Pretty Little Liars: The Perfectionists chegou a 20 de março numa tentativa de repetir o sucesso de Pretty Little Liars, também original do Freeform (ABC Family). Comparámos o primeiro episódio de cada versão para percebermos se a nova aposta está no bom caminho para conquistar espectadores.

No primeiro episódio é possível fazer comparações com Pretty Little Liars. Esta, em 2017, tornou-se imediatamente num sucesso com 2.47 milhões de espectadores.

Há várias formas de se começar uma história e várias formas de a contar. É aí que as produções se distinguem.

Artigo pode conter spoilers dos primeiros episódios de Pretty Little Liars e Pretty Little Liars: The Perfectionists.

Nos primeiros episódios o essencial é apresentar as personagens, o ambiente e ter capacidade de prender os espectadores ao ecrã.

Pretty Little Liars, T1E1

Pretty Little Liars: The Perfectionists, T1E1

Onde tudo começou

Se as primeiras impressões são as que marcam impacto, vamos analisar as cenas iniciais dos primeiros episódios de ambas as séries.

A série original opta por começar com um flashback que nos mostra um grupo de amigas. No entanto, nesse quadro falta uma peça — Alison (Sasha Pieterse), a mean girl — que aparece em cena pregando a nós e às personagens um susto.

Alison é o centro para onde todas as outras convergem, dando-lhe o máximo de atenção. Nós não percebemos o porquê. As suas primeiras falas mostram que é manipuladora, negativa e tóxica.

“As amigas partilham segredos. É isso que nos mantém unidas”.

Alison domina através do medo, da manipulação e da chantagem. É apresentada como a antagonista e, para nosso espanto, desaparece no primeiro episódio.

Obtemos toda esta informação pelo flashback inicial e depois voltamos ao presente equivalente a um ano depois do desaparecimento. Todos acreditam que Alison morreu.

Até que as jovens começam a receber mensagens assinadas por ‘A’. E ‘A’ sabe os segredos que Alison utilizava para as controlar. Ficamos intrigados. O episódio acaba com o funeral de Alison e nunca chegamos a vê-la.

Pretty Little Liars: The Perfectionists também utiliza o flashback como recurso ao longo do episódio para percebermos como Nolan (Chris Mason), o antagonista, consegue fazer o mesmo que Alison quando era adolescente. O que tem contra as outras personagens para as chantagear? Descobrimos tudo sem grandes rodeios ao longo do episódio.

O começo é feito no presente, dado em voz off. A narração introduz-nos num novo local, onde se vai desenrolar a história — Universidade Beacon Heights.  As personagens vão aparecendo isoladas nas suas atividades.

A busca pela perfeição cria demasiada pressão. No primeiro minuto percebemos que estamos perante um crime. Resta esperar que ele aconteça para sermos os detetives mais uma vez.

Para nosso espanto Nolan é a vítima. E sim, desta vez, vemos o corpo.

A narrativa

A forma como as cenas são construídas não são inocentes.

No caso de Pretty Little Liars, quando Alison surge pela primeira vez, numa noite de tempestade, e conseguimos olhar para a cara dela, irrompe um trovão, cuja luz incide no seu rosto, criando uma mistura de luz e sombras.

É um claro exemplo da forma a querer dar conta do conteúdo.

No segundo caso, é mais difícil sabermos o que é ou não indício. Não sabemos o futuro. Porém, tivemos direito a algumas revelações. Houve pelo menos dois indícios que serviram para a construção do episódio.

Mona a falar várias vezes para um espelho serviu para a revelação final — ela está ligada às pessoas que espiam tudo e todos.

A morte de Nolan também é previsível, momentos antes na mesma noite, temos as restantes personagens principais a conspirarem contra ele por estarem fartas do seu controlo.

Pretty Little Liars: The Perfectionists, T1E1

Tanto uma série como a outra pretendem desvendar um mistério. A primeira foi mais criativa. Foi de encontro à ideia de stalkers na Era Digital, deixando-nos na dúvida quanto à morte de Alison. Nada fica resolvido, não temos certezas.

Já a segunda deixa-nos com várias premissas intrigantes para refletirmos: um crime de homicídio, um conjunto de espiões secretos e a revelação de que Taylor, a irmã de Nolan, ao contrário do que a maioria pensa, está viva, mas escondida. Porquê? O objetivo é deixar-nos curiosos para continuarmos a ver.

Outra semelhança entre as séries é a representatividade da comunidade LGBT presente logo no primeiro episódio de ambas, evidenciada de formas diferentes.

Em Pretty Little Liars é menor. Constroem-se apenas indícios de que Emily tem interesse por raparigas. Não fica explícito. A própria ainda não está confortável para ser ela mesma.

Em Pretty Little Liars: The Perfectionists o tema é tratado com muito mais naturalidade e abundância. Dylan, um dos protagonistas está numa relação séria com Andrew (Evan Bittencourt). E Nolan aparece numa sequência em flashback a envolver-se com Dylan. Além disso, temos conhecimento de que Caitlin, outra das personagens principais, tem duas mães, apesar de ainda não as termos conhecido.

Talvez esta opção esteja ligada à mudança dos tempos e das mentalidades que começam a perceber que é justo para todos haver diversidade nas produções.

Um ambiente familiar

A construção de um ambiente misterioso e tenso é semelhante nas duas produções. Pertencem ao mesmo universo. A cidade e os protagonistas mudam. O estranho, o inquietante que já é familiar e adorado pelos fãs da série, permanece.

A música ganha uma enorme importância em ambas as produções para ajudar a construir o ambiente, a tensão ou, simplesmente, para acompanhar uma personagem.

Pretty Little Liars também começa com a música que as personagens estão a ouvir numa espécie de festa privada. Dá-nos uma sensação de descontração que é interrompida quando a eletricidade vai abaixo repentinamente. A música serve para demonstrar o estado atual das jovens em cena.

Pretty Little Liars: The Perfectionists foca-se no tema da perfeição e do talento. Começa com Dylan a tocar ‘Poker Face’, de Lady Gaga, num violoncelo. O ritmo apressado da canção funciona como um preparar do espectador para a tensão do episódio e, talvez, como metáfora para a pressão que todos sentem em representar de forma perfeita, em ser a melhor versão de si mesmos.

Os velhos e os novos mentirosos

Algo fundamental em ambas as séries é o elenco. Sem atrizes e atores competentes seria difícil ligarmos-nos emocionalmente às personagens, tanto pela positiva como pela negativa.

Em Pretty Little Liars temos no elenco Troian Bellisario (Spencer), Ashley Benson (Hannah), Lucy Hale (Aria), Shay Mitchell (Emily), Sasha Pieterse (Alison) e Janel Parrish (Mona).

As duas últimas integram o elenco do spin-off juntamente com Sofia Carson (Ava) e Sydney Park (Caitlin), Eli Brown (Dylan), Hayley Erin (Taylor) e Chris Mason (Nolan).

Certamente que a escolha de colocar Sasha Pieterse (Alison) e Janel Parrish (Mona) na série foi estratégica, afinal já são personagens familiares do público.

Pretty Little Liars: The Perfectionists/Divulgação

Veredito

A recente aposta da Freeform parece seguir um caminho sem rodeios, não esquecendo a importância da tensão e do mistério deste universo.

Apresenta uma vibe mais madura ao integrar duas personagens, cujos arcos de desenvolvimento observávamos durante anos. Retrata, ainda, os problemas dos jovens. Os dois lados relacionam-se e é interessante vermos como a perspectiva de Alison mudou.

Trata-se quase de um teste, sendo nós os professores. Alison e Mona são pessoas melhores? Ainda não temos como responder definitivamente a esta questão, mas tudo indica que Mona está a trabalhar para as pessoas erradas.

Jogar com a curiosidade dos espectadores já mostrou resultar antes. Apesar da nova aposta ter optado por revelar mais no primeiro episódio, ao contrário do que aconteceu em Pretty Little Liars, também tem tudo para funcionar. O elenco mostrou-se competente e interessante. Há várias camadas ainda por descobrir.

Novamente baseada nos livros de Sarah Shepard e produzida por Marlene King, a primeira temporada de Pretty Little Liars: The Perfectionists, contará com dez episódios.

Em Portugal estreou na HBO (21). Às quintas-feiras sai novo episódio.