Depois de uma Eurovisão intocável, a primeira por terras lusas, olhava-se com expectativa (e também algum medo) para o que viria a seguir. O último lugar do ano passado deixava no ar a pergunta: seria 2017 um caso irrepetível? Parece que não. O Festival da Canção está vivo e recomenda-se.

Há 53 anos, com uma ou outra exceção pelo meio, que se realiza aquela que é apelidada como sendo a maior festa da música portuguesa. Já o foi, já deixou de o ser e, agora, pega no seu título e mostra à Europa que o merece — e muito bem.

A nova vida do Festival

Surgiu em 2017, mesmo a tempo de ver nascer um fenómeno eurovisivo, um renovado Festival da Canção. Depois de anos sem passar muito cartão ao certame europeu, acordamos para a vida e resultou bem. No ano a seguir, sem grande surpresa, tentou-se repetir o feito da edição anterior, com um olho posto na capital.

O rescaldo de 2018 deixou claro que a RTP estava (e está) a esforçar-se para dar ao festival um novo fôlego, mas com muito para aprender para se fazer uma festa como deve ser. Só que, depois do espetáculo impressionante que fizemos em maio, tomaram-se notas essenciais para levar a sério uma competição que de brincadeira pouco tem — mesmo quando ganha uma canção chamada Toy.

Cláudia Pascoal Eurovisão

Cláudia Pascoal e Isaura no palco da Eurovisão em Lisboa. (Fotografia: Dewayne Barkley / EuroVisionary)

Este ano, soube bem perceber que um Festival da Canção digno do seu nome já se está a tornar rotina. Uma rotina boa. Tudo tão natural que parece que já fazemos disto com uma perna às costas.

Dois espetáculos diferentes

Imaginemos um cenário. Uma pessoa, que não é espectadora assídua do festival, decidiu ligar a televisão nas semifinais e na final, por mera curiosidade. Ora, certamente terá pensado que não poderia estar a ver o mesmo espetáculo. Porque, de facto, não estava.

Depois de duas semifinais num estúdio pequeno e guiada por apresentadores presos a um maldito guião, qualquer coisa ia ser melhor. E as homenagens, com muito respeito aos que são alvo das mesmas… Se colocassem um vídeo de uma semifinal qualquer deste festival saía mais barato e ninguém ia perceber que não era em direto, até porque acontece sempre o mesmo.

Mas, sendo menos pessimista, tudo correu bem. Afinal de contas, há que guardar as notas grandes para o que realmente interessa. Apesar das finais dos anos anteriores terem a sua qualidade (especialmente a do ano passado), esta não deixou que ninguém lhe tocasse. Um palco grandioso, uma dupla (ou trio) de apresentadores que está a anos luz dos seus companheiros e um espetáculo bem pensado, com todos os ingredientes no sítio certo.

Os suecos mandam cumprimentos

É que, apesar de tudo estar muito bonito, não haveria um espírito tão próprio sem apresentadores como estes. Filomena Cautela, que aos poucos se está a tornar um rosto indispensável nas lides do festival, juntou-se ao estreante Vasco Palmeirim para fazer o par perfeito. Brilharam tanto ou mais que o vestido da Mena — e sim, este é um elogio bem considerado.

Festival da Canção

(Fotografia: Pedro Pina / RTP)

Um dos mais brilhantes momentos da noite surge logo na abertura. Depois de iniciada a cerimónia por Júlio Isidro e Margarida Mercês de Melo, numa brincadeira que assustou muitos dos que ligaram a RTP sem saber o que se estava a passar (um terror, essas memórias), surge um número musical pelos verdadeiros apresentadores da noite que mostra que aprenderam mesmo com os lá de fora (que até teve direito a Serenella Andrade a aparecer numa daquelas surpresas que ninguém gosta assim tanto).

Porque, quem é fã deste mundo da Eurovisão, sabe que este tipo de números é o pão nosso de cada dia nas seleções nacionais de outros países para o certame. Não precisamos de copiar ninguém, mas cai sempre bem perceber que ninguém está a fazer um programa destes por favor e se está a divertir tanto como quem está a ver pode estar; é contagiante.

Os habituais regressos aos passado não deixaram de existir nesta final. Ah, o lindo saudosismo tão português. Sem mentir, a atuação de Armando Gama podia ter ficado na gaveta, mas desta vez foi tudo mais agradável de se assistir. É que, pela primeira vez desde que há memória, a RTP não recuou até à pré-história para recordar os outros anos do festival.

Foram até 1993 com Anabela e (de ficar pasmo) 2008 com Vânia Fernandes, numa versão de Senhora do Mar que não ficou assim tão bem vista quanto deviam querer. Para se ser moderno, não basta atirar uma batida semi-eletrónica numa canção tida como tão tradicional.

De destacar, a presença das vencedoras do Festival da Canção do ano passado. Diretamente do último lugar da Eurovisão, Cláudia PascoalIsaura foram a Portimão atuar O Jardim pela última vez juntas, assim como apresentar uma prévia dos seus novos singles. O jardim regado pelas duas não foi memorável (nem aqui nem em maio passado), mas o momento valeu pela entrega das artistas, que mostram que não importa assim tanto o lugar em que se classificam quando se tem um tema bonito em mãos.

Um vencedor (in)esperado

Já todos sabíamos, bem lá no fundo, quem ia ganhar. Não obstante, tinham todos de cantar mais uma vez porque não se paga uma final deste gabarito para nada.

As oito canções desfilaram de seguida e mostraram que este era o alinhamento perfeito. Nenhuma música era má, nem por sombras — embora várias, tendo qualidade por si só, não seguram uma Eurovisão ao colo. Mas outras sim. E Conan Osiris é o exemplo máximo.

Irreverência, dedicação, misticismo. Era isto que faltava ao Festival da Canção. Apesar de existir um alinhamento variado, tanto este ano como nos outros, essa variedade mantém-se (quase) sempre dentro de um mesmo registo, que não é fácil de explicar mas, se todos pensarem bem nas músicas que por lá têm passado, conseguem percebê-lo.

Conan Osíris - Festival da Canção 2019

(Fotografia: Pedro Pina / RTP)

E tanto faltava disto ao festival, que foi mesmo isso que ganhou. Muitos gostam, muitos não, mas não é como se Conan quisesse realmente saber; é isso que faz de Telemóveis ser tão especial. 12 pontos dos júris de seis das sete regiões do país e, quando chega o resultado do voto do público, revela-se aquilo por que todos esperavam (ainda que a medo de não vir a acontecer): iguais e ilustres 12 pontos.

Acima de tudo, esta vitória representa uma brutal mudança de paradigma para o Festival da Canção e a perceção que dele se tem. Agora sim, parece que ter um festival de qualidade e com variedade a sério está a tornar-se o normal, ao invés de duas mãos cheias de canções que tentam apenas recriar o que não é possível recriar. Agora sim, as mentes saem da caixa e escolhem em peso aquilo em que acreditam.

Agora sim. Irrepreensível, mesmo que repreendida por muitos, surgiu uma combinação de flecha ao céu que partiu tudo — telemóveis incluídos. O lema desta Eurovisão em Telavive é Dare to Dream (ou, em bom português, Atreve-te a Sonhar); assim faremos, pois este fenómeno é inigualável e apresenta sérias semelhanças com um outro que conhecemos muito bem.

Já posso estragar isto agora, ou quê?“, perguntou Conan antes de cantar Telemóveis mais uma vez, por entre papelinhos dourados atirados a um menino de ouro. Mas não estragou mesmo nada.

Arriscou, provocou e rebuscou aquilo que consideramos normal neste registo. Jogou a sério, mas a brincar. Fez jus a si mesmo e a mais ninguém e levou a melhor de um espetáculo que muitos dizem estar fora de moda e, mais grave, morto.

Aí é que se enganam. O Festival está mais vivo de que nunca.