A EatTasty, empresa de confeção e entrega de comida, comemora três anos de vida. Até agora, a startup portuguesa serviu 140 mil refeições na zona da Grande Lisboa. O próximo objetivo é chegar a Madrid, ainda este ano. 

Rúben Couto é o chef responsável pela criação dos menus da plataforma, que entrega 600 refeições por dia. Em entrevista ao Espalha-Factos, o chef fala do presente e do futuro da EatTasty.

Espalha-Factos: Quando é que começou a sentir paixão pela cozinha?

Rúben Couto: Comecei a cozinhar não assim tão cedo, não comecei a cozinhar com nenhum familiar, não foi nada daquelas situações típicas de cozinheiro, nada disso. Foi uma situação quase de obrigação. Comia muito em quantidade mas comia pouca variedade. Adorava batata frita, carne e pouco mais. Houve um determinado momento em que me vi praticamente obrigado, disseram-me “vais começar a cozinhar para ti e é se te queres alimentar”. Devia ter 11, 12 anos. 

Mais tarde, comecei a cozinhar e, quando começas a cozinhar, ou gostas ou não gostas e eu comecei a gostar. Não quer dizer que quisesse seguir a carreira de cozinheiro ou que pensasse sequer nessa alternativa. Sempre gostei de cozinhar mas foi lentamente. Dei por mim a trabalhar em restauração para pagar os estudos e nunca mais larguei. Em vez de seguir o que estava a seguir, que era design gráfico, decidi agarrar-me àquilo que estava já realmente a gostar. O design gráfico já não me convencia de todo.

EF: Depois de trabalhar em vários restaurantes em Portugal e no estrangeiro, como é que surge a EatTasty?

RC: A EatTasty surgiu através de um convite do Rui e do Orlando, que são os fundadores da empresa. Eles conheceram-me por intermédio de um amigo cozinheiro. Naquele momento tinham uma ideia, sabiam o que queriam mas não sabiam cozinhar. Tinham uma ideia em termos logísticos e digitais mas faltava a parte prática e para isso necessitavam de um chef ou de um cozinheiro. Falámos algumas vezes, a ideia começou a amadurecer na minha cabeça, até que aceitei dentro de mim e fui em frente.

EF: Quais são as principais diferenças entre cozinhar em restaurantes premiados com estrelas Michelin e preparar refeições para entregar?

RC: Há uma questão de timing na entrega do produto, mas prefiro pensar nas semelhanças, como a pressão que tenho sempre na qualidade. Há sempre a pressão de entregar um bom produto, seja no restaurante com uma, duas ou três estrelas Michelin, seja numa tasca com petiscos, seja na nossa empresa de entrega de comida, que não é de transporte de comida, o que é uma grande diferença. Há um controlo constante do produto, do que está a acontecer, tudo digitalmente. Não é um controlo de toque humano, visual, direto. É um controlo através de um ecrã e de um telefone.

As diferenças são difíceis de definir, são mundos que se tocam porque é sempre a cozinha mas são mundos diferentes. Aprendi tanto em restaurantes de estrela Michelin que trago tudo para aqui. Também há diferenças de produto: as pessoas que pagam 5,90€ para a EatTasty não estão a pensar em comer lavagante ou percebes, produtos que normalmente cozinhamos em restaurantes Michelin.

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EF: Que requisitos tem de cumprir uma receita para ser um dos pratos da EatTasty?

RC: Acima de tudo, tem de ter qualidade. Os produtos têm de ser frescos. Eu e os nossos cozinheiros garantimos a segurança dos produtos, há rotinas e uma vigilância constante. Tem de ser uma refeição saborosa e apelativa. Tem de estabelecer uma comunicação direta com o cliente. O cliente tem de sentir uma empatia gastronómica com o produto. Tem de ser uma refeição equilibrada nutricionalmente, não somos fundamentalistas mas assumimos que quem escolher um produto diário da EatTasty, ao fim da semana terá uma alimentação regular e saudável. Esse é um propósito e um valor da EatTasty.

EF: Quais são os pratos que fazem mais sucesso?

RC: Há alguns que vendem mais e outros que vão surpreendendo. O caril de frango é um deles, os filetes de peixe em crosta de amendoim com arroz de berbigão, o bucatini com camarão e molho de tomate, o frango chili, os rojões com batata assada e grelos, a lasanha vegetariana. 

Há vários níveis daquilo que se deseja num prato, nem sempre desejo que um prato aceda a um determinado número de vendas para considerar que atingiu a sua plenitude. Por exemplo, com um caril temos como objetivo que venda um determinado número, já uma lasanha vegetariana, se atingir um outro número, pode ser tão bem sucedida como o caril ou mais. No caso dos rojões, é uma carne de porco que não é tão bem vista como uma carne de frango, que normalmente atinge uns 60, 70% da população, a carne de porco não atinge tanta gente. Em termos percentuais, se vendermos 30% de rojões e 60% de caril, ambos atingiram a sua plenitude. O sucesso varia não na venda mas em termos percentuais e também no que é que o cliente acha. 

Há pratos que às vezes nos surpreendem, parece que são estranhos mas resultam. Por exemplo, hoje [dia 12 de março] vendemos na totalidade um prato vegetariano, que representa 15% da produção total. Foi uma quinoa com espinafres, amêndoa salteada, alho francês grelhado e creme de espargos brancos. É um prato um pouco mais complexo, mas quem o compra sente que há ali um trabalho de chef. Não é um prato que vá todas as semanas para venda, enquanto há pratos que vão todas as semanas. Este normalmente entra de 15 em 15 dias e cumpre exatamente aquilo que queremos.

EF: Que novidades podemos esperar no menu nos próximos tempos?

RC: De certeza que haverá algum wrap, alguma tortilla vegetariana e mais alguns pratos vegetarianos. Acabou de sair um novo caril com espinafres e um novo hambúrguer. É provável que também haja um novo prato de peixe. Também haverá um prato vegan, que serão umas almôndegas de feijão preto com marinara, que é um molho de tomate, mas em vez de ser feito com tomate vai ser com cenoura, e um bulgur, que é uma espécie de quinoa, com ervas frescas. Como está a chegar o verão, os pratos também vão ser mais frescos. Provavelmente haverá uma sanduíche de frango feito na brasa com ananás e molho barbecue, com uma salada coleslaw à parte. 

Há imensas coisas na lista, o timing para entrarem depende de pequenos pormenores. Às vezes são pormenores que se resolvem num dia, outras vezes demoram duas semanas. Por exemplo as tortillas, por mais origamis que eu tenha feito, estamos às voltas com a forma de as encaixar na embalagem. Mal resolva esse problema, a tortilla está pronta a sair e, assim que sair essa, já há mais duas prontas: uma de couve flor assada e outra em que a base será de batata doce com grão de bico, ambas vegetarianas.

EF: Atualmente, quantos cozinheiros trabalham para a EatTasty e como é que se processa a sua formação?

RC: Neste momento temos cerca de 18 cozinheiros parceiros. Há diferentes tipos de cozinheiros a trabalhar connosco. Temos os cozinheiros de casa, com quem começámos e a quem ainda damos formação. Há os cozinheiros semi profissionais, que conseguem dar-nos uma produção maior e com quem consigo criar uma sinergia em termos de criação de receitas próprias. Temos também os restaurantes com quem estabelecemos parcerias e com quem trabalhamos receitas. Não são receitas dos restaurantes porque normalmente não funcionam num serviço de take-away. Por exemplo, colocar uma batata frita dentro de uma caixa não funciona. O objetivo é trabalhar qualquer receita que vejamos que tem potencial para entrar na EatTasty e aí vemos até ao mínimo detalhe o que é que interessa trabalhar. 

EF: Planeiam substituir as embalagens de plástico por outra opção mais sustentável?

RC: Há mais de dois anos que andamos a planear. Ainda não conseguimos encontrar um produto que fosse tão resistente como o plástico para aguentar a comida em plena qualidade, o peso das embalagens, a estabilidade, o transporte.

Temos de cumprir as nossas obrigações para com os clientes, desde logo uma entrega eficiente. Duvido que alguém em todo o mundo consiga fazer as entregas que fazemos, colocar um estafeta a entregar 40 a 50 refeições dentro de uma hora. Para isso temos de ter uma embalagem que leve essas 40 refeições lá dentro. Cada refeição leva, no mínimo, 400 gramas. No total são cerca de 16 quilos nas costas do estafeta, mais 30 gramas por cada embalagem de plástico, o que chega aos 17 quilos. Tudo isto a criar condensação por serem produtos quentes. Estamos um bocadinho de mãos atadas. Sabemos que cada vez é mais urgente encontrar outra solução e que o plástico não é o mais favorável, mas é o que temos para utilizar neste momento.

Há cerca de dois anos e meio temos uma parceria com a Refood para reutilizar as nossas embalagens. A nossa produção é planeada com uma semana de antecedência, é como fazer o plano do menu do dia para um restaurante. No início falhávamos um bocadinho e entregávamos à Refood as refeições que sobravam. O que fazemos agora é, depois utilizar as embalagens, os clientes podem passar por água e devolver aos nossos estafetas, para depois entregarmos à Refood, que precisa muito delas para distribuir refeições.

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EF: Um dos próximos objetivos é entrar no mercado espanhol. Como é que está a decorrer esta nova aposta?

RC: Para já, ainda estamos a estudar o mercado. Estamos a estabelecer uma equipa. Há alguns elementos que conhecem o mercado espanhol, eu vivi em Espanha, não em Madrid mas tenho algum conhecimento do país. Sabemos que é um mercado diferente. 

EF: Mas a previsão é que aconteça ainda este ano?

RC: Sim, ainda este ano. A vantagem é que não temos de levar muita coisa para lá, não temos de construir cozinhas, não temos de levar cozinheiros, não temos de levar quase nada. Temos de ter lá uma equipa, uns sete, oito elementos, uns computadores e levar todo o conhecimento e logística, descobrir os parceiros certos e a partir daí é começar a criar toda a estrutura em Madrid. A vantagem deste negócio é que podemos passar daqui para qualquer sítio com uma viagem de avião, basicamente.

EF: E em relação a Portugal, pensam continuar em Lisboa ou querem chegar a outras cidades?

RC: Eu sou do Porto e gostava que o Porto tivesse a EatTasty. Viemos para Lisboa porque sabíamos que era o mercado a testar. O Rui é de Famalicão e o Orlando é de Viana do Castelo, mas ambos trabalhavam no Porto e foi lá que nos conhecemos. Os nossos primeiros testes foram todos feitos no Porto, foi lá que tudo começou. Andámos quase um mês a fazer manobras de entrega a pé, à chuva, com temporizadores para ver se funcionava. Acho que todos gostaríamos que isso acontecesse, mas neste momento o foco é Lisboa e depois Madrid, uma grande metrópole.

EF: O que é que distingue a EatTasty da restante concorrência?

RC: Há concorrência? Sendo um bocadinho arrogante, não conheço concorrência, conheço empresas que fazem muitos tipos de serviços, têm muitas ofertas. Conheço algumas que sobreviveram, outras que sobrevivem, outras que vivem. Conheço outras que apareceram e que nos ajudaram em determinados momentos, foi bom esse boom, como os casos da Uber e da Glovo, mas são empresas de transporte que não gosto. Das vezes que encomendei, o resultado final não foi o que queria. 

Vejo outras empresas, outros players a fazerem pela vida mas não vejo uma concorrência direta à EatTasty. Temos um modelo de negócio único, uma oferta única, com produtos diferenciadores, um preço competitivo e clientes muito satisfeitos. Sobrevivemos a momentos delicados que nos fizeram crescer e perceber onde é que estávamos a falhar. Fomos crescendo, principalmente neste último ano. Neste momento temos conhecimentos e uma experiência de três anos que não sei se mais alguém terá.