Depois da noite dos Oscars, roubada com justiça por Green Book – Um Guia Para a Vida (2018) a filmes como A Favorita (2018) e Roma (2018), espoletou uma nova controvérsia. O representante dos realizadores na Academia de Artes e Ciências CinematográficasSteven Spielberg, veio a público separar as águas entre os filmes tradicionais, com estreia em sala, e os que são lançados em plataformas de streaming, como por exemplo a Netflix.

Já em 2018 Spielberg tinha referido:

Se estás a produzir para um formato de televisão, é um filme de televisão. E se fores um bom filme de televisão mereces um Emmy, não um Oscar

Este questionamento surge ao mesmo tempo que alguns representantes da Academia salientam que, para a plataforma de streaming Netflix se poder comportar como um estúdio de cinema, “então tem de ser regulada como tal“.

Representada por Roma, de Alfonso Cuarón, a Netflix levou três prémios para casa: Melhores Realizador, Cinematografia e Filme Estrangeiro.

De acordo com a atual regulamentação da Academia, um filme não precisa de ser lançado em exclusivo em sala para se poder qualificar, tendo apenas de ficar nos cinemas por uma semana.

Os mesmos representantes da Academia consideram que “é preciso clarificar a situação“, alegando que estas regras foram criadas quando era ainda impossível imaginar a situação atual, de criação e distribuição de longas-metragens através do meio online.

Assim, o veterano realizador Steven Spielberg, responsável por inúmeros clássicos como A Lista de Schindler (1993), E.T. – O Extra-Terrestre (1982) ou Apanha-me Se Puderes (2002), enumera algumas novas medidas a apresentar à Academia: uma janela de exclusividade de um mês, a obrigação de divulgar os lucros de bilheteira (algo que a Netflix não costuma fazer) e a proibição de estreia exclusiva ou simultânea em streaming.

Por outro lado, a Netflix, embora não seja a única envolvida (Amazon, HBO, Hulu, e a futura Disney +), respondeu, declarando “amor ao cinema” e à democratização de uma arte que, segundo estes, deve chegar a todos.

Steven Spielberg tem um dos melhores currículos de Hollywood. O cineasta já arrecadou três Oscars, entre eles o de Melhor Filme e de Melhor Realizador por A Lista de Schindler e, de novo, foi premiado como o melhor cineasta do ano pelo espetacular O Resgate do Soldado Ryan (1998); foi presidente do júri do Festival de Cannes em 2013 e recebeu até, em 1987, o galardão do Prémio Memorial Irving G. Thalberg, dedicado a produtores que executem uma quantidade constante de filmes de qualidade.

O Tubarão (1975), Os Salteadores da Arca Perdida (1981), A.I. Inteligência Artifical (2001), deixado pelo lendário Stanley Kubrick a Spielberg, para além das obras já referidas, são trabalhos que não só admiro, como me inspiram. Reconheço na trilogia Regresso ao Futuro (1985-1990), produzida por este inovador cineasta, um avanço enorme na conceção de efeitos visuais para filmes.

Mas desta vez vou ter de discordar.

Um filme é um filme. Se eu fosse a célebre artista Gertude Stein, di-lo-ia até de outra forma: “um filme é um filme é um filme é um filme“. Roma é um filme (e que grande filme). O brilhante ‘Green Book‘ é outro filme. O The Irishman (2019) de Martin Scorsese, produção da Netflix, será um filme. Até Parque Jurássico (1993), uma anomalia na filmografia do autor revoltado, é um filme.

Peço para imaginarem a situação do pequeno ‘Totò’ de Cinema Paraíso (1988), filme que só chegou a Portugal dois anos depois. Este clássico italiano contou-nos a história de um cineasta de sucesso que recebe a mensagem de que o projecionista (profissão caída em desuso) do cinema a que ia depois das aulas morreu. ‘Totò’, agora adulto e Salvatore Di Vita, volta à sua infância e à sala de cinema onde foi feliz.

E isso é possível porque o cinema lhe chegou.

‘Nuovo Cinema Paradiso’ (1988) (Fotografia: IMDb)

Se ‘Totò’ fosse de outro lugar no mundo, onde não existissem salas de cinema, ou onde não houvesse dinheiro para o visionar, ele nunca teria virado o cineasta Salvatore Di Vita, como Stevie um dia se terá tornado Spielberg. E compreendo que tudo isto seja ficção, mas, afinal, é de ficção que estamos a falar.

Por isso, deixem o cinema chegar a mais pessoas. Pode não dar a volta completa ao mundo, mas se, algures, um pequeno ‘Totò’ vir um filme como o mexicano Roma no seu computador, quem sabe se um dia não estará a ganhar um Oscar por ele?