No terceiro dia de ModaLisboa Insight, os designers levaram-nos de volta às origens. Seja através da homenagem de Constança Entrudo ao Bordado Madeira, das galerias de arte do século XX que Carlos Gil nos apresentou ou, ainda, da proposta de Imauve para procurarmos um significado mais puro nas nossas roupas, regressámos às formas de viver — e vestir — mais elementares.

CONSTANÇA ENTRUDO | LAB

O The Mustik Warehouse, situado entre Santos e Lapa, foi o local escolhido por Constança Entrudo para nos apresentar as suas propostas para o outono e inverno de 2019. No entanto, as criações da designer mais pareceram preparar-nos para o calor: calções, saias e vestidos que mostram a perna, um bolero sobre um busto despido, tops sem mangas, tecidos leves e fluidos e uma míriade de cut-outs foram algumas das suas apostas.

Tirando partido de uma visita a uma fábrica de Bordado Madeira que encerrou em 2017, a designer não esquece as suas origens madeirenses, tornando o Bordado Madeira o estampado-estrela da coleção. Porém, moderniza-o, através da sua adaptação a novas técnicas — o grafitti e a impressão digital — e às cores típicas da marca — o amarelo, o branco, o coral, o lilás e o azul celeste.

JOÃO MAGALHÃES | LAB

Às 15h30 já estávamos de volta ao Pavilhão Carlos Lopes e foi João Magalhães o primeiro a estrear a passerelle, com a primeira coleção que assina em nome próprio.

Para a sua coleção, João Magalhães encontrou inspiração na corrente estética vanguardista do Construtivismo Russo, que ganhou forma na utilização de elementos geométricos, na fotomontagem e na (des)construção das peças.

Por outro lado, “Um Imaginário Termodinâmico”, a exposição de estruturas aéreas de Tomás Sacraceno — presente no MAAT no verão de 2018 — também orientou a coleção do designer. As esculturas metálicas e a luz das instalações infundiram-se em formas, materiais e texturas tridimensionais.

As fotografias que o designer tirou do Japão servem de base para os padrões da coleção. A moda andrógena, trademark da marca, e o jogo entre minimalismo vs. skate culture, conferem equilíbrio à coleção.

IMAUVE | LAB

Na plataforma LAB, também Imauve marcou presença, com a coleção “Manifesto”. Numa autêntica declaração ao abandono da moda «superficial e descartável», Imauve propôs uma desaceleração. Que olhássemos para as nossas roupas pelas histórias que contam e não pelas estações em que foram usadas.

Nesta edição de ModaLisboa, Inês de Oliveira, fundadora da marca, convidou-nos a procurar consciência e significado nas nossas roupas, a dar-lhes vida e ritmo próprios. «Só quando abandonarmos o conceito de moda superficial e descartável, testemunharemos a pureza das formas e o sentimento das cores que abraçam o corpo», diz a artista.

Inspirada na abstração de Malevich, a coleção faz-se de peças intemporais, em silhuetas geométricas longilíneas e em materiais naturais reutilizados de coleções anteriores e excedentes de produção de fábricas locais.

DAVID FERREIRA | LAB

Bétnica“. Esta é a rapariga que David Ferreira colocou a desfilar sobre a passerelle da ModaLisboa. É jovem e pertence a uma classe social elevada, mas distancia-se do grupos dos “betos”, criaturas tipicamente “burguesas”, pela sua mentalidade progressista. Inspira-se em várias culturas, com diversas tradições, e não tem medo de as transpor para o seu guarda-roupa, criando um «híbrido étnico que se molda na perfeição às suas crenças, convicções e estilo de vida».

A musa de David Ferreira é uma mulher cujo estilo pessoal brinca entre o tradicional e o moderno. Junta folhos e laços a peças que jogam com volumes fitted e oversized. Tal como não se acanha de materiais pomposos — a organza, o chiffon de seda, o cetim de metal, o pvc e o pelo são favoritos —, também não foge das junções exuberantes de cores — amarelo e rosa, juntos?

Para ela, saias-balão, maquilhagem exagerada, chapéus gigantes e pétalas de flores que fazem de casaco não são problemas, são estímulos. E, aparentemente, para o público — que aplaudiu avidamente o desfile — também.

CARLOS GIL

No âmbito da parceria entre a Associação ModaLisboa e a ANJE (responsável pelo Portugal Fashion), Carlos Gil revelou-nos a sua coleção, às 18h30. ”Flick’Mo…”, inspirada na pintura vanguardista do século XX, mais parecia uma galeria de arte. As explosões de cor traziam à memória as obras de Piet Mondrian e as formas orgânicas dos padrões poderiam compor a arte de Wassily Kandinsky.

E se houve algo que o início do século XX trouxe, para além da arte, foi uma mulher mais independente, autónoma e cosmopolita. Essa mulher, na visão de Carlos Gil, combina estampados geométricos característicos da marca com detalhes em pelo, nas mangas e nos sapatos. Usa coordenados monocromáticos, mangas-balão e materiais ricos, como o veludo e os brocados. É uma verdadeira obra de arte em movimento.

AWAYTOMARS

Um dos pilares da marca sempre foi a sustentabilidade. Para a sua mais recente coleção, a plataforma de design colaborativo utilizou peças enviadas pelos membros do coletivo AWAYTOMARS, consumidores e marcas parceiras.

Tal como Imauve, a marca convidou o público da ModaLisboa a olhar criticamente para a produção e consumo excessivos e a criar soluções para esses problemas. O upcycling e a reciclagem, por exemplo, são boas alternativas ao descarte das roupas que já não usamos.

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KOLOVRAT

Nature is Magic“, foi, no mínimo, diversa. Estaríamos num western ou uma floresta encantada?

Enquanto o som de pássaros a cantar abria o desfile, as luzes que começavam a acender-se iluminavam uma passerelle decorada como um jardim mágico. Os modelos masculinos e feminismos tanto se passeavam em chapéus e botas de cowboy, como em chapéus de gnomo e blazers oversized com padrão de camuflagem ou xadrez. Mais: muitos vinham com a cara pintada de verde, como se se tratassem de criaturas mágicas perfeitamente integradas na natureza.

Os sapatos tanto exibiam pelo verde nas solas, numa imitação de relva, como plantas falsas incorporadas. Os punhos das camisas abriam, para dar lugar a flores. A paleta de cores, com destaque para os verdes e azuis, era escura para celebrar os mistérios que uma floresta encantada pode esconder, talvez. Até estampados com cogumelos traziam a natureza para a alfaiataria.

LUÍS CARVALHO

Os trabalhos do artista Matthieu Bourel — que combina o corte de papel e colagem com edição digital, animação digital e ainda design de som — serviram como catalisadores da mais recente coleção de Luís Carvalho. O resultado foi uma panóplia de assimetrias e volumes, onde os folhos se destacaram. As sobreposições de formas também se evidenciaram em silhuetas oversized com linhas retas e nos detalhes com formas orgânicas.

No campo dos padrões, o xadrez e o pied-de-poule foram estrelas. As cores quentes, como o vermelho e os tons terra, predominaram. E apesar de as peças serem maioritariamente oversized, a cintura, punhos e tornozelos foram quase sempre marcados.

O homem que vestiu Conan Osíris no Festival da Canção também não deixou de parte o glamour, que, em algumas peças, contrastou com outras mais minimalistas, como os coordenados com malhas grossas e calças com laço.

ERNEST W. BAKER

O último desfile do dia — onde só entrava quem tinha convite da dupla de designers — pertenceu à marca de moda masculina Ernest W. Baker. A coleção, exibida no Tem-plate, às 22h30, constituiu uma homenagem a Detroit das décadas de 70 e 80.

Para contar a história de várias personagens, os “12 empregados do mês” de Ernest W. Baker — o avô de Reid Baker, um dos designers da marca —, os designers tiveram de voltar ao passado. Recriaram uma casa onde, idealmente, Ernest W. Baker estaria sentado num sofá, numa sala forrada a papel de parede florido ao estilo anos 1970.

Com base no trabalho do fotógrafo Dave Jordano, que documentou a vida na cidade durante os anos 70, a marca procurou voltar aos tempos onde o classicismo e um sentimento pós-era industrial se fundiam.