Os Monólogos da Vagina voltaram aos palcos portugueses, agora no Teatro Armando Cortez com Paula Neves, Joana Pais de Brito e Júlia Pinheiro, nesta que é a sua estreia em palco como atriz. O Espalha-Factos esteve presente na estreia e conta-te porque vale a pena ir assistir a esta revolucionária peça feminista.

Fotografia: Inês Guimarães | Espalha-Factos

Os Monólogos da Vagina, originalmente estreado em 1996 em Nova Iorque, é um conjunto de monólogos, da autoria de Eve Ensler, que abordam uma variedade de temas relativos à mulher, como a menstruação, o orgasmo, a mutilação genital feminina, a imagem corporal, a masturbação, a violação, o sexo e o parto – tudo ao redor do órgão sexual feminino.

Originalmente apresentada pela própria Eve Ensler aquando da estreia em Nova Iorque, tornou-se entretanto habitual ser representada por três atrizes em palco, como nesta produção dirigida por Paulo Sousa Costa. A peça foi interpretada pela primeira vez para o público português pela atriz Guida Maria em 2001.

Fotografia: Inês Guimarães | Espalha-Factos

Cenário simples e íntimo

Ao entrar no Teatro Armando Cortez, deparamo-nos com uma cortina branca a tapar o palco. Uma bolinha vermelha surge no canto superior direito, como se estivéssemos a ver televisão, e são projetadas entrevistas dos anos 90 feitas a mulheres de várias idades e grupos sociais que inspiraram e informaram os textos escritos por Ensler. A cortina sobe para revelar um cenário simples: um chão alcatifado, aconchegante, vermelho, três bancos altos e três microfones. No tecto, vários candeeiros ecléticos criam luz ambiente no palco. As três atrizes aparecem vestidas de preto, todas com vestidos leves e curtos. O cenário está montado para possibilitar o contar destas histórias que são os monólogos que constituem a peça, para o encarnar de diferentes e variadas personagens, cada uma com a sua história e mensagem.

Fotografia: Inês Guimarães | Espalha-Factos

Três atrizes, muitas mais histórias para contar

No início de cada um dos monólogos é nos dada uma contextualização em forma de dedicatória, antes das luzes se apagarem e um simples e intenso foco levar o nosso olhar para longe dos altos bancos pretos onde as outras atrizes estão sentadas, envoltas na escuridão, para nos fixarmos numa nova personagem e na nova história que passará a ser contada. E são várias as personagens que passam pelo palco, das mais variadas idades e contextos, assim como são variados os seus monólogos – alguns mais divertidos, outros bem mais sóbrios, todos no entanto tentam passar uma mensagem de empoderamento através de uma história relacionada com a vagina, que se quer aqui mostrar como expressão máxima da individualidade de cada pessoa.

São várias as histórias que contam cada um destes monólogos, e são portanto várias as personalidades encarnadas pelas atrizes nesta peça. Para tal, é essencial a sua capacidade de nos transportarem com elas de monólogo em monólogo, e cada uma das atrizes tem algo que joga a seu favor: Joana Pais de Brito é capaz de se transformar tanto numa criança de sete anos como numa idosa e de nos fazer rir ou chorar conforme pede o texto; Paula Neves tem uma entrega incontida, que sente cada palavra que diz e passa todas as emoções nelas contidas para o público; e Júlia Pinheiro, na sua estreia em palco, transparece honestidade, tornando seu cada um dos monólogos, conseguindo representar de forma natural personagens tão diferentes de si mas continuar credível, apesar do público já conhecer tão bem os seus maneirismos e jeitos, dos quais ela faz uso também aqui.

Fotografia: Inês Guimarães | Espalha-Factos

Um espetáculo sobre o empoderamento feminino… com cariz solidário

Este é um espetáculo que consegue manter um incrivelmente bem calculado equilíbrio entre o riso, a crítica e o choque. Que fala do que não quer ser falado – começando logo de início pela enumeração das diversas e variadas maneiras que a língua portuguesa tem para se referir à vagina, preparando-nos para o que se segue – temas tão revoltantes como as violações de guerra ou tão prosaicos como a depilação, eliciando tanto lágrimas como gargalhadas do público, deixando-nos com revolta, ou repulsa, mas também confiança.

Vale a pena aproveitar e ir assistir a estes Monólogos da Vagina, uma peça que, apesar de escrita há mais de vinte anos, continua infelizmente atual e, por isso, incontornável. Está em cena no Teatro Armando Cortez de quintas-feiras a sábados às 21h30 e domingos às 18h. No dia 27 de março, Dia do Teatro, haverá uma sessão especial com conversas com o público e cuja receita reverterá em metade para a APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima) e para a UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta), associações empenhadas na luta pelos direitos das mulheres.

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