O realizador Mike Leigh contou ao The Observer que os serviços de streaming, apesar de trazerem muitos filmes de sucesso, estão a originiar “uma nova geração de executivos“. Deste modo, o cineasta inglês prevê que estes produtores limitarão os realizadores britânicos vindouros.

A próxima fornada de novos realizadores encontra uma longa espera para tirar projetos do papel. Essa é a minha maior preocupação“, assumiu Leigh.

Falei com dois deles [novos realizadores] nas últimas semanas e uma disse que contava com ter de aguardar seis anos até conseguir lançar a sua primeira longa-metragem”

Mike Leigh surge assim preocupado, garantindo que isto é “terrível” e que tal acontece porque há uma nova espécie ou cultura de executivos e produtores que simplesmente não vão carregar no botão e dizer ‘força nisso e vê o que acontece’.

É importante referir que o último filme do cineasta [o drama histórico Peterloo (2018)], que regressa à realização desde o aclamado Mr. Turner (2014), é uma produção da distribuidora Amazon Studios.

No entanto, Leigh afasta todo este criticismo do desenvolvimento do seu mais recente trabalho. “Não estou a falar da minha própria experiência com a Amazon, que apoiou Peterloo e se portou de forma impecável: o problema é mesmo para os jovens realizadores“, explicou.

O autor inglês aproveita a deixa para afirmar que “os novos serviços de streaming gostam de dizer que não trabalham como Hollywood. Mas, na verdade, (…) estão a comportar-se de uma maneira tradicional à Hollywood, à Louis B Mayer [fundador do estúdio de cinema MGM] e isso é totalmente inaceitável“.

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A nova obra de Mike Leigh debruça-se sobre o Massacre de Peterloo, ocorrido em Manchester, Inglaterra, em 1819, quando a cavalaria oficial britânica carregou sobre cerca de 70 mil pessoas que se manifestavam em plena rua pelas reformas na representação parlamentar.

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O episódio trágico que o filme conta provocou então a morte a algumas dezenas de cidadãos, levando à indignação do povo, a mais repressão por parte do governo britânico, e até à fundação do famoso jornal que hoje conhecemos como The Guardian.

Constam da filmografia deste conceituado realizador obras como o vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1996, Segredos e Mentiras (1996), Um dia de cada vez (2008) e Vera Drake (2004). Mike Leigh foi nomeado a Oscar por sete ocasiões, mas não arrecadou ainda nenhuma estatueta dourada.

Embora Peterloo já tenha chegado ao Reino Unido no ano que passou, só vai estrear nos Estados Unidos a 5 de abril deste ano. Para Portugal, ainda não há data de lançamento definida.