Neste Dia Internacional da Poesia, o Espalha-Factos procurou vários poemas que marcaram na vida de 6 personalidades que conheces, nacionais e internacionais.

Um poema pode influenciar uma vida, reforçar um amor ou ajudar a suportar uma pena de prisão. Descobre quais os poemas que marcaram a vida de Nelson Mandela, Marcelo Rebelo de Sousa, Maria Barroso, Francisco José Viegas, Valter Hugo Mãe e Luís Mendes.

Nelson Mandela, Invictus de William Ernest Henley

William Ernest Henley publicou, em 1888, o famoso poema Invictus ou Invicto, em português. O mesmo poema inspirou uma das figuras mais importantes da viragem do século XXI: Nelson Mandela. Um “simples” poema ajudou o Nobel da Paz a suportar os 27 anos de cadeia após ter sido condenado pelo apartheid.

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“Da noite escura que me cobre,

Como uma cova de lado a lado,

Agradeço a todos os deuses

A minha alma invencível.

Nas garras ardis das circunstâncias,

Não titubeei e sequer chorei.

Sob os golpes do infortúnio

Minha cabeça sangra, ainda erguida.

Além deste vale de ira e lágrimas,

Assoma-se o horror das sombras,

E apesar dos anos ameaçadores,

Encontram-me sempre destemido.

Não importa quão estreita a passagem,

Quantas punições ainda sofrerei,

Sou o senhor do meu destino,

E o condutor da minha alma.”

(tradução de Thereza Christina Rocque da Motta)

Marcelo Rebelo de Sousa, Portugal Futuro de Ruy Belo

Quando o jornal Público perguntou a Marcelo Rebelo de Sousa para escolher apenas um poema da sua vida, o atual Presidente hesitou, mas lá escolheu. No meio das suas muitas leituras acabou por escolher Portugal Futuro do poeta Ruy Belo. O professor descreveu este poema como um dos poemas que mais marcou a sua vida, principalmente na década de 70, ainda no período da ditadura portuguesa.

“O Portugal  futuro é um país

aonde o puro pássaro é possível

e sobre o leito negro do asfalto da estrada

as profundas crianças desenharão a giz

esse peixe da infância que vem na enxurrada

e me parece que se chama sável

Mas desenhem elas o que desenharem

é essa a forma do meu país

e chamem elas o que lhe chamarem

portugal será e lá serei feliz

Poderá ser pequeno como este

ter a oeste o mar e a espanha a leste

tudo nele será novo desde os ramos à raiz

À sombra dos plátanos as crianças dançarão

e na avenida que houver à beira-mar

pode o tempo mudar será verão

Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz

mas isso era o passado e podia ser duro

edificar sobre ele o portugal futuro.”

Maria Barroso, Para ti meu amor de Mário Soares

A história de amor entre Maria Barroso e Mário Soares é conhecida por todos os portugueses. Mas poucos sabem que, quando esteve preso em Aljube, Mário Soares escreveu um poema para a sua amada da altura, Maria Barroso. Quando foi convidada pelo jornal Público a fazer uma compilação dos poemas da sua vida, Maria Barroso elegeu este como um dos poemas mais marcantes da sua existência. Compreensível, visto que ninguém ficou indiferente à sua leitura, feita por Mário Soares, no funeral da esposa em 2015.

“Para ti

Meu amor

Levanto a voz

No silêncio

Desta solidão em que me encontro

Sei que gostas de ouvir

A minha voz

Feita de palavras ternas e doces

Que invento para ti

Nos momentos calmos

Em que estamos sós

Sei que me ouves

Agora…

…uma vez mais

Apesar da distância

E do silêncio

Opera esse milagre

Simples

Como tudo o que é natural.”

Valter Hugo Mãe, A Elisabeth foi-se embora (com algumas coisas de Anne Sexton) de Adília Lopes

Valter Hugo Mãe é um dos escritores mais importantes da contemporaneidade. Escreve prosa e poesia e é um assumido amante de literatura. Escolheu este poema, a convite do jornal Expresso como um dos seus preferidos. Deixamos aqui o poema de Adília Lopes:

“Eu que já fui do pequeno almoço à loucura

eu que já adoeci a estudar morse

e a beber café com leite

não posso passar sem a Elisabeth

porque é que a despediu senhora doutora?

que mal me fazia a Elisabeth

a lavar-me a cabeça

não suporto que a senhora doutora me toque na cabeça

eu só venho cá senhora doutora

para a Elisabeth me lavar a cabeça

só ela sabe as cores os cheiros a viscosidade

de que eu gosto nos shampoos

só ela sabe como eu gosto da água quase fria

a escorrer-me pela cabeça abaixo

eu não posso passar sem a Elisabeth

não me venha dizer que o tempo cura tudo

contava com ela para o resto da vida

a Elisabeth era a princesa das raposas

precisava das mãos dela na minha cabeça

ah não haver facas que lhe cortem o

pescoço senhora doutora eu não volto

ao seu antiséptico túnel

já fui bela uma vez agora sou eu

não quero ser barulhenta e sozinha

outra vez no túnel o que fez à Elisabeth?

a Elisabeth era a princesa das raposas

porque me roubou a Elisabeth?

a Elisabeth foi-se embora

é só o que tem para me dizer senhora doutora

com uma frase dessas na cabeça

eu não quero voltar à minha vida.”

Luís Filipe Castro Mendes, Beijo de Paul Éluard

Escritor, poeta, político, diplomata e ficcionista português, Luís Filipe Castro Mendes é uma das figuras mais emblemáticas da história política e literária portuguesa. Escolheu o poema Beijo de Paul Éluard como um dos mais marcantes da sua vida (em entrevista ao jornal Público). Apesar de pequeno, é um poema forte:

“Ainda toda quente da roupa tirada

Fechas os olhos e moves-te

Como se move um canto que nasce

vagamente mas em toda a parte

Perfumada e saborosa

Ultrapassas sem te perder

As fronteiras do teu corpo

Passaste por cima do tempo

Eis-te uma nova mulher

Revelada até ao infinito.”

Francisco José Viegas, Os Justos de Jorge Luís Borges

Francisco José Viegas é jornalista, escritor e editor português. Foi ministro da Cultura português e chegou a editar também poemas em nome próprio. Escolheu o poema Os Justos, a convite do jornal Observador em 2016 e é ainda, com certeza, um preferido do escritor:

“Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.

O que agradece que na terra haja música.

O que descobre com prazer uma etimologia.

Dois empregados que num café do Sul jogam um xadrez silencioso.

O ceramista que premedita uma cor e uma forma.

O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.

Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.

O que acarinha um animal adormecido.

O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.

O que agradece que na terra haja Stevenson.

O que prefere que os outros tenham razão.

Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.”

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