Já sedimentados na vida de estrada, depois da amável Gazela e os enfadonhos experimentos de Pesar o Sol, os Capitão Fausto resolveram o quebra-cabeças e perceberam como reivindicar um canto privilegiado na pop nacional: definir, em valor exato, o que é uma canção dos Capitão Fausto.

Foi uma estratégia vencedora, que gerou dezenas de exemplares, popularizados no rock alternativo nacional — a maior parte dos quais nem foram feitos pelos Capitão Fausto! Mas os primeiros reais exemplos são de autor, os oito finíssimos temas que perfazem uma das obras centrais da década, Capitão Fausto Têm os Dias Contados: a combinatória de ennui de jovem adulto e música de toada poética, grandiloquente, chegou-nos perfeitamente preparada — injeção vital, espelho de tanto desencantamento jovial. Versos contidos, suspensos, pouco dinâmicos a prefaciar a carga recrudescente de um refrão de dinamite catártica. Uma banda sem medos de cantar a sua geração em hinos (frequentemente meta e derrisórios), pronta para se fazer escorrer pelo nosso canal auditivo coletivo.

Posto isto nestes termos, talvez não seja de estranhar o facto de os Capitão Fausto terem, neste novo boom do indie português, ocupado o curioso lugar de denominador comum a toda uma geração — e é bonito ver o amor praticamente unânime por material tão portentoso, do Bons Sons a qualquer queima das fitas ou cineteatro. A ascensão a título imperial fez-se por pleno direito. E depois disso? Amolgar a folha com a fórmula ideal para evitar a tentação das fotocópias (sem falar daquelas que circulam fora do grupo)? Repeti-la, esperando a absolvição pela via da perfeição?

Boas questões com que lidar eventualmente, com a digressão aparentemente interminável em que se tornou a agenda dos Capitão Fausto, tão depressa encontráveis num Amoreiras como no Avante. A música levou-os até São Paulo, onde deram forma às ideias para um novo projeto. Não, isto não é um disco de samba-rock, mas paira-lhe muito casualmente a aura paulista — mesmo assim parece ter sido pulverizada antes de coalescer, para desfazer aquela narrativa de que encontraram o seu novo som no Brasil.

No fio da navalha, os Capitão Fausto têm uma resposta simples para potenciais dilemas da existência — pulverizá-los por via do movimento, pelo oxigénio de um novo amor, algo que continua hermético e monocórdico na voz de Tomás Wallenstein, mas é mais palpável que antes. E talvez não tenhamos uma resposta de cantos tão limados, mas a proposição é reveladora daquilo que hoje é Wallenstein, Domingos Coimbra, Francisco Ferreira, Manuel Palha e Salvador Seabra. E talvez a solução para o ennui tenha sido só abrir a janela.

Fotografia: Matilde Travassos

Fotografia: Matilde Travassos

A Invenção do Dia Claro encontra o quinteto de Alvalade num firme estado de fluxo, entre o derrotismo estival d’Os Dias Contados e uma abertura primaveril que perfuma o seu imaginário com uma felicidade inexorável, tão ampla que não pode evitar alguma suspeita de cinismo. A já conhecida ‘Sempre Bem’ funciona como declaração de intento: relativizar a dor passageira, engrandecer com um coral e rica instrumentação um tão simples momento como esse em que reconhecemos essa transitoriedade que dá graça à vida. É essa a experiência que aqui se canta e que define a postura expansional. O meio também é a mensagem — arranjos que despontam com generosidade melódica, apontamentos orquestrais, como se quisessem evocar aquele despertar que custa, em que o brinde do sol nascente faz esquecer que tivemos de madrugar antes da viagem.

É curioso como os Capitão Fausto configuram aqui o primeiro momento na discografia que não se pode isolar — nem, e talvez principalmente, à superfície — das aprendizagens imediatamente anteriores. Entretanto, os primeiros dois discos estão a léguas incontáveis do ponto em que a banda se encontra agora, mas mesmo entre estes a diferença é proeminente: Gazela, o scrapbook de rock de garagem, (felizmente) não é a proto-odisseia psicadélica de Pesar o Sol.

A cisão de Os Dias Contados foi ainda mais radical, pelo seu recorte enganosamente simples: uma simples coleção de perfeitos números pop. Pouco espaço comum entre cada um, pouquíssimos resíduos deixados de um para o outro. O novo disco é diferente, não sendo uma rutura, porque se define a partir do seu mais velho — na usual tradição de pensar demasiado sobre as coisas, é difícil imaginar dias claros sem os terem contado antes.

O propósito é mais disforme, mais fugaz. Pouquíssimo inventa em termos de composição e escrita, o mais importante é o que introduz: uma aragem, uma flexibilidade novas; a vontade de dançar, a abertura a tudo da vida. O que não é para dizer que deixaram de saber fazer as suas ruminações clássicas sobre companheirismo e romance — a encantadoramente pueril ‘Boa Memória’, que corta a inicial melancolia com boa disposição, a apaixonante ‘Amor, A Nossa Vida’ ou o ‘Final’ de mestre, quadro naturalista pintado com o azul celeste, tangido com parcimónia e duplo sentimento; perfeitos pontos de inflexão entre velho e novo. E, importa muito realçar, parte da razão pela qual o som aflora com tanta naturalidade deve-se ao aprimoramento de Miguel Pinheiro Marques, que faz com A Invenção do Dia Claro um dos trabalhos de masterização mais excelsos de que há memória na música portuguesa.

Para quem conheça bem o catálogo do grupo, haverá sempre um perfume de familiaridade — estruturas e ritmos que parecem canónicos, como sejam as guitarras staccato de ‘Alvalade Chama por Mim’ a reaparecer em ‘Amor, A Nossa Vida’ — mas não é pungente. Os refrões aqui tão imanentes, as melodias prodigiosas, a sumptuosidade instrumental: (quase) tudo a refinação da sua própria herança. A intenção é de evoluir em transição, não reaquecer, situados numa identidade já segura — e a única vez em que pendem para essa segurança, produzem só uma mancha no disco todo: a absolutamente esquecível, morosa ‘Outro Lado’, que pode muito bem ter sido recusada no último álbum. Apesar do passo equívoco, o rei não vai nu.

E é no êxtase primaveril que o disco tem pé — mesmo sendo difícil ouvir o grupo que cantou coisas como ‘Mil e Quinze’ neste tom, sem querer detetar um vestígio de cinismo, que pode muito bem estar lá, mas é engolido por tudo o resto que embrulha as canções, especialmente os triunfos estratosféricos. Em entrada direta para o cancioneiro nacional: a confissão astuta, sobejamente executada de ‘Faço as Vontades’, que curiosamente não provocou grande sobressalto em outubro, mas não interessa — transita para 2019 como uma das melhores canções do ano; a ode à paz de espírito relativa em ‘Sempre Bem’; ‘Lentamente’, embebida numa glória popular que não conhece quaisquer pedantismos musicais. Unem-se por uma felicidade de cortar a respiração, cada refrão doseado como uma cápsula de ultraêxtase, cada intervenção dos coros como um canto divino.

E qual é, afinal, o grande triunfo? O que é que inventaram mesmo? Conseguiram sair das saias da mãe? Conseguiram mediar o passado com a brilhantina de uma nova fase sorridente? Ganharam a aposta? Fizeram um novo clássico? Talvez estas questões tivessem excitado os Capitão Fausto da era passada. Hoje, estão diferentes, e igualmente nobres. Com A Invenção do Dia Claro, fazendo o diário de bordo de uma vida mais pacificada, por entre os amores maternal ou romântico, antes de mais, importa saber se faz sol — e isso já é reinvenção suficiente.