Adore-se ou odeie-se, Conan Osíris tomou de assalto a casa dos portugueses. A ascensão do artista deu-se tão rápido como o ritmo da sua música pulsante. Quando o anunciaram como compositor e intérprete no Festival da Canção, muitos pontos de interrogação surgiram. Hoje, já a caminho da Eurovisão, apresentamos o fenómeno musical que tanto deu que falar.

Conan, o rapaz do futuro e do agora

Conan (ou Tiago Miranda) não é de todo um novato. Muitos torcem o nariz à personagem que criou ao seu redor, sempre bem acompanhada de João Reis Moreira, o célebre dançarino. Na verdade, Conan está nestas andanças há bastante tempo e a internet tratou de o tornar tema de conversa. Tudo surgiu quando ADORO BOLOS foi lançado, no fim de dezembro de 2017, e as redes sociais explodiram com tal descoberta. A realidade é que o disco mudou as regras do jogo e revirou tudo o que se conhecia até ali.

Começou a fazer música aos 16 anos e por volta de 2000, na era da transição, todas as influências musicais (familiares e até dos amigos no Cacém) começaram a ganhar forma. Lentamente aprendendo a culinária dos beats, um novo estilo, que viríamos a conhecer tardiamente em 2018, foi nascendo. SILK foi o seu primeiro trabalho, lançado em 2014, e MÚSICA, NORMAL (2016) começou a tornar lúcida a personagem de Tiago Miranda.

Ninguém sabe ao certo descrever a música deste fenómeno. Kuduro com funaná, pitada de fado com eletrónica e até um q.b. de hip-hop com influências árabes e canto cigano. Também os jogos de palavras nas suas letras são o que mais sobressaltam quem atenta a música de Conan Osíris (note-se Celulitite). Enfim, escutar um álbum dele é como ter uma refeição com várias gastronomias cruzadas e cujo sabor é interessante.

Do underground ao mítico Festival da Canção

Comparado até a António Variações, apesar de afirmar repetidamente que não quer ocupar o lugar de ninguém, tem vindo a infiltrar-se nos telemóveis de todo o país. Isso mesmo: aqui começa toda a história feliz de Conan. Iniciou-se no circuito underground da música portuguesa e aos 30 anos chegou ao Festival da Canção (e à Eurovisão!).

Transformista, irreverente ou disruptivo são alguns adjetivos que vêm à superfície sempre que o artista é mencionado. Quer se goste quer não, ele abanou o panorama musical, deu que falar e está aqui para provar que o Festival não tem de ser tradicional. Aliás, a mudança começa quando se tira o chão aos pés de quem ouve música.

Telemóveis é uma história diferente na mesma linha narrativa. A projeção que o Festival da Canção lhe deu foi um sinal óbvio de que as pessoas iam prestar atenção à sua diferença e que iam também criticá-lo pela “extravagância”. O salto da internet para as bocas de todo um país foi repentino e tudo nele era objeto de análise. Além da música, o estilo que rompe com a dita normalidade tornou-se alvo de interrogação. Mas a vitória de Conan Osíris é um desbravar de novos territórios sónicos que nos desafiam a ouvir fora da zona de conforto. Ele simplesmente não existia antes e isso é de louvar.

Genuíno, ousado e uma disrupção na normalidade

A música portuguesa tem beneficiado do aparecimento de artistas que são sábios o suficiente para misturar géneros aparentemente explosivos se combinados. Conan Osíris foi um dos principais mentores dessa corrente e nós estamos agora a embarcar na sua jornada. Podem estar 100 paciência para explorar o que este menino tem para dar, mas recusar a sua relevância enquanto fator de mudança é redutor. E inútil.

O problema é que ele adora bolos e nós adoramos o que ele fez com o Festival. É estranho, provocador, uma erupção na trivialidade. Se a vida ligar, se a vida mandar mensagem… digam-lhe que demos uma oportunidade a Conan Osíris.