A mais recente edição do maior evento da moda nacional chegou ao fim. O último dia de ModaLisboa Insight foi uma busca por novas identidades: Nuno Gama revelou-nos um dandy moderno, Nycole e Olga Noronha levaram-nos numa viagem de autodescoberta, Gonçalo Peixoto reinventou a mulher moderna e Dino Alves, bem como Ricardo Andrez, propôs uma rutura do mundo tal como o conhecemos.

NUNO GAMA

Como primeiro designer do dia a apresentar as suas propostas para a próxima estação fria, Nuno Gama surpreendeu-nos com um desfile diferente. Os convidados passeavam-se pela sala, enquanto os modelos masculinos se entretinham nas suas performances. Uns, vestidos a preto e azul escuro, subiam e desciam as bancadas no interior do pavilhão. Outros, o bando dos tons-terra, sentavam-se sobre as mesmas bancadas. E outros ainda se passeavam pela passerelle, formando um quadrado. No centro da mesma, uma banda tocava.

Numa coleção inspirada nos códigos de vestuário dos anos 30, os sapatos, mochilas e boinas foram acessórios-estrela. Os indispensáveis fatos de três peças fizeram-se com sobretudos, branquinhos com riscados bicolores e camisas de colarinhos redondos, ornamentadas com laços ou abertas, revelando a camisola interior ligeiramente desabotoada.

Adicionando ao repertório as lãs de aspeto rústico e as calças direitas, seguras por suspensórios, as semelhanças com o guarda-roupa da série ‘’Peaky Blinders” são impossíveis de ignorar. 

ANDREW COIMBRA

A coleção de Andrew Coimbra constituiu uma ode à nostalgia. Recorrendo a materiais como os veludos cotelê e devoré e o crepe com estampados retro, o designer levou-nos numa viagem íntima pela sua infância. As impressões — como a letra da sua canção favorita de infância gravada nas costas de uma t-shirt ou as fotografias de momentos especiais da vida de Andrew reproduzidas em hoodies — também espelharam as memórias pessoais do designer.

Por outro lado, a coleção de Andrew Coimbra também se assumiu como um trabalho de refinação da streetwear. O objetivo do criador foi criar uma coleção onde a pessoa pode «vestir-se de um modo sério, sem se levar a sério». Para isso, tanto usou silhuetas, materiais e cores mais lúdicos — de que são exemplos os coordenados com luvas de cabedal e uma sweatshirt em azulão ou com gola alta em azulão sob uma hoodie em tecido técnico —, como se inspirou no vestuário de luxo dos anos 70, com as suas gabardinas e fatos estruturados.

GONÇALO PEIXOTO

Para o outono e inverno de 2019, Gonçalo Peixoto repensou a feminilidade, questionando: “O que querem as mulheres modernas?’’.  Na resposta, encontrou uma reinvenção dos clássicos. Modificou-lhes as silhuetas, desconstruíndo-as e deixando que elas se fundissem com a streetwear. O resultado foi uma amálgama entre o tailoring clássico e o athleisure.

Gonçalo Peixoto deu-nos, então, uma mulher que usa vestidos com saia de folhos em tule e, ao mesmo tempo, uma sweatshirt com capuz. Uma mulher que usa um blazer XXL encapuzado com saltos altos. Uma mulher que usa um conjunto todo roxo, com um vestido midi brilhante cheio de folhos e um casaco puffer curto da mesma cor. 

Num desfile onde os looks monocromáticos se sagraram campeões, os tecidos brilhantes também foram constantes, bem como os ombros largos, os folhos e as assimetrias. A mistura de materiais nos coordenados — seja na combinação de cores sólidas com padrões cobra, xadrez, psicadélico ou floral —, numa paleta de cores em laranja vivo, roxo e verde, também não foi deixada de parte.

NYCOLE (POWERED BY PORTUGAL FASHION)

Nycole tomou o álbum de techno/minimal, Persona,  do DJ Rival Consoles como ponto de partida para a sua coleção. «Numa altura em que sofremos com a ausência de carga emocional dos suportes digitais, este álbum personifica a busca da nossa própria identidade», afirmou a designer. Algumas das peças, por exemplo, tinham estampadas uma figura que se assemelhava a uma cara criada a partir de formas geométricas, referente à ideia de construção de identidade que serviu de inspiração à designer.

Com o objetivo de materializar a busca pela identidade pessoal, Nycole criou uma coleção também inspirada no futebol. Por fomentar nos indivíduos um sentimento de pertença e identificação, bem como o espírito de grupo, o futebol contrapõe-se à perda do contacto físico e dos afetos que advém com os dispositivos digitais.

Na passerelle, vimos uma mistura entre a sportswear — algumas peças técnicas, como t-shirts, joggers ou camisolas estilo térmicas — e um estilo mais clássico — sobretudos, pulôveres em malha ou cachecóis de lã. O preto foi a cor predominante, apesar de também constarem na paleta de cores o cinzento, o branco, o laranja e o verde.

Apesar de se tratar de um desfile de menswear, uma modelo na passerelle mostra que a marca de Tânia Nicole atenua as barreiras entre o vestuário feminino e masculino.

OLGA NORONHA

Olga Noronha, como sempre, deixou-nos a pensar nas metáforas que transpôs da sua mente para as peças de roupa que criou.

A sua coleção, “Flourish”, remetia para um florescer do ser, que agora já «não cabe na própria pele». Esse ser poderia desabrochar e revelar o seu verdadeiro eu através da «dança que poeticamente das cinzas faz brotar flores». Sendo as flores a «representação sexual que revela o estado de alma e de identidade» do ser, só a dança conseguiria transformar o antigo ser, agora reduzido a cinzas, em flores — a tal representação sexual que desvenda o verdadeiro eu.

A designer portuense traduziu estas ideias para um desfile performativo. Um bailarino, vestido numa das criações em pele de Olga Noronha, dançava no centro da passerelle. Enquanto espalhava “cinzas” pelo chão do pavilhão, quatro modelos femininas desfilavam. Usavam vestidos nude assimétricos, feitos em pele e metal. Quando se juntaram à volta do bailarino, este atirou as “cinzas” — na verdade, pó magnético que se prendia ao metal dos vestidos — que carregava para a sua saia e para os vestidos das modelos, criando desenhos de flores a partir das texturas já existentes nas peças.

RICARDO ANDREZ

Tal como Imauve e AWAYTOMARS, no sábado, e Valentim Quaresma, na sexta-feira, também Ricardo Andrez criou uma coleção que valorizasse a sustentabilidade na moda. Mais uma vez, numa indústria tão saturada como a moda, a consciencialização revela-se um passo necessário para tornar possível a mudança.

E numa coleção produzida inteiramente a partir de tecidos de stocks em desuso, até através dos estampados Ricardo Andrez alertou para os problemas ambientais que a indústria tem em mãos. Em muitas peças estavam patentes impressões dos ecrãs da bolsa de valores, com as suas ações em vermelho, verde e azul néon, para nos lembrar de como a indústria da moda pode ter a criação exagerada de lucro em foco — e como ignora outros aspetos importantes, como a ética ou a sustentabilidade.

 

Na coleção, predominaram as peças cintadas — sobretudo sob a forma de gabardinas, calças e saias — e os tons néon, em amarelo, laranja e azul. O preto serviu como tom de base para a paleta de cores.

ALEKSANDAR PROTIC

Dissection” surgiu como uma continuação da estação anterior, em que Aleksandar Protic glorificou os jovens herois das metrópoles brasileiras, líderes de futuro.

Nesta edição, o designer sérvio explorou a ideia de liberdade que encontrou no documentário “Cobra Gypsies” de Raphael Treza, que retrata a cultura de uma tribo nómada do Norte da Índia e que motivou o designer a investigar os seus arquivos na busca de inspiração.

Aleksandar Protic também se serviu do mesmo documentário para criar a paleta de cores da sua nova coleção, que se pintou de azul — no padrão risca de giz —, preto, amarelo e de estampados com flores ou estrelas. Lãs, pele sintética, scuba, misturas, lycra, viscose e seda foram os materiais usados para a criação das roupas, na sua maioria, drapeadas, cintadas ou com pregas.

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DINO ALVES

A fechar esta edição de ModaLisboa, Dino Alves mostrou-se reativo. Usando as suas criações como forma de rebelião, transformou-as numa espécie de «panfleto ideológico» que refletisse as suas ideias e opiniões perante aquilo que lhe parece errado.

No desfile, vimos muitas sobreposições de estampados e materiais, peças desconstruídas e com aplicações gráficas — como statements ideológicos. Os abalonados torcidos (em mangas e bainhas), os franzidos, os drapeados e os volumes que deformam o corpo também se confirmaram tendências. A coleção foi pautada pela diversidade, tanto no conceito que defende, como na silhueta — justa e oversized, estruturada e fluida — e na paleta de cores — que ia de uma miríade de cores sólidas a uma legião de padrões.

“Reação” «reage ao preconceito, reage à destruição do planeta, reage à desigualdade social, reage à liberdade de expressão, reage à doentia ditadura da beleza, reage à injustiça, reage à desumanização das relações», disse o designer. Tal como outros designers desta edição defenderam, a moda também se constitui uma ferramenta para a mudança. E, aos olhos de Dino Alves, devemos usá-la antes que o mundo se deteriore à nossa volta.