Há algo de profundamente português em descobrir novos caminhos, descobrir os outros, descobrir-se a si. Manter linhas abertas e cruzadas entre vários pontos geográficos, sociais e culturais. Ter um pouco de tudo em si e um pouco de si em tudo.De certa maneira, é essa a missão de João Barbosa, que no mundo da música assina como Branko. O produtor musical, seja sozinho ou como mastermind criativo dos Buraka Som Sistema, é um verdadeiro embaixador da cena eletrónica portuguesa. Em 2006, fundou a editora Enchufada com Kalaf Ângelo, que abriu portas ao desenvolvimento da cultura musical afro em territórios nacionais e estrangeiros.

Branko estreou a discografia a solo há quatro anos com o celebrado ATLAS, um disco repleto de colaborações, onde participam nomes como Cachupa Psicadélica e Princess Nokia. Nosso surgiu este mês com selo da Enchufada e traz de volta duas mãos cheias de features. Entre os convocados, encontram-se Mallu Magalhães, Dino d’Santiago, Sango, Pierre Kwenders e PEDRO.

No novo disco, canta-se em português, inglês, francês e castelhano. Tal como em ATLAS e em álbuns anteriores lançados com os Buraka, João Barbosa continua a querer elevar o dancefloor lusitano a palcos mundiais, ao mesmo tempo que o funde com as sonoridades de vários cantos do planeta.

Capa de ‘Nosso’ (via Enchufada)

Nosso arranca com a hipnótica ‘Over There‘, que nos agarra a atenção de imediato e nos introduz ao ambiente íntimo, mas aberto, do álbum. Miles from Kinshasa dá voz à canção, que mistura um R&B avant-garde ao tarraxo característico de Branko.

Depois vem ‘Movimento‘, um dos momentos instrumentais do disco, em que o produtor discorre sobre o seu próprio potencial. Recheado com uma batida firme e com um um loop de flauta seguro e imponente, o tema acaba com um sample de uma entrevista a João Parahyba, percussionista brasileiro, retirada da série Club Atlas, que lançou em 2018 na RTP 2. “Você precisa de ter emoção e precisa de ter beats”, ouve-se.

O movimento da vida são beats
(Movimento)

Dois dos singles que anteciparam Nosso surgem logo após. O primeiro chama-se Stand By e é cantado por Umi Cooper. O outro é Hear From You e conta com a participação de Sango na produção e de Cosima na voz. Ambos os temas são fusões de estilo, misturando na mesma faixa batidas funk, sonoridades afro-house e vozes amenas de R&B.

Eu sento-me muitas vezes com pessoas que não conheço de lado nenhum e elas também não me conhecem a mim, e para além de fazermos música — que às vezes já é difícil juntos, expor emoções, sentimentos, técnicas e saber ou não sabermos — ainda temos de nos conhecer um bocadinho e perceber as sensibilidades da outra pessoa e tudo isso”, explicou Branko ao Rimas e Batidas.

A noção de universalidade cultural, inerente a todo o trabalho de João Barbosa, faz-se refletir de forma explícita no novo álbum. Em Sempre, o produtor junta a suavidade vocal da brasileira Mallu Magalhães a sonoridades nostálgicas que invocam o samba. Em Amours d’Été, alia as batidas lentas do kuduro com a voz característica do afro-canadiano Pierre Kwenders. Por sua vez, em Agua Con Sal, que aparece já no final do álbum, Branko explora a eletrónica tropical sul-americana em conjunto com Catalina García, vocalista da banda colombiana Monsieur Periné.

Quero sangue novo
Para fazer minha vida
Num caminho novo
(Tudo Certo)

No meio de toda esta diversidade, ainda há espaço para sublinhar o que é português. MPTS, conhecida colaboração entre Branko e PEDRO, ganha uma nova versão em Nosso e torna-se, nas palavras do produtor, num “club tool assumido”. Também Dino d’Santiago participa no projeto, na faixa Tudo Certo. Com uma produção detalhada, tarraxo bem definido e a expressão inconfundível de Dino, a música assume-se como um dos pontos mais fortes do álbum.

Cabe a Lucuma, parceria com os peruanos Dengue Dengue Dengue, a tarefa de selar o trabalho com mais uma viagem tropical com sabor a funk. O disco ouve-se de rajada e apresenta a magia de Branko em todo o seu esplendor.

Contudo, a missão está longe de ser cumprida, diz o produtor à Rolling Stone: “Na minha cabeça parece que ainda estamos na fase dois, e precisamos de chegar à terceira. A segunda fase é sobre fazer as mudanças necessárias em discotecas para que todos possam tocar. Isso está a acontecer, um cabo-verdiano de segunda geração poderia hoje facilmente ser um produtor musical. A terceira fase é a ideia de sentir orgulho nas raízes, na experiência pessoal, e conseguir fazer música com tudo isso sem que seja preciso levantarem-se questões”.

Nosso é uma vírgula – nunca um ponto final – na ambição de Branko em elevar e celebrar os sons portugueses à escala mundial. Em menos de 40 minutos, mostra uma coleção de temas de igual maneira propícios a vingar nos clubes escondidos dos recantos lisboetas e a liderar as tabelas da eletrónica internacional.

É um disco completamente universal, que não reconhece barreiras entre estilos nem fronteiras entre nacionalidades. Descobre-se a si mesmo da mesma maneira que descobre outras culturas e se deixa influenciar por elas. Não estranhem se a pista de dança liderada por João Barbosa aumentar exponencialmente nos próximos anos.

Branko - 'Nosso'
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