Alvalade chamou por nós e estivemos à conversa com Tomás Wallenstein e Domingos Coimbra, acerca do novo disco dos Capitão Fausto. Numa tarde primaveril, algures no meio do bairro lisboeta, encontramos os dois membros da banda prontos a partilhar um pouco mais sobre o processo criativo de A Invenção do Dia Claro.

Será A Invenção do Dia Claro ou a reinvenção dos capitão fausto?

Domingos Coimbra: Eu acho que nós nos reinventamos em todos os discos. Hoje em dia olhar para o Gazela já é algo muito distante. Penso que à medida que vamos fazendo os discos, vamos ficando fartos deles e quando fazemos músicas elas são quase uma resposta às anteriores. No entanto, no caso deste [A Invenção do Dia Claro] houve alguma continuação de coisas que fizemos nos Dias Contados e das quais nos aproveitamos. Sonicamente não são parecidos, mas continuamos a ter arranjos de sopros e cordas. Talvez a reinvenção que tivemos neste disco se prenda com a simplificação destas canções. Por detrás dessa simplicidade, no entanto, estão várias camadas que não se revelam pela sua natureza complexa.

A primeira vez que ouvi o disco reparei que essa simplicidade se tornava mais complexa com o passar das canções.

DC: É curioso que já me disseram que o disco não entrou à primeira. Isso para mim interessa-me! Há pequenos pormenores que só se reparam à terceira ou quarta audição.

Vocês começam o disco com a Certeza. Qual será a maior certeza que podemos ter acerca dos Capitão Fausto?

DC: Há uma certeza ou uma espécie de espírito a pairar que no fim de cada trabalho ficamos com o bichinho de fazer mais coisas. Não há propriamente certezas, mas há sempre uma abertura de espírito para fazer planos para o futuro.

A nível lírico, quando analisamos mais as letras, nota-se um aproximar a questões mais íntimas. Qual é que foi o maior shift neste aspeto?

Tomás Wallenstein: Por acaso não houve grande shift nessa questão. A abordagem escrita foi talvez a coisa que mais se manteve ao longo dos discos. É sempre sobre experiências nossas e uma espécie de tentativa de introspecção, de auto-análise. Diria que a maior diferença parte mais do estilo de escrita do que do ponto de vista do conteúdo.

Relativamente ao Capitão Fausto Têm os Dias Contados pairava um maior derrotismo no disco. Será que este álbum traz a primavera consigo?

DC: Não o compararia ao anterior. Penso que por detrás das mensagens que o Tomás tenta transmitir simplesmente encontramos uma forma de cantar as coisas em uníssono, daí os coros serem cantados todos ao mesmo tempo.

TW: Independentemente do que se está a dizer, cantar com alegria foi uma coisa que resultou neste disco e não propriamente uma estratégia. Acho que são melodias mais solarengas e isso talvez seja um fenómeno que importamos da música brasileira. Não diria que o Capitão Fausto Têm os Dias Contados seja derrotista mas sim fatalista. Este também o é, só que com um pouco mais de esperança.

Relativamente a terem gravado no Brasil, vocês já levavam o disco pensado?

TW: Levamos já um esquema bastante final do que é hoje o disco. Não foi a nossa estadia lá que influenciou aquilo que gravamos, mas sim o facto de sabermos que íamos para lá que provavelmente influenciou um bocadinho mais.

Se formos ao primeiro disco, existem mais músicas escritas acerca da vida boémia jovem, por exemplo. Esta maior introspecção estará relacionada com o vosso crescimento enquanto banda e com a própria experiência de vida?

DC: Há uma música neste disco (Boa Memória) que tem uma letra a puxar bastante para o lado boémio. Penso que o que muda realmente em relação ao Gazela é a existência de uma camada mais densa por cima dessa boémia. Uma música como a Febre por exemplo!

TW: Sim, também eram mais superficiais e éramos mais novos. Todos os discos representam fases e nós passamos muitas juntos. A boémia é sempre um tema presente até porque a nossa vida gira um pouco à volta disso, a nossa profissão quase que o requer.

Cada disco também acaba por ser uma coletânea de momentos daquela época, portanto…

TW: Eu gosto sempre da metáfora de chamar aos discos uma fotografia da banda na altura em que foi gravado.

Ouvindo a Lentamente percebe-se que a música fecha de modo teatral, com a banda a parar lentamente e aplausos a terminar. Estes vêm precisamente antes do Final, que acaba de forma mais calma.

TW: Se reparares os concertos também têm um final e depois vem o encore. Nesse caso específico, antes de decidir o alinhamento do álbum, já tinha imaginado essa coincidência por razões estéticas. É mais por chegar ali perto do final após tudo o que se passou. O Sgt. Pepper’s dos Beatles também termina dessa forma, onde há um final apoteótico e depois se passa para a Day in The Life.

DC: Se não me engano essas palmas até já foram feitas no Brasil. Até acho que aquele final meio épico merecia palmas!

TW: Nós achamos muita piada a estar a bater palmas a nós próprios no estúdio.

Este disco, apesar de consistente, traz-nos uma certa viagem sonora por altos e baixos. Há toda uma festa pelo meio e depois, sim, vem a catarse:

TW: Quando começamos eu já tinha uma ideia muito específica acerca de como o álbum ia iniciar, o que tinha no meio e depois o final. Idealizei um alinhamento não necessariamente o melhor, mas fomos discutindo isso porque ia influenciar a forma como ia escrever cada canção. As letras fazem sentido nesse encadeamento. Tudo ia dar a esse quase final… esse reinício!

No Final, a letra diz que está algo escondido. O que é que os Capitão Fausto nos ocultam?

TW: Aí diz mesmo que é a paz em si (entretanto, Tomás cita meia dúzia de versos da canção)

Apesar de terem acabado de editar um disco, o que é que o futuro vos reserva?

TW: Vamos ter mais digressões! Temos música para compor nos próximos tempos que ainda não podemos revelar para o que vai servir. Vamos ter uma digressão depois do verão e, para já, não estamos com tempo a mais.

Depois destes concertos de apresentação o que há de planeado?

TW: Antes do Verão temos alguns teatros e no verão uma data de festivais, que ainda não revelamos.

E assim lá andam os portugueses nas suas aventuras sónicas. Os Capitão Fausto cresceram, saíram debaixo das saias da mãe e talvez tenham escrito lições de como saber lidar com a idade adulta – tudo a que nela se tem direito. É verdade que “não se pode estar sempre bem”, dizem eles, mas com A Invenção do Dia Claro tudo se tornou lúcido.

Fotografia de Tiago Filipe