de Camões

Os Lusíadas, o famoso poema épico de Luís de Camões (1524-1580), foi publicado pela primeira vez em 1572. Dividido em dez cantos, o poema canta a viagem de Vasco da Gama para a Índia, entrelaçando nas suas estrofes os mitos, as figuras e os momentos históricos de Portugal.

Considerada atualmente uma peça central da identidade nacional, a obra desafiava os preceitos da Contra-Reforma vigente e foi, por isso, submetida à censura inquisitorial. Embora fizesse alusão ao amor carnal e ao culto pagão numa época governada pelos jesuítas, o censor – o dominicano Frei Bartolomeu Ferreira – não só aprovou a obra, mas também elogiou o autor.

No entanto, as edições seguintes sofreram alterações e o formato original só viria a ser retomado em 1591.

O Crime do Padre Amaro, Eça de Queiroz

O Crime do Padre Amaro é uma das obras de Eça de Queiroz (1845-1900) mais conhecida mundialmente. Começou por ser publicada em folhetins, na Revista Ocidental, em 1875, e foi reunida em volume no ano seguinte.

O romance conta a história de amor proibido entre Amaro, jovem padre recém-chegado a Leiria, e Amélia, filha da dona da pensão que o acolhe, e constitui uma denúncia do autor da corrupção moral da sociedade da época, sobretudo, o clero.

Ao contrapor os mandamentos da Igreja Católica com os comportamentos das personagens criadas por Eça de Queiroz, a obra suscitou uma grande polémica e foi proibida em salas de aula portuguesas.

Em 2005, o romance atemporal de Eça de Queiroz foi levado ao grande ecrã pelo realizador Carlos Coelho da Silva, com Jorge Corrula (Padre Amaro Vieira) e Soraia Chaves (Amélia) nos papéis principais.

Foto: cartaz oficial

Bichos, Miguel Torga

Bichos, de Miguel Torga (1907-1995), é um dos títulos abrangidos pela ação censória em Portugal durante o Estado Novo. Composto por 14 contos, protagonizados por humanos e animais que partilham características e enfrentam os mesmos dilemas da vida, o livro foi publicado pela primeira vez em 1940.

Apelidado de escritor comunista, Miguel Torga procurou provar o contrário, enviando um livro diretamente ao Salazar para que este pudesse analisar melhor a sua escrita. Mas para além de Bichos, o autor viu mais 12 livros seus fustigados pelo ‘lápis azul’ dos censores.

Praça da Canção, Manuel Alegre

Publicado em 1965, o livro de poemas Praça da Canção marcou a estreia de Manuel Alegre (1936-), voz ativa da vida política, no mundo literário. A compilação de poemas escritos em plena ditadura militar por um dos nomes mais sonantes da resistência e luta contra o regime foi proibido e apreendido pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado).

Apesar disso, os versos do ‘poeta da liberdade’ transformaram-se em hinos geracionais e de combate ao fascismo, declamados ou cantados, com sucessivas reedições.

Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, Natália Correia

Assim que publicada em 1966, a obra Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica foi imediatamente apreendida pela PIDE e tanto a organizadora, Natália Correia, como o editor e muitos dos poetas vivos nela reunidos, foram julgados em Tribunal Plenário, acusados de ofender o “pudor geral”, a “decência”, a “moralidade pública” e os “bons costumes”.

O livro reuniu uma coleção notável de literatura erótica portuguesa, desde os escritores medievais até aos mais recentes, entre os quais Eugénio de Andrade, Mário Cesariny, Herberto Helder, Maria Teresa Horta, e só muito tempo depois veria reconhecido o seu valor.

Esta Estranha Lisboa, Urbano Tavares Rodrigues

Publicado em 1972, o livro Esta Estranha Lisboa é uma compilação de textos de Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013) veiculados no Diário de Lisboa no início da década de 70, com fotografias de Eduardo Gageiro.

O cariz crítico da obra, na qual o autor retratava um país amordaçado pela censura, pelo obscurantismo e pela miséria, foi o principal motivo para o ato de censura do Estado Novo.

Foto: Livraria Alfarrabista Varadero

O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago

José Saramago (1922-2010) é autor de vasta obra literária e, até hoje, o único escritor português galardoado com o Prémio Nobel de Literatura. Desde 1947, o ano de publicação do seu primeiro livro, Terra do Pecado, ficcionou continuamente a realidade nos mais de 40 títulos assinados.

Mas o seu estilo, e sobretudo os temas abordados, nem sempre foram consensuais. A imagem de Jesus Cristo, segundo um Evangelho reinventado e controverso, apresentada num romance publicado em 1992 causou um autêntico vendaval.

O Evangelho Segundo Jesus Cristo é, nas palavras do autor, “o romance que gerou mais polémica e é a causa de ter mudado a minha residência de Lisboa para Lanzarote, em Espanha”. 

Os inúmeros protestos que o livro desencadeou culminaram numa discussão em Assembleia da República para ser excluído da lista de nomeados ao Prémio Literário Europeu, tendo sido considerado pelo então subsecretário de Estado da Cultura, António de Sousa Lara, um atentado ao património religioso português.

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