Chegou a primavera e com ela o Dia Mundial da Poesia. Celebra este dia vendo os poemas que os redatores do Espalha-Factos escolheram para ti.
Em versos, o Homem transforma os seus sentimentos mais profundos e misteriosos. Em tercetos, quadras, quintilhas e sextilhas, o poeta faz-se ouvir através das palavras e exprime o que de bem e de mal lhe vai na alma. A poesia, que parece economizar nas palavras, diz muito no pouco que diz. Cada palavra transmite mais do que o seu significado e, quando escolhida para o texto, jamais poderá ser substituída.
O Espalha-Factos não podia deixar passar este dia em branco, por isso reuniu alguns dos poemas prediletos dos redatores, que visam enaltecer os textos e sujeitos poéticos enunciados.
Ser Poeta
“Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendos
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!”
Florbela Espanca, Charneca em Flor,
in Poesia Completa (1994)
Florbela Espanca
Reconhecida como uma grande figura feminina da poesia portuguesa, Florbela Espanca destaca neste seu texto a importância do poeta, dos homens que escrevem poesia e compara-os a um gesto agressivo e, simultaneamente, amoroso – “Morder como quem beija!”. A poetisa destaca ainda o significado que a poesia tem na vida dos poetas.
Este poema foi adaptado musicalmente e é cantado por Luís Represas.
Passagem
“Com que palavras ou que lábios
é possível estar assim tão perto do fogo
e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas,
tão sem peso por cima do pensamento?
Pode bem acontecer que exista tudo e isto também,
e não só uma voz de ninguém.
Onde, porém? Em que lugares reais,
tão perto que as palavras são de mais?
Agora que os deuses partiram,
e estamos, se possível, ainda mais sós,
sem forma e vazios, inocentes de nós,
como diremos ainda margens e diremos rios?”
Manuel António Pina, Passagem,
in Como se Desenha uma Casa (2011)
Manuel António Pina
O poema Passagem, da autoria Manuel António Pina, fala-nos acerca da poesia como uma fuga à linguagem comum e ao uso comum da linguagem. Apesar de todos estarmos condenados à passagem do tempo e às partidas dos deuses, a poesia subsiste e existe sempre, dá-nos voz e forma e combate o silêncio e o vazio.
Nos versos de bons poemas encontramo-nos connosco mesmos. Vemos escritos e descritos sentimentos que não sabemos expressar. A poesia tem o dom de tornar belo até o pior dos sentimentos. As letras unem-se as palavras formam-se, os versos interligam-se e há uma mensagem que prevalece. Sábio é quem, por palavras, consegue mudar vidas e os poetas “sabem-no e sabem-no bem“.
Náusea. Vontade de nada.
“Náusea. Vontade de nada.
Existir por não morrer.
Como as casas têm fachada,
Tenho este modo de ser.
Náusea. Vontade de nada.
Sento-me à beira da estrada.
Cansado já do caminho
Passo pra o lugar vizinho.
Mais náusea. Nada me pesa
Senão a vontade presa
Do que deixei de pensar
Como quem fica a olhar…”
Fernando Pessoa in Poesias Inéditas (1930-1935)
Fernando Pessoa
Fernando Pessoa, o poeta que foi muitos poetas, expressa neste poema a angústia e insatisfação do sujeito poético. Nesta composição lírica, o “eu” poético apresenta um estado depressivo, está “de mal com a vida” e com tudo ao seu redor. Toda a sua vida reflete a insatisfação que sente e os as suas falhas constantes acentuam esse seu estado deprimente. Estão presentes neste poema duas “dores” muito características de Fernando Pessoa: a “dor de pensar” e a “angústia constante”, que marcaram grande parte dos poemas do ortónimo.
-Catarina Costa
Saí do comboio…
“Saí do comboio,
Disse adeus ao companheiro de viagem
Tínhamos estado dezoito horas juntos..
A conversa agradável
A fraternidade da viagem.
Tive pena de sair do comboio, de o deixar.
Amigo casual cujo nome nunca soube.
Meus olhos, senti-os, marejaram-se de lágrimas…
Toda despedida é uma morte…
Sim toda despedida é uma morte.
Nós no comboio a que chamamos a vida
Somos todos casuais uns para os outros,
E temos todos pena quando por fim desembarcamos.
Tudo que é humano me comove porque sou homem.
Tudo me comove porque tenho,
Não uma semelhança com ideias ou doutrinas,
Mas a vasta fraternidade com a humanidade verdadeira.
A criada que saiu com pena
A chorar de saudade
Da casa onde a não tratavam muito bem…
Tudo isso é no meu coração a morte e a tristeza do mundo.
Tudo isso vive, porque morre, dentro do meu coração.
E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.”
Fernando Pessoa in Poemas Escolhidos de Álvaro de Campos
(2013)
Álvaro de Campos assume-se como o heterónimo mais caótico de todos os que habitavam a mente do poeta. Frenético, por vezes até bipolar na sua forma de sentir – chegava a “sentir tudo de todas as maneiras”. O poema em causa não tem título mas inicia-se com a frase “Saí do comboio” e termina com uma das frases mais belíssimas algumas vez escritas na literatura portuguesa e internacional: “E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro”. A poesia tem este poder: fazer sonhar e inspirar quem se deixa embrenhar nela.