Esta sexta-feira, dia 8, a história repete-se: as portas do Pavilhão Carlos Lopes, no Lago do Botequim do Rei, abriram para revelar as coleções dos designers de Sangue Novo. Os olhos estiveram postos em Carolina Raquel, vencedora do prémio ModaLisboa para Melhor Designer Nacional. Ao cair da tarde, as atenções voltaram-se para as criações de Duarte, Carolina Machado, Valentim Quaresma e Ricardo Preto

Sangue Novo

No segundo dia de ModaLisboa Insight, os mais novos estrearam a passerelle. Foram seis os jovens criadores que apresentaram as suas coleções, no âmbito da plataforma Sangue Novo, reveladora de novos talentos na moda nacional e internacional.

Carolina Raquel foi distinguida com o prémio de Melhor Designer Nacional, levando para casa uma bolsa de 5.000 euros e a oportunidade de realizar um mestrado na Polimoda, em Florença.

Carolina Raquel foi a vencedora do prémio para Melhor Designer Nacional

A coleção que lhe valeu o prémio, “Uma Forma Complexa”, inspirou-se na arte da escultura. E se virmos cada criação como uma escultura, conseguimos ver a fragmentação própria dessa arte: desbasta-se um bocadinho aqui, adiciona-se um bocadinho ali; despe-se um bocadinho aqui, veste-se um bocadinho ali. Apostando em aspetos como o peso, a curvatura, o vazio, a proporção e a escala,a jovem designer convida-nos a olhar mais atentamente para cada forma, para cada peça.

No entanto, Carolina Raquel não foi a única vencedora da noite. Federico Protto sagrou-se vencedor do prémio para Melhor Designer Internacional graças a uma coleção que, para o artista, se afasta do seu repertório comum. «”Muses”», diz Federico Protto, «é o meu primeiro trabalho que vai além das convenções, negligenciando a imagem de como os designers devem desenvolver o seu trabalho e os seus conceitos».

Com base numa rede complexa de conceitos — misturando artes performativas, influências da sua adolescência e elementos de origem hispânica —, o designer criou uma coleção com diversas formas, técnicas e materiais.  As silhuetas exuberantes, os grafismos, a aglomeração de padrões e as sobreposições levam-nos ainda à eterna questão de «fashion vs. costume».

Archie Dickens, por sua vez,  ganhou o prémio The Feeting Room, podendo agora vender as suas roupas nas lojas da marca, em Lisboa e no Porto. Nesta edição, o designer britânico trouxe-nos “Fluxo 19”, uma continuação da sua coleção anterior, “Formas de Vida 18”. Os conjuntos assimétricos, sobretudo de malha e em azul e cinza, tratam-se de uma nova seleção de peças para combinar com as peças apresentadas pelo criador na estação passada. Tal como na coleção anterior, “Fluxo 19” baseia-se no tema da «liberdade de movimento», inspirando-se nas linhas fluidas da escultura clássica e em formas naturais como o coral.

Archie Dickens foi o vencedor do prémio The Feeting Room

Sem terem ganho qualquer prémio, outros três designers também tiveram a oportunidade de apresentar as suas criações na Lisboa Fashion Week. Opiar, marca do português Artur Dias, Rita Carvalho e o duo The Co.Re, formado por Rachel Regent e Inês Coelho, tiraram as suas coleções dos seus estúdios de trabalho, para as exibir no maior evento da moda nacional.

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Duarte | LAB

Ana Duarte foi a primeira dos designers veteranos a apresentar a sua coleção. Com a música “Stolen Dance”, de Milky Chance, acompanhada do som de ondas do mar, Duarte transporta-nos para a baía californiana Half Moon. Nem diríamos que se trata de uma coleção destinada aos meses mais frios do ano, se não fosse pelas camadas infindáveis de roupa, diluídas em casacos e sweatshirts com capuz, gorros  em malha e leggings sob calções.

Levando-nos pela viagem de três amigos que se aventuram, com o seu cão Pastor Branco Suíço — Mavericks —, pelas ondas monstruosas que aparecem no inverno naquela baía, Duarte dá-nos uma nova interpretação da roupa de surf. Mestre do athleisure, a designer cria coordenados em lã, algodão e, claro, tecidos técnicos impermeáveis, como o neopreno. A par do jogo de silhuetas justas e oversized, as  cores que dominaram a coleção foram o azul, menta, laranja e preto, funcionando o cinzento como cor de base. As pranchas de surf, uma parceria com a LUFI, também marcaram presença no desfile.

Carolina Machado | LAB

A coleção de Carolina Machado faria furor numa discoteca, ou, pelo menos, esse é o desejo da designer. Numa ode aos ravers nos anos 90 e à club-scene de Berlim dos dias de hoje, a designer procura que a sua coleção seja «um verdadeiro guarda-roupa para sair à noite».

E se o preto é das cores mais escolhidas para sair durante as horas negras, Carolina Machado adiciona-lhe apontamentos berrantes: amarelos e verdes em tons néon. Mas quais são os materiais, acabamentos e padrões perfeitos para não passarem despercebidos na discoteca? Lantejoulas brilhantes, franjas dinâmicas, estampados psicadélicos — o tye dye foi uma das estrelas da coleção —, vinis ousados e cetins sumptuosos são as escolhas da designer.

Numa coleção feminina e misteriosa, Carolina Machado não esquece a alfaiataria masculina que é tão típica da “girl boss” que quer representar, dando-nos também fatos e camisas arrojados.

Valentim Quaresma

De todos os criadores que ontem apresentaram as suas criações, Valentim Quaresma foi aquele que mais se focou no desenvolvimento da moda sustentável. Através da técnica de upcycling, o designer lisboeta inspirou-se no aproveitamento de objetos e materiais obsoletos para as suas criações.

Lembrando-nos de que «o futuro é agora» e que a ação em nome da sustentabilidade futura pode começar no presente, a mais recente obra de Valentim Quaresma está cheia de significados: não só a paleta de cores e o abuso da joalharia remetem para um ferro-velho, como a manipulação dos materiais através de formas geométricas e orgânicas geram peças que se assemelham a armas e armaduras, incentivando à luta pela proteção do meio-ambiente.

Os modelos que desfilaram sobre a passerelle mais pareciam guerreiros futuristas — algumas das roupas poderiam ser usadas pelas personagens do filme “Mad Max” —, os ativistas ambientais de amanhã.

Ricardo Preto

Ricardo Preto fechou, com 45 minutos de atraso, o dia de desfiles. Numa grande abertura, a primeira manequim surgiu num magnânimo coordenado branco, que sumarizou perfeitamente o tema da coleção “I COULD LIVE FOREVER” (eu podia viver para sempre)”. Esta é a roupa de quem sente que pode viver para sempre, de quem vive no presente, sem se preocupar com o que vai fazer amanhã — mas que faz tudo hoje.

Fotos: Ugo Camera | ModaLisboa

Esta ideia de marcar presença transpareceu na coleção de Ricardo Preto em peças simples e elegantes, que se adaptam perfeitamente ao quotidiano de uma mulher que recusa deixar que a vida que lhe passe ao lado. Em silhuetas clássicas do guarda-roupa feminino, o designer criou peças facilmente combináveis, tanto fluidas como estruturadas.

E embora muitas roupas se terem pintado de tons discretos, Ricardo Preto mostrou que há sempre espaço para alguma extravagância. No desfile, não faltaram cores puras e acessórios mais exuberantes, como plumas, colares e penas na cabeça.