No dia 8 de Março celebra-se o Dia Internacional da Mulher, no qual lembramos a luta pela igualdade de género, reconhecendo os passos dados até agora e tudo aquilo que falta alcançar para a plena igualdade social, política e económica entre géneros.

Cada direito hoje garantido foi adquirido graças ao movimento feminista, cujas ideias inspiraram as obras que te sugerimos neste artigo.

De textos teóricos a literatura fantástica, todas estas obras relembram a luta pelos direitos das mulheres, e carregam nas suas temáticas e personagens os fundamentos do feminismo. A luta pela igualdade de género está espelhada em cada um destes textos, que se mantém atuais, alguns deles mesmo após  quase 300 anos da data de lançamento.

Vindicação dos Direitos da Mulher de Mary Wollstonecraft

Editora: Antígona

Uma das primeiras mulheres que se popularizou pela defesa dos direitos da mulher, Mary Wollstonecraft era uma autora e intelectual britânica – e mãe de Mary Shelley.

Escreveu este célebre texto defendendo o direito da mulher à educação e ao seu envolvimento na política, assim como pela sua igualdade social e intelectual. Mais de cem anos antes do movimento sufragista encher as ruas de Inglaterra a pedir o voto, já Wollstonecraft tinha plantado a semente da qual germinaria o movimento feminista. Um trabalho por vezes esquecido na história, mas essencial para entender o sufragismo e a génese do pensamento feminista.

Herland de Charlotte Perkins Gilman

Editora: Vintage Books

Herland é uma utopia feminista criada por Charlotte Perkins Gilman, romancista e ensaísta americana do início do século XX. Tornou-se célebre  pelo seu conto The Yellow Wallpaper,  que defendia os direitos reprodutivos, políticos, educativos e sociais da mulher durante a primeira onda do feminismo nos Estados Unidos.

Herland é a história de uma terra do mesmo nome que três homens descobrem acidentalmente, em local desconhecido e isolado do mundo, em que só existem mulheres. Perante a extinção ganharam a capacidade de se reproduzirem assexuadamente, e vivem agora num estado onde reina a paz e a ordem social.

Nesta sociedade, Gilman pôde expressar todas as suas convicções, como quando liberta as mulheres das roupas apertadas e dos corpetes que as enjaulavam no século XIX e lhes dá calças com bolsos e roupa em geral eficiente, e mostrando-as capazes de gerir um estado em paz, onde há comida para todas e onde todas são felizes e iguais.

Jane Eyre de Charlotte Brontë

leitura

Editorial Presença

Jane Eyre, o clássico da literatura inglesa vitoriana, é escrito por Charlotte Brontë, uma das três irmãs que marcaram a literatura inglesa e que, como outras autoras na altura, fugiram às expectativas da sociedade e se dedicaram a uma profissão com a qual ganharam reconhecimento e rendimentos.

Nesta história seguimos a personagem que dá nome ao romance desde a infância solitária com a tia que a põe num internato onde suporta péssimas condições. Ao atingir a maioridade, Jane Eyre encontra trabalho como percetora da filha de um aristocrata, Mr. Rochester, e vê-se pela primeira vez com liberdade para se tornar ela própria.

Ao longo do romance torna-se mais confiante, de forma a tomar as rédeas da sua própria vida. Uma história de empoderamento feminino, da voz narrativa à personagem que vemos desabrochar nas páginas deste clássico.

Tenant of Wildfell Hall de Anne Brontë

Editora: Oxford World’s Classics

A irmã mais nova das irmãs Brontë terá talvez escrito um dos primeiros romances assumidamente feministas quando publica este The Tenant of Wildfell Hall, um romance epistolar.

Foi o segundo romance da autora e atingiu sucesso logo aquando a publicação. Porém, após a morte de Anne,  a irmã Charlotte considerou demasiado escandaloso para republicar.

Nesta história que retrata a violência doméstica e os perigos do álcool e do jogo, a protagonista Helen Graham chega a Wildfell Hall, onde se instala sozinha com o filho e um criado. Esta mulher desperta a curiosidade dos vizinhos, especialmente quando começa a trabalhar, vendendo as suas pinturas.

Sem grande gosto pela socialização, Helen rapidamente se torna numa pária, mas Gilbert Markham vê a injustiça da situação e tenta ajudá-la e entender o mistério que a envolve. Helen é na verdade uma mulher que fugiu do marido, um bêbado e viciado no jogo, e leva o filho consigo.

Isto era algo impensável e chocante para a altura (século XIX), razão pela qual este romance é unanimemente considerado uma história feminista, com uma temática que ainda hoje é infelizmente importante e relevante.

Um Quarto Só para Si de Virginia Woolf

Editora: Relógio d’Água

Não há talvez uma voz simultaneamente mais dedicada ao empoderamento feminino e tão globalmente apreciada e reconhecida como a de Virginia Woolf.

Uma autora do mais alto calibre em nome próprio, que desconstrói nos seus romances e textos teóricos, como este Um Quarto Só para Si, a visão eduardiana da mulher inglesa, e explora a complexidade feminina.

Neste texto, um dos mais importantes do século XX, especialmente para o pensamento feminista, Woolf traça algumas das linhas orientadoras de todo o seu trabalho. Uma dessas é a ideia de que, para criar, a mulher precisa de ter um espaço só seu – ou seja, a sua independência, e por isso não pode ser simplesmente a filha ou a esposa de alguém. Revolucionária para a altura, Woolf continua a inspirar-nos e a merecer a leitura de todos.

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A História de uma Serva de Margaret Atwood

Editora: Bertrand

Este romance de Margaret Atwood pode ter ganho mais relevância com a premiada adaptação televisiva, mas esta distopia já foi lançada em 1985.

A História de Uma Serva retrata um estado teocrático em que as mulheres são tratadas como incubadoras de bebés, sobre as ordens de um governo autoritário liderado por homens, e em que nem aos seus próprios nomes têm direito. Tal como Offred, a personagem principal deste romance, os nomes das Servas espalham o nome do homem que servem.

Uma história da opressão da mulher, assustadoramente perto da realidade atual, e da sua luta pela independência e liberdade. Mais de 30 anos depois do lançamento vai ter uma sequela em 2019: The Testaments.

Não Serei Eu uma Mulher? de bell hooks

Editora: Orfeu Negro

Alguns nomes são essenciais para entender a atual terceira fase do movimento feminista. Uma delas é bell hooks, professora, ensaísta e ativista feminista.

Neste Não Serei Eu uma Mulher? de 1981 apresenta as suas ideias como o feminismo interseccional, concebendo uma concepção de identidade que intersecciona raça, posição social e género, e como estas três vertentes da nossa identidade podem ser usadas – e são – para a manutenção da opressão social e económica de certos grupos sociais. Uma das vozes fundamentais nos dias de hoje na luta pela igualdade de género.

Problemas de Género de Judith Butler

leitura

Editora:  Orfeu Negro

Outra das mais importantes vozes da teoria feminista é Judith Butler, filósofa e professora universitária americana. O seu trabalho, como aquele exposto nesta sua obra de 1990, tem influenciado o pensamento filosófico, queer, feminista e literário atual.

As suas ideias questionam a ideia de género e exploram o conceito de género performativo. Nesta obra, ela explora principalmente a falácia da identidade feminina, um conceito demasiado simples para albergar em si as diferenças que fatores como classe, etnicidade e sexualidade criam na nossa identidade.

Mulheres & poder: um manifesto de Mary Beard

Editora: Bertrand

Mary Beard é uma reconhecida historiadora britânica que em Mulheres e Poder: Um Manifesto explora a relação histórica entre as mulheres e o poder.

Explora as raízes da misoginia desde a antiguidade clássica, respondendo desta forma aos críticos que, ao longo da sua carreira, a atacaram com condescendência e comentários sexistas, assim como a muitas outras mulheres ao longo da história.

Pressupostos errados têm mantido as mulheres fora das estruturas de poder, e neste livro Beard defende que, se estas não as conseguem incluir, talvez seja o próprio conceito de poder que precisa ser redefinido.

Eu, Malala de Malala Yousafzai (com Christina Lamb)

Editorial Presença

A biografia de Malala Yousafzai, nas palavras da própria, conta-nos a história da vencedora do Prémio Nobel de 2014.

O livro contempla  o momento em que, aos 15 anos, é vítima de uma tentativa de assassinato pelos talibãs quando ia no autocarro a caminho da escola. Era um ato simbólico – Malala era já conhecida no Paquistão como uma defensora dos direitos à educação das meninas paquistanesas.

Hoje, um ataque que a pretendia calar tornou-a num símbolo pelos direitos da mulher à educação, lembrando-nos que existem ainda muitas meninas pelo mundo fora que ainda não têm esse direito assegurado.

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