Elencos, equipas de realização, cerimónias de prémios. Estas são alguma das áreas do Cinema onde as mulheres têm aparecido mais nos últimos anos, mas ainda existe mais caminho a percorrer. Afinal, o cinema não se faz só de homens.

No Dia Internacional da Mulher, a equipa de Cinema do Espalha-Factos reuniu-se para homenagear as realizadoras que já deixaram a sua marca na Sétima Arte, desde filmes de guerra a filmes de comédia, passando também pelas super-heroínas.

Andrea Arnold (por Maggie Silva)

Andrea Arnold é uma pérola do cinema britânico e uma autora digna de menção ao assinalar esta data. A sua maleável obra centra-se na experiência feminina, vista através da lente do realismo, um realismo duro mas nunca derrotista.

Andrea Arnold. Fonte: Cannes Film Festival

A sua terceira curta, Wasp (2003), narra a história de Zoë, uma jovem mãe solteira com quatro filhos, incapaz de os alimentar, e que de momento se prepar para o seu primeiro encontro em três anos. O filme venceu o Oscar de Melhor Curta Metragem em Imagem Real.

As suas primeiras longas-metragens, Sinal de Alerta (2006) e Aquário (2009), solidificaram uma carreira em ascensão, tendo ambas vencido o Grande Prémio do Júri de Cannes, entre diversos outros reconhecimentos por parte da indústria.

Em Aquário, somos introduzidos aos bairros problemáticos de Essex e lá conhecemos Mia, uma adolescente de quinze anos que sonha ser bailarina. Aquário é muito mais do que o retrato de uma realidade sócio-económica desfavorecida. O filme é dominado por uma ambivalência, à medida que somos confrontados com os sonhos, esperanças e ilusões desta jovem.

American Honey. Fonte: A24 Films

Em 2016, Arnold deu o salto para o indie norte-americano com American Honey. Realizou ainda diversos episódios de Transparent e a segunda temporada de Big Little Lies, conteúdos televisivos que confirmam a sua sensibilidade artística própria.

Kathryn Bigelow (por Diogo Magalhães)

Na 82ª edição dos Oscars, realizada em 2010, Kathryn Bigelow fez história ao tornar-se na primeira mulher a vencer a categoria de Melhor Realizador pelo seu excelente trabalho em Hurt Locker (2008). Desde então, o feito nunca mais se repetiu, mas é certo que a vitória de Bigelow abriu um precedente para mais nomeações e vitórias de mulheres.

Kathryn Bigelow. Fonte: Getty Images

A carreira da realizadora iniciou-se em 1978 com a curta-metragem The Set-Up, e a primeira longa-metragem veio três anos depois (The Loveless, protagonizado por Willem Dafoe). Pelo meio,aventurou-se também no mundo da televisão, com episódios realizados para a minisérie Wild Palms (1993), para as séries Homicide: Life on the Street (1998-1999) e Karen Sico (2004).

Apesar de tudo o que está para trás, foi com Hurt Locker que Kathryn Bigelow conquistou a atenção da maior parte do mundo. Para os que a não conheciam, a sua vitória nos Oscars surpreendeu não só por ter sido a primeira mulher a consegui-lo, mas também pela temática do filme, que é de guerra e com um elenco maioritariamente composto por homens. Mas Bigelow é bem versada nas temáticas do herói com pistola e de guerra, como são  exemplos Blue Steel (1990), Point Break (1991) e K-19: The Widowmaker (2002).

Jessica Chastain em Zero Dark Thirty. Fonte: Jonathan Olley/Columbia Pictures

Dois anos depois de ter sido considerada Melhor Realizador, Bigelow voltou ao grande ecrã com Zero Dark Thirty, que retrata a história da morte de Bin Laden às mãos dos Navy Seals, em maio de 2011. Desta feita, Bigelow não foi a única presença feminina de destaque. Com um interpretação autoritária, Jessica Chastain é um dos pontos mais fortes do filme no papel de Maya, uma analista da CIA com a tarefa de encontrar Bin Laden. Existe um paralelismo entre a posição que Maya tem em Zero Dark Thirty e a posição que Bigelow ocupa em Hollywood: são ambas mulheres fortes, determinadas e com sucesso provado num mundo de homens.

O sucesso de Kathryn Bigelow cimentou-se ainda mais em Detroit (2017), um dos seus filmes mais marcantes e com uma estrutura narrativa diferente ao que estamos habituados.

Sofia Coppola (por Matilde Dias)

Sofia Carmina Coppola é, certamente, um nome de peso nas áreas da realização e guionismo. Filha do famoso realizador Francis Ford Coppola, Sofia prova que o gosto pelo cinema é uma característica de família ao encontrar a sua própria voz como contadora de histórias no grande ecrã.

Sofia Coppola. Fonte: Film Society of Lincoln Center

Sucessos como The Virgin Suicides (1999) e Marie Antoinette (2006) não deixam margem para dúvidas: Coppola prima pela sua representação das banalidades e extremos quotidianos nos mais diversos contextos. Através de um icónico estilo etéreo, a realizadora consegue criar inebriantes e complexas fantasias com uma atenção impressionante a cada detalhe. Afinal, são as pequenas nuances que nos fazem olhar para um filme da sua autoria e reconhecê-lo de imediato (claro que os inúmeros olhares dramáticos pela janela de um carro também ajudam).
 
Esta estética tão pessoal é a base de uma premiada e notória carreira. Para além de contar com o Oscar de Melhor Argumento pelo drama Lost in Translation (2003), Coppola foi a segunda mulher em 70 anos a receber o prémio de Melhor Realizador por The Beguiled (2017) no Festival de Cannes.
 

Lost in Translation. Fonte: YouTube

Aos 47 anos, Sofia é vista como uma grande inspiração para o cinema em nome feminino. O seu olhar único e determinado reclamou um merecido lugar na indústria cinematográfica, abrindo caminho para uma maior pluralidade de vozes em Hollywood.

Valerie Faris (por Kenia Sampaio Nunes)

Valerie Faris começou a sua carreira no mundo da música, tendo realizado vídeoclipes para bandas como Smashing Pumpkins, Red Hot Chili Peppers e Oasis, em conjunto com Jonathan Dayton, parceiro de todos os trabalhos de Faris até hoje.

Em 2006, iniciou a carreira cinematográfica com Little Miss Sunshine, um filme sobre uma família disfuncional que se aventura numa roadtrip para tornar realidade o desejo da filha mais nova, Olive, de participar no concurso de beleza infantil Little Miss Sunshine. Ao longo da viagem acontecem vários contratempos, ultrapassados em família, e o destino reserva-nos uma bela demonstração daquilo que Faris faz melhor: a junção da música com o cinema.

Volvidos 6 anos, Faris realizou Ruby Sparks, a história de um escritor, Calvin (Paul Dano), amaldiçoado com bloqueio de escritor que, após uma série de consultas com o seu terapeuta, tira do baú a sua velha máquina de escrever. Para sua surpresa, a obra não fica no papel: Ruby Sparks (Zoe Kazan), a personagem principal da sua história salta para a vida, tornando-se numa mulher de carne e osso.

Calvin e a sua máquina de escrever | Fonte: Bitch Flicks

Depois destes dois indies bem recebidos pela crítica, a dupla Faris-Dayton voltou em 2017 com A Guerra dos Sexos, um filme sobre a disputa entre dois campeões do ténis, Bobby Riggs (Steve Carrell) e Billie Jean King (Emma Stone), que levanta a discussão sobre igualdade de género. Enquanto que Riggs tenta reviver as glórias do passado, King questiona a sua sexualidade e luta pelo direito das mulheres.

Valerie Farris nos bastidores de A Guerra dos Sexos | Fonte: Screencrush

Apesar da curta carreira no mundo dos filmes, Valerie Faries deixa-nos um conjunto de filmes profundos e ao mesmo tempo irrisórios que levantam o debate acerca do valor da família e sobre o paradigma desejo/realidade de uma maneira divertida e marcante.

Greta Gerwig (por Matilde Castro)

Greta Gerwig é uma mulher dos sete ofícios. Depois de uma já consolidada carreira enquanto atriz, Gerwig estreou-se atrás das câmaras em 2017, com Lady Bird. O argumento é também da sua autoria, mas neste campo Gerwig é já mais experiente: Frances Ha e Mistress America são outros dos filmes que coescreveu, além de também os protagonizar. Lady Bird recebeu o prémio de Melhor Argumento nos Film Independent Spirit Awards. No seu discurso, explicou que “sempre quis ser escritora.” O filme valeu-lhe ainda uma nomeação ao Oscar de Melhor Realizador, o que foi um feito extraordinário, quer por ser a sua primeira vez, quer por ter sido a quinta mulher a ser alguma vez nomeada.

greta gerwig

Greta Gerwig. Divulgação/Universal

Lady Bird é “uma carta de amor a Sacramento”, como Gerwig o descreve. O enredo tem o seu quê de autobiográfico:a realizadora também nasceu e cresceu em Sacramento, tendo-se mudado para Nova Iorque para estudar. Só nessa reviravolta dos 20 é que a realizadora se apercebeu do quanto gostava da sua cidade-natal. Foi dessa nostalgia que nasceu o seu quasi alter-ego Lady Bird, interpretado por Saoirse Ronan. Finalista de um colégio católico, Lady Bird sonha com o dia que deixará Sacramento para trás. Esta sentimento de crescer e fugir—e também de voltar—parece ser universal. De Toronto a Londres, o filme recebeu aplausos por esses festivais fora. Que o digam os 84 prémios recebidos e a pontuação de 99% no agregador de críticas Rotten Tomatoes.

Gerwig é já um dos grandes nomes da nova geração de “autores” que chega à indústria, uma das mais jovens realizadoras do momento que claramente veio para ficar. Após o sucesso de Lady Bird, Gerwig não deitou tempo a perder: ainda este ano, podemos esperar a sua adaptação do clássico Little Women.

Patty Jenkins (por Adriano Ferreira)

Talvez mais conhecida devido a Mulher Maravilha (2017) e à sua futura sequela, Patty Jenkins é uma realizadora que tem sido muito seletiva nos seus projetos. Durante algum tempo, quase realizou Thor: O Mundo das Trevas (2013) para a Marvel. Acabou por abandonar o filme devido a ter procurado uma perspetiva mais pessoal com a qual o estúdio não concordava.

Patty Jenkins (à direita) no set de Mulher Maravilha. Fonte: Warner Bros.

Mas apesar de ser maioritariamente conhecida por filmes de super-heróis, Jenkins aproveitou parte da sua carreira para explorar crimes reais. O seu primeiro filme foi Monstro (2003), acerca de Aileen Wuornos, uma homicida em série que matou sete homens. A interpretação de Charlize Theron no papel de Wuornos fez com que a atriz arrecadasse um Oscar.
 
Recentemente, Jenkins realizou alguns episódios da mini-série I Am The Night. Esta conta a história de uma autora que investigou o caso de Black Dahlia, no qual o cadáver de Elizabeth Short foi encontrado cirurgicamente cortado a meio em 1947.

Mulher Maravilha. Fonte: Warner Bros.

 
Patty Jenkins é uma realizadora que não se deixa limitar ao grande ecrã e tem trazido o seu talento para a televisão. À medida que vai alcançando voos mais altos com blockbusters, também tem revelado ser versátil noutros projetos televisivos como The Killing.

Dee Rees (por Kenia Sampaio Nunes)

Dee Rees é outra autora que também não tem muitos filmes no currículo. No entanto, assim como quantidade não quer dizer qualidade, qualidade também não precisa ser mostrada em quantidade.

Rees estreou-se na realização em 2011 com o filme Pariah, um drama sobre a adolescente Alike (Adepero Oduye) uma outcast (ou pária, como o próprio título do filme indica), que não se encaixa com os padrões impostos pela sociedade. Ao longo do filme, Alike vai-se descobrindo enquanto pessoa, construindo e aceitando a sua própria identidade.

Adepero Oduye em Pariah | Fonte: IFC Center

Bessie, estreado em 2015, é um filme para televisão, da HBO, e a segunda longa metragem da realizadora norte-americana. Protagonizado por Queen Latifah, Bessie narra a difícil vida da cantora de blues Bessie Smith, desde a sua infância como orfã trabalhadora até à sua ascensão a “Emperadora de Blues”, os ataques racistas que sofreu durante a sua carreira e as dificuldades que passou durante a Grande Depressão.

Bem recebido pela crítica, o filme recebeu ainda quatro Prémios Primetime dos Emmy’s.

Dee Rees e Queen Latifah nas gravações de Bessie | Fonte: IndieWire

O último filme de Dee Rees, Mudbound, foi adaptado do romance de 2008 com o mesmo título, de Hillary Jordan e foi nomeado para Óscar de Melhor Argumento Adaptado. O filme desenvolve-se em torno de duas famílias, uma negra e outra branca, que dividem o mesmo terreno durante a Segunda Guerra Mundial.

Mudbound é um filme poderoso, que nos faz pensar e repensar a história, temas como racismo, levando-nos a uma era onde a miscigenação era considerada crime, problemas psicológicos inerentes à guerra como o PTSD e o alcoolismo e as diversas dificuldades passadas pelas famílias negras do interior dos Estados Unidos.

Garret Hedlund e Jason Mitchell em Mudbound | Fonte: The Atlantic

O trabalho de Rees enquanto realizadora são, para além de belíssimas obras de arte, um alerta para os problemas sociais que enfrentamos desde o século passado até hoje, como o racismo, homofobia, a construção identitária de outcasts que não se inserem “normalmente” na sociedade. Os seus filmes são um contributo muito importante e um incentivo ao debate acerca destes temas.

Para além disso, o seu espaço enquanto mulher negra no mundo da produção cinematográfica demonstra uma mudança de paradigma cada vez mais importante e necessária em Hollywood, onde a representação das minorias e das dificuldades que enfrentam é cada vez mais discutida no grande ecrã.