Num futuro talvez próximo, falar de igualdade será normal logo que este valor se projete na realidade e na cultura. Debruçamo-nos aqui sobre a música: 2019 ainda não é o ano em que podemos repartir equitativamente o panorama, mas já estivemos mais longe. Não é porque as mulheres tenham de fazer mais, como há quem o sugira; não têm de promover mais ou estar mais criativamente envolvidas. Tudo isso acontece; só precisamos de que as forças (frequentemente misóginas, idadistas e racistas) da indústria musical despertem para isto.

Todos os dias mudamos e o panorama musical fá-lo a um ritmo alucinante, no entanto não estamos a fazer o suficiente pelas mulheres na indústria. A ideia de que provocar e sexualizar é o contributo máximo da mulher na pop permanece intacta. Continua o estigma de que são apenas performers e querem só chocar pela diferença. Mas elas não são só uma cara, voz ou um corpo que dá vida à música: são a personificação de tudo o que proferem e da luta diária de afirmação. São elas as artistas que entram em rutura com o conservadorismo e o status quo, as que defrontam os obstáculos estruturais diariamente.

A indústria ainda é um sítio cruel para as mulheres, mas a música será sempre o seu abrigo. A equipa do Espalha-Factos homenageia neste Dia da Mulher várias mulheres que na música já deixaram um legado incomensurável.

Madonna

É incontornável o papel do maior ícone pop vivo. Ao mesmo tempo que marcou a história da música, Madonna marcou o papel da mulher no mundo artístico. Aliás, em qualquer mundo. Revolucionou os cânones artísticos ao assumir uma postura sempre sexual, sedutora, capaz de colocar em questão a regulação machista e católica do mundo que a viu nascer. As suas roupas, letras, espetáculos, crítica à religião, apoio a causas sociais variadas, são apenas alguns dos exemplos da revolução musical, sexual e feminista que Ciccone continua a operar.
Agora mesmo, influenciada pela cultura portuguesa que abraçou, acaba de misturar ‘Like A Virgin‘ com fado. A sua atitude continua, aos 60 anos, a ser de luta constante contra a desigualdade e a opressão. E, especificamente, a desigualdade de género. Não lhe escapa o lema “Future is Female”. Este que temos hoje, e que eu tenho hoje, foi um pouco construção dela — Alexandra Correia Silva

Björk

Uma voz pode ficar connosco, uma batida fazer-nos estremecer, uma ideia pôr-nos a pensar. Em 1979, quando uma criança de 11 anos agraciou as ondas de rádio da Islândia com uma versão pueril, mas encantadora de ‘I Love to Love‘ de Donna Charles, a Islândia estava longe de saber o que a sua voz significaria para o mundo. Quando, na minha infância, fui confrontado com o encantador micro-musical na forma de vídeo para ‘It’s Oh So Quiet’, não pensei muito sobre o assunto. Também estava muito longe de saber o significado que Björk viria a ter para mim.

Sem exageros, o momento em que a descobri foi um cataclismo na minha vida: quebrou os moldes em que tinha congelado a música, a matemática verso-refrão-ponte que me manteve imperturbado durante anos, sem nunca antes tê-la pensado como arte, ou pensado para além de uma estrutura rígida. Deu-me a ouvir e a sentir a catarse da transgressão sónica e visual, em álbuns que rasgaram violentamente com a incipiente ideia que tinha daquilo que era um álbum. Deixou-me perceber que a figura da mulher não estava confinada a um produto sexual de massas, era precisamente aquilo que lhe apetecesse, ao serviço das ideias que bem lhe apetecesse veicular— tão transgressoras, fora da caixa quanto quisesse, fosse um álbum gutural feito quase totalmente com sons vocálicos humanos, muitos dos quais nada amistosos, ou precisamente o oposto, uma experiência íntima assente em microbeats feitos a partir de sons domésticos, de gelo partido e caixas de música. Dos três elementos que comecei por listar, os efeitos são permutáveis e igualmente arrepiantes.

As missões de Björk são-lhe atribuídas por ela mesma, e é a ela que cabe o trabalho solitário e técnico de produção, aquele em que a presença das mulheres não só é minimizada como ocultada. É da sua visão que vêm Debut, Post, Homogenic, Vespertine, Medúlla, Volta, Biophilia, Vulnicura—a minha escola.

A quem me deu um mundo infinitamente maior do que aquele que alguma vez poderia ter imaginado, obrigado. — Pedro João Santos

Grimes / M.I.A.

A música de Grimes (Claire Boucher) e M.I.A. (Mathangi Arulpragasam) partilham poucas semelhanças. Não obstante, ambas as artistas expressam um verdadeiro sentido de identidade e realização artística própria que tem a capacidade de captar os corações de uma enorme quantia de pessoas, tal como captou o meu.
Ver a atuação da Grimes em meados do ano 2013 na rádio KEXP teve um impacto em mim que ainda faz sentido relembrar nos dias de hoje. A ideia de uma pessoa apresentar o seu mundo criativo de um modo extremamente autodidata encantou-me. Na mesma altura, descobrir a M.I.A. e a conjugação da sua música com a sua presença, mensagem e imagem artística abriu em mim horizontes. Não se tratam de simples cantoras mas sim de produtoras, criadoras, e artistas. Aspiram ser verdadeiras donas de si mesmas e das suas obras.

Atualmente, a autonomia como a de ambas as artistas apresenta uma importância redobrada. Na indústria contemporânea, o termo “indie” parece ter perdido o seu verdadeiro significado, limitando-se a ser um conceito que se alia por hábito ao “alternativo”. Uma simples pesquisa no Spotify de ambas as palavras remete-nos a uma quantia considerável de playlists preenchidas por artistas reconhecíveis e de sucesso que lhes dá uma certa qualidade de intangibilidade.
É neste contexto que mentes como as de Claire e Mathangi são necessárias para nos relembrar que nada nos impede de fazermos aquilo que o nosso inconsciente nos incentiva a criar e que é de valor imensurável nós sermos fieis a nós mesmos. São também influências que nunca serão óbvias (nem precisam de ser!) mas que representam histórias de sucesso e gratificação pessoal num movimento DIY impulsionado pela era da internet, onde se consome e se produz com o mesmo ritmo turbulento. —  Nuno Santos

Lady Gaga

Começou por ser “mais um” nome da pop norte-americana, mas acabou por se consagrar como uma respeitada artista a nível mundial.
Stefani Joanne Angelina Germanotta, mais conhecida por Lady Gaga conseguiu construir um bom repertório.
No entanto, no meu ponto de vista, começou a ganhar mais dimensão ao colaborar com artistas de espectros musicais completamente distintos dos dela. Cantar com Tony Bennett num álbum (Cheek to Cheek de 2014), atuar com os Rolling Stones e até mesmo com os Metallica na cerimónia dos Grammy em 2017 (apesar das condições técnicas não terem sido dignas do momento). Tem arrecadado variados prémios ao longo dos anos e, este ano, conseguiu vencer um Óscar de melhor canção para Shallow, da banda sonora de A Star is Born.
Goste-se ou não, é inegável o talento e do trabalho árduo que Lady Gaga continua a mostrar. É uma força da natureza na música pop contemporânea. — João Pardal

Stevie Nicks

Falar sobre Stevie Nicks é também falar da evolução da música. Desde os anos 70, que a sua figura e a sua voz marcam a indústria musical. Não só por meio dos célebres Fleetwood Mac, onde por diversas vezes a sua personalidade era indissociável de Lindsey Buckingham, mas também a solo, onde vingou com grandes êxitos, que ainda assim sempre tiveram menos relevância. Hoje enaltecemo-los e damos-lhes o destaque que merecem.
Stevie, ainda que seja um marco vivo inquestionável para a figura e papel da mulher no panorama musical, o tempo não passa por si. Prova disso não são os novos temas que esteja a a editar, porque esses não existem, mas sim o facto de ser uma assumida inspiração de artistas contemporâneos, que lhe pedem emprestada a sua voz. Lana del Rey é um exemplo disso.
Ouvir Stevie Nicks é uma experiência que envolve o rock e o pop, lamenta os problemas do coração e fortalece a figura feminina. — Bárbara Pereira

Amelie Lens

2006 foi o ano em que Amelie Lens, na altura com apenas 16 anos, foi ao Dour Festival (Bélgica) e descobriu o mundo da música eletrónica, com novos artistas e editoras. Foi o ponto inicial de ignição do incêndio que a artista belga acabou por criar, por si, dentro desse mesmo mundo.

Hoje, é uma importante produtora de música eletrónica, nomeadamente techno, DJ e dona duma recém-nascida label própria, Lenske. Não é uma história antiga, nem tampouco longa, mas é uma história importante pelas circunstâncias serem tão próximas de nós. Amelie Lens lembra-nos que é possível, com esforço e trabalho, conquistar o lugar que acabámos por merecer.

É importante também porque é fulcral perceber que nem todas as mulheres poderosas são aquelas que aparecem como manchetes de jornais e outros media, nem de cabeças de cartaz dos grandes e enormes festivais pop. Há mulheres poderosas e influentes em cada canto da arte e em todos os caminhos da cultura humana.

Para nos dedicarmos a perceber a cultura humana no geral, e a arte ou a música em particular, é impossível neste século desviarmo-nos das mulheres. E Amelie Lens, sem dúvida, marcou, marca e continuará a marcar diferença e a assumir uma posição de extrema relevância para qualquer pessoa que passe por viver, gostar e perceber o techno e a música eletrónica. — Rita Vieira

Joni Mitchell

Uma inspiração eterna. É uma denominação que assenta bem na lenda viva da folk. Joni Mitchell é uma figura incontornável e uma das mulheres mais importantes para a música. Como acontece com maior parte dos melómanos, Blue de 1970 foi o disco que me abriu as portas da discografia de Joni. A Case Of You, River e All I Want despertaram-me sensações que nunca havia sentido com nenhuma outra artista. A tom de voz incrivelmente doce e a composição crua e simples é tudo aquilo que a música deve ser. Sem holofotes e coreografias, sem auto-tunes e excentricidades. Não deixem cair no esquecimento um monumento desta grandeza. — Edgar Simões

Charlotte Adigéry

Charlotte Adigéry é uma nova artista belgo-caribeana, também conhecida por outro projeto (WWWater), de música eletrónica. Como descendente de uma tribo nigeriana, Yorùbá, que lutou por sair de uma situação de escravatura em Martinique, Charlotte retira da sua ascendência uma fonte de força e inspiração. Juntando a influência da música eletrónica europeia às raízes extremamente rítmicas da música tradicional caribeana, Adigéry cria uma espécie de prato de cozinha de fusão único e, além disso, claramente delicioso.
Atribuindo à sua mãe o ensino tanto de sentido de humor como da importância da expressão rítmica na musicalidade no geral, Charlotte é uma artista que, não se levando demasiado a sério, se expressa a sério. É uma prova de que a identidade própria e expressão livre da mesma é uma das maiores forças que podemos usar neste século. Enquanto mulheres, e enquanto cidadãos e cidadãs duma sociedade composta por infinitas identidades cheias de potencial, explorarmo-nos na nossa totalidade enquanto pessoas e artistas leva, eventualmente, a uma ascensão pessoal, e até espiritual, trans-humana que é, exatamente, o propósito da arte. — Rita Vieira

Lorde

Para descrever Lorde e a sua importância atual, é necessário saber reconhecer a musicalidade e arte de uma das cantoras mais idiossincráticas nos tempos de hoje. Começou como um enigma, ao cantar ‘Royals’ , o seu maior êxito até a data de escrita deste artigo, de uma maneira bizarra. O seu corpo sentia a música fora dos limites do comum, mas não deixava de ser cativante: um pop que ficava no ouvido e que espantava os olhos. Foi, talvez, primeiro um fenómeno bizarro e, de seguida, uma estrela.
Nunca perdendo a identidade, renovou-se com Melodrama, álbum onde produziu e compôs canções que muitos homens gostariam de produzir, com uma mestria subtil. Tem sempre a sua assinatura naquilo que canta, seja com baladas como ‘Liability’ ou canções efusivas, tais como ‘Sober’ ou ‘Homemade Dynamite‘. Enfim, sabe bem viver nos mesmos tempos que este fenómeno. — Bernardo de Melo