A mais recente edição da ModaLisboa arrancou na quinta-feira (7 de março) mas só no dia seguinte começaram a desfilar as coleções dos designers residentes. Aos 25 anos, Carolina Machado já consta na lista, depois de, em 2017, ter integrado a plataforma LAB, destinada a novos talentos e carreiras emergentes.

Ao pavilhão Carlos Lopes, Carolina Machado levou 20 coordenados inspirados na vida noturna. A designer agarrou o espírito de clubbing e dos ravers dos anos 90 intercalando-o com a atualidade noturna da cidade de Berlim para criar um conjunto de peças onde o preto funcionou como principal pano de fundo de tecidos estruturados, como o vinil ou a rede. A jovem destaca ainda os tons néon, como o verde ou azul, que aprumaram as peças e lhes conferiram um lado mais arrojado.

Em entrevista ao Espalha-Factos, Carolina Machado explica porque considera esta a sua coleção “mais diferente” mantendo, ainda assim, a assinatura da marca que tem vindo a construir.

Espalha-Factos: Apresentaste a tua coleção primavera/verão 2019 há quatro meses. Como é que, a partir daí, decorre o processo para a criação de uma nova coleção?

Carolina Machado: Eu acho que esta coleção foi a mais diferente, a mais fora da minha zona de conforto até agora. Eu sempre quis fazer uma coleção mais virada para o night wear, um verdadeiro guarda roupa para sair à noite. Obviamente que tem sempre a minha estética, tem sempre o meu cunho pessoal. Há pequenos pormenores que vieram da coleção passada e que podem não estar exatamente no mesmo sitio – por exemplo uma carcela pode passar a ser a pala de um bolso. Há pequenos pormenores que vêm sempre de uma coleção para outra, portanto há sempre uma continuidade.

EF: Dizes que uma das tuas fontes de inspiração é especificamente o actual ambiente noturno de Berlim. Porquê Berlim?

CM: Eu acho que a cidade de Berlim é mais conhecida pelo espírito forte de clubbing, musica tecno e de sair até “altas horas”. Têm aquele tipo de festas mais extravagantes, acho que é muito forte esse espírito. Eu quis fazer um contraste entre isso e os ravers dos anos 90, de forma a interligar os dois, uma vez que são duas épocas muito fortes a nível de festas, musica.

EF: O que distingue esta coleção das restantes apresentadas até hoje?

CM: Sem dúvida os brilhos, as cores muito berrantes. Na coleção passada tinha uns amarelos, mas estas cores eram mesmo garridas – como os néon. Portanto fugi um bocadinho da minha zona de conforto. Também os tecidos com várias texturas – a rede, por exemplo. Também já tinha utilizado o vinil no inverno passado mas desta vez fi-lo de maneira diferente.

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EF: Uma das principais características do teu trabalho é a fusão do lado mais feminino da mulher com linhas de alfaiataria masculina. Achas que esse lado mais “masculino” pode tornar a mulher mais forte, mais sensual e, por isso, mais feminina?

CM: Sim claro, acho que a torna numa verdadeira “Boss Bitch”, mesmo! A minha marca sempre foi uma tentativa de equilibrar a feminilidade máxima de uma peça e depois cortar um bocadinho, com os acabamentos a fio ou os blazers oversized, com cortes muito direitos e muito masculinos. Eu gosto sempre de pegar nessa parte. A alfaiataria masculina vai estar sempre nas minhas coleções, seja sobre clubbing, seja sobre outra coisa qualquer porque acho que já está muito enraizado na minha estética e naquilo que eu tenho vindo a mostrar desde o inicio. Portanto acho que sim, acho que esse é o verdadeiro objetivo – a mulher é uma mulher que tem de se sentir bem consigo própria, e tem que sentir que é a “Boss”! (risos)

EF: És uma das designers residentes mais jovens da ModaLisboa. Como foi a tua adaptação ao mercado?

CM: Eu mal acabei a licenciatura entrei no concurso Sangue Novo. No inicio e ainda agora faço alguns projetos a nível de freelancer, portanto a minha experiência a nível pessoal de emprego é a minha marca e os projetos freelancer que faço.

EF: Mas achas que o mercado do design de moda em Portugal, está em expansão? Sentes que a nova geração de jovens, onde te incluis, está aberta a conhecer e perceber aquilo que se faz em Portugal?

CM: Sim, acho que sim… Lá esta, eu comecei muito nova. A fase inicial de construção de uma marca é algo que dura muitos anos, acho que as pessoas não têm noção disso. É muito difícil começar, há muita falta de recetividade em abraçar esta nova geração de designers. E obviamente depois também a parte do financiamento. É muito complicado, eu já estou há quase dois anos no mercado e mesmo assim isto ainda se encontra numa fase muito inicial. Essas são as principais dificuldades.

EF: Qual a peça que destacas na coleção FW19/20?

CM: Eu acho que há duas que merecem um lugar de destaque. A primeira sem dúvida é o vestido de franjas néon, e o vestido de lantejoulas. Essas são, para mim, as duas peças essenciais.