‘Nós’: Uma arrepiante sátira do mundo contemporâneo
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A expetativa era elevada para o regresso de Jordan Peele ao grande ecrã, após o enorme sucesso de Foge. Nós acarretava a difícil missão de seguir as passadas do seu antecessor, afirmando-se como mais um êxito caraterístico de Peele: outra aterradora caricatura, fixada na junção de comédia e medo.

A mais recente obra do realizador é a prova viva de que este consegue superar-se. Numa moderna abordagem ao clássico Funny Games, Nós compila todos os pontos fortes do cinema de terror, oscilando entre a esperada tensão de cortar à faca e momentos arejados que concedem ao espetador alguma margem para respirar.

Quando Peele refere que o seu novo filme é propício a discussão não está, certamente, a exagerar. Para além da esperada conotação política, o segredo de Nós está nos mais ínfimos detalhes, convite claro à desconfiança nas primeiras impressões e ao constatar tanto do evidente, como do invulgar.

A aguardada estreia aconteceu a 21 março nas salas de cinema portuguesas.

O medo da própria sombra

“Portanto, assim diz o Senhor: Eis que lançarei o mal sobre eles, do qual não poderão escapar; e apesar de aclamarem por mim, eu não os escutarei” (Jeremias, 11:11).

O versículo da Bíblia apresentado é um importante elemento a ter em conta ao desconstruir a poderosa obra que é Nós. De facto, esta passagem serve de subtil mote a todo o enredo, com uma pequena particularidade: o ser humano acaba por desempenhar um duplo papel, evidenciando o maligno e o divino presentes em cada um.

Aqui reside a mais importante lição que uma simples família, em busca de férias relaxantes, aprende da pior maneira. O filme introduz Adeleide Wilson (Lupita Nyong’o), uma personagem bastante complexa, assombrada por um duplicado de si mesma, desde a infância. Agora, já adulta, decide passar o verão no local que desencadeou todo o seu trauma, juntamente com o marido (Winston Duke) e os dois filhos (Shahadi Wright e Evan Alex). O que pode correr mal, não é verdade?

Fonte: NOS Audiovisuais

No seguimento de estranhas coincidências que alimentam a paranoia de Adeleide, a família depara-se com um estranho grupo de intrusos que tenta entrar à força em sua casa. A inoportuna visita sofre uma  reviravolta, quando a verdadeira identidade dos invasores é revelada. “Somos nós!”, palavras que refletem o pânico do filho mais novo.

Conclui-se que existem duas famílias. Existem dois lados para cada pessoa. Um é são, empático e respeitador. O outro é selvagem, cruel e sedento de poder. Este contraste entre polos opostos é intrigante por diversos motivos.

Fonte: NOS Audiovisuais

Primeiramente, trata-se de uma alegoria para a complexidade da natureza humana. Todos possuímos o paradoxo do bem e do mal no nosso íntimo. A oscilação persistente do Homem como criador e destruidor não é algo novo. O inovador surge no momento em que estas noções entram em confronto com o mundo contemporâneo. O que acontece quando perdemos aquilo que nos faz humanos em prol de noções efémeras? O que acontece quando corporações incógnitas, ambicionando o epíteto do controlo, tentam converter a humanidade num mero fantoche?

Jordan Peele refere que este é um conto sobre o seu país e tal não poderia ser mais evidente. O atual clima político nos Estados Unidos da América é o perfeito exemplo de como, muitas vezes, olhamos para “os outros” como o problema. Afinal, sempre fomos o nosso pior inimigo.

Fonte: NOS Audiovisuais

No entanto, o que seria desta envolvente dimensão metafórica sem um elenco à altura? Lupita Nyong’o é, de forma inegável, a grande estrela do filme. A versatilidade e desenvoltura que esta demonstra ao interpretar as múltiplas faces de Adeleide deixam qualquer um boquiaberto. Lupita detém um dos melhores desempenhos cinematográficos dos últimos anos, fazendo jus ao seu estatuto de atriz consagrada.

Winston Duke é, também, bem-sucedido, centrando-se maioritariamente no comic relief, à semelhança de Shahadi Wright e Evan Alex, que se estreiam, de forma admirável, nos seus primeiros grandes papeis.

Fonte: NOS Audiovisuais

Pensar duas vezes

Inicialmente, ao deixar a sala de cinema, parti com a sensação de que tudo tinha acontecido demasiado depressa. No fundo, a minha primeira apreciação de Nós ia ao encontro do meu problema com Foge. O filme era agradável, sem sombra de dúvida, com uma estrutura narrativa sólida. Porém, o tão esperado clímax, que prometia, por fim, justificar o bizarro, acabou por desiludir. Não era uma má conclusão, mas parecia construída à pressa, desgarrada do enredo si. Como se o seu único propósito fosse apenas dar uma espécie de conclusão a um ataque de clones mutantes e não propriamente fazer sentido.

Fonte: NOS Audiovisuais

Todavia, após analisar a fundo o filme, posso admitir que estava enganada. Se há algo que eu adoro em termos de estórias, seja no cinema ou em papel, é sentir que o início de uma obra foi elaborado já a pensar no seu fim. Nós é exatamente um desses momentos. Cada pormenor é uma antevisão do grande desfecho que se aproxima. Tal minuciosidade não é óbvia, mas está lá para quem se der ao trabalho de refletir um pouco mais. Desde um simples estalar de dedos ao ritmo da música, a pequenas nuances comunicativas, tudo acaba por encaixar no intricado puzzle que é Nós.

Fonte: NOS Audiovisuais

Escassos são os trabalhos, na área do cinema de terror, elaborados com tanta mestria, conseguindo ser percetíveis e imprevisíveis, em simultâneo. Os típicos clichés são totalmente invertidos: não existe o estigma de o negro ser sempre o primeiro a morrer, nem se ataca o inimigo sem antes chamar a polícia. Uma banda sonora alegre e despreocupada é convertida num circo de horrores, com transições melódicas que, não só arrepiam, como provocam gargalhadas.

Fonte: NOS Audiovisuais

O único ponto negativo a denotar seria a presença de algumas pontas soltas que acabam por não ser abordadas de todo. Talvez seja a consequência de querer explorar em detalhe alguns tópicos específicos, deixando outros de parte. Mesmo assim, nada que uma boa sequela não resolva eventualmente.

Nós impõe-se como coletânea das mais macabras surpresas, exigindo muito do seu público. Uma alucinante experiência cinematográfica, sem dúvida, a repetir.

 

Título original: Us

Realização: Jordan Peele

Argumento:  Jordan Peele

Elenco: Lupita Nyong’o, Winston Duke, Shahadi Wright, Evan Alex

Género: Terror, Thriller

Duração: 116 minutos