Muitos já cantavam vitória para Roma, mas foi Green Book a levar a estatueta mais aguardada da noite. A fita de Peter Farrelly levou ainda mais Oscars para casa: o de Melhor Argumento Original e o de Melhor Ator Secundário para Mahershala Ali.

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Apesar da surpresa de alguns, nesta award season Green Book também ganhou um prémio que já tem algum valor premonitório. Falamos dos Producers Guild of America (PGA) Awards, onde o filme foi considerado a Melhor Produção de Longa-Metragem.

A escolha da associação dos produtores americanos coincidiu com a da Academia vinte vezes desde que o prémio começou a ser atribuído em 1990.

Mas afinal de que fala Green Book?

O filme retrata a história verídica de Tony Lip (Viggo Mortensen), um faz-tudo que se torna chauffeur de Dr. Don Shirley (Mahershala Ali), um conceituado pianista clássico, numa tour pelo sul dos Estados Unidos durante os anos 60.

Fonte:Cleveland Scene

A cumplicidade entre ambos vai-se gerando à medida que as rodas vão girando, e questões como o racismo e a solidão são pontos que vão interligando o argumento do filme, escrito por Nick Vallelonga (filho da personagem principal, Tony), Brian Hayes Currie e pelo realizador, Peter Farrelly.

Green Book tem uma dedicatória peculiar. O filme é dedicado a Larry the Crow, um corvo que não largou o set de rodagem e que, depois de ser atropelado, teve direito aos cuidados de Viggo Mortensen.

O simbolismo da cena do frango frito

Existem pessoas nesta vida que a partir do momento em que se encontram ficam ligadas uma à outra até ao fim das suas vidas. Foi o que aconteceu, de certa forma, com Frank Vallelonga e Don Shirley, que morreram em 2013 com sete meses de diferença. Encontraram-se na primeira metade da década de 60, quando Shirley, pianista afro-americano, contratou Vallelonga para ser o seu chauffer numa tour pelo Sul dos Estados Unidos da América. Esta é a premissa de uma obra que vive muito das performances de Viggo Mortensen e Mahershala Ali, dois atores nas suas melhores formas e que se contagiam em cena.

 

Green Book é um filme on the road em que muitas cenas se passam dentro de um carro, como é sintomático neste género de obras. Peter Farrelly, em conjunto com Brian Hayes Currie e Nick Vallelonga, filho de Frank, construiu um argumento seguro com um diálogo muito bem pensado que mantêm Green Book a andar sobre rodas até ao final, sem sofrer qualquer percalço.

Como não poderia deixar de ser, o público é servido com um número de cenas em que o racismo impera, o que não é nada de novo. O que já não é tão banal assim é a forma como Shirley é posicionado na história. É uma personagem afro-americana, sim, mas não é mais um estereótipo. Como se confessa mais para o final, num discurso brilhantemente proferido por Mahershala Ali, Shirley sente-se tanto fora da comunidade branca como da comunidade negra. O pianista só é aplaudido quando toma o papel de músico, voltando a ser olhado de lado quando despe essa faceta.

A personagem de Frank Vallelonga já é mais estereotipada (mais conhecido por Tony Lip), mas Viggo Mortensen consegue transformar um papel típico de um homem de classe trabalhadora numa interpretação de uma vida. Vallelonga é um italo-americano de músculos, mas também é homem de família esperto e que sabe fazer rir. Durante larga maioria do filme vai no lugar da frente do carro, imagem que também é simbólica, pois é ele que está entre Shirley e todas as situações difíceis com que se deparam no Sul.

Tanto Mortensen e Ali têm momentos de destaque individuais, mas o melhor mesmo é quando os dois se juntam. Basta ver e rever, mas rever muitas vezes, a cena em que Vallelonga “obriga” Shirley a experimentar frango frito. São cenas assim que, juntas, fazem de Green Book um enorme prazer.

Mas a cena do frango frito não serve só para nos levar às lágrimas, mas também para nos mostrar algo que é recorrente na vida de cada um de nós, quando nos abrimos mais com alguém, após um momento inicial em que mantemos distância. Depois de quebrada a primeira barreira, temos via aberta para uma autoestrada de diálogos mais deliciosos que o frango.

No final, Green Book pode ser considerado um feel good movie, mas sem antes nos fazer frente com questões intemporais como “a que lugar pertencemos?” e “só porque os outros me olham de uma certa forma, eu deverei atuar de acordo com essa visão?”.

(Crítica de Diogo Magalhães publicada pela primeira vez no Espalha-Factos a 27/01)