Das muitas apostas de conteúdo original da Netflix, uma série baseada em The Umbrella Academy, a banda desenhada sobre ex-super-heróis disfuncionais escrita pelo frontman dos My Chemical Romance, e com Ellen Page no papel principal certamente se destaca.

O plano original era levar a história para o cinema em 2010, mas o projeto ficou preso na Universal. Em 2015, a ideia tornou-se numa série sendo que em 2017 a Netflix anunciou oficialmente a sua produção. Dois anos depois, The Umbrella Academy chega finalmente à Netflix.

Estes desenvolvimentos acidentados tendem a acabar mal, mas neste caso, a picareta atingiu ouro. The Umbrella Academy é uma das melhores séries do género de super-heróis, com personagens instantaneamente memoráveis, um mundo que nos deixa agarrados ao ecrã, cinematografia de topo e muita, mas muita música.

The Umbrella Academy

Imagem: Netflix

“Só nos vemos em casamentos e funerais”

A premissa é simples (diz ele antes de despejar uma enciclopédia): Em 1989, dezenas de mulheres por todo o mundo deram à luz, repentinamente e ao mesmo tempo, sem estarem grávidas antes. Sete destas crianças são adoptadas por Reginald Hargreeves (Colm Feore), um multimilionário excêntrico, que lhes torna numa família de super heróis, a Academia Umbrella.

As crianças são numeradas de um a sete e apenas mais tarde recebem nomes próprios. Cada um tem uma habilidade supernatural, excepto a sétima criança, Vanya (Ellen Page), que é excluída das aventuras do grupo. Ao longo da sua infância, a família perdeu dois membros. Ben (Justin H. Min) morre em missão e o Número Cinco ou “Five” (Aidan Gallagher), capaz de se teletransportar, desaparece.

No presente, Reginald morre misteriosamente. Ao receber a notícia, os cinco restantes membros da família, já adultos, reúnem-se pela primeira vez em anos para lidar com a morte do pai, o que ressuscita muitos conflitos entre os irmãos.

The Umbrella Academy no funeral de Reginald

Imagem: Netflix

Luther (Tom Hooper), o número um, tem super-força e o tamanho a condizer. Ainda é dedicado à missão, tendo passado os últimos quatro anos na lua segundo ordens do pai.

Diego (David Castañeda), com uma pontaria perfeita e problemas de temperamento, tornou-se um vigilante noturno que se leva demasiado a sério.

Klaus (Robert Sheehan) tem o poder de falar com os mortos em seu redor, incluindo o seu irmão Ben, e ficou viciado em droga para abafar as vozes.

Allison (Emmy Raver-Lampman) é uma atriz famosa para quem o poder de controlo mental é extremamente útil.

Por fim, Vanya dedica-se ao violino com sucesso médio. Foi rejeitada pela família depois de escrever um livro sobre a sua infância, divulgando muitos dos seus segredos.

É então que são surpreendidos pela chegada de Five, ainda aparentemente com 13 anos, que lhes avisa que têm uma semana para prevenir o apocalipse onde ele passou os últimos 45 anos. Nada demais.

The Umbrella Academy reunidos

Imagem: Netflix

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Pode parecer ser muita informação, mas o primeiro episódio faz um trabalho excepcional ao estabelecer o ponto de partida das personagens, aludir ao seu passado e desvendar o universo de forma suave.

A dinâmica entre os irmãos é a alma da série. Cada um representa uma personalidade completamente oposta e incapaz de funcionar com os outros. No entanto, têm uma experiência comum que os une.

Sem dúvida, Klaus e Five roubam a atenção em todas as cenas em que figuram. Ambos são personagens infinitamente citáveis ao nível de Barney Stinson e Dr. House.

The Umbrella Academy

Imagem: Netflix

Enquanto que Klaus parece vindo de Shameless ou Trainspotting, Five é a perfeita alma velha, sem tempo nem paciência para os problemas dos meros mortais.

Diego corre o risco de se tornar uma paródia de Daredevil ou Batman, mas a série subverte esta expectativa de forma brilhante desde cedo. Luther acaba por ser mais aborrecido, mas até essa noção é desafiada com surpresas ao longo dos episódios.

Vanya representa uma vulnerabilidade extrema face à confiança exibida pelos restantes irmãos. A sua relação com Allison também é um ponto muito humano da série, relembrando a rivalidade de Sansa e Arya Stark.

Hazel e Cha-Cha, The Umbrella Academy

Imagem: Netflix

Para além dos irmãos, as restantes personagens recebem mais importância do que aparentemente seria possível dar. Todo o elenco faz um excelente trabalho ao pegar nestas personagens extraordinárias e torná-las completamente autênticas e realistas.

The Umbrella Academy partilha muitas das qualidades que tornaram Game of Thrones ou Breaking Bad séries tão viciantes. Há uma progressão constante de todas as personagens e circunstancias. Há sempre um anzol a puxar-nos diretamente para o próximo episódio ao qual não conseguimos resistir.

Também é preciso dar crédito ao guião por conseguir atingir um equilíbrio louvável entre mostrar a ação principal e inserir flashbacks para a infância na Academia ou a viagem de Five.

Estes ajudam a dar-nos uma visão completa da vida destas pessoas, que no final conhecemos quase como família.

Diego em The Umbrella Academy

Imagem: Netflix

Visualmente Impressionante, e uma banda sonora de luxo

Ainda na parte técnica, The Umbrella Academy é um mimo para os sentidos. A cinematografia é do principio ao fim um passo acima do que se espera de televisão. Tudo foi feito para melhor contar a história e nos inserir junto aos heróis, a nível emocional.

Frequentemente surge um plano que nos deixa de boca aberta ou um momento de coreografia ou edição cujo ritmo impressiona.

Há que mencionar a qualidade e consistência dos efeitos visuais, especialmente com Pogo (Adam Godley), um chimpanzé inteligente que é o mordomo da família Hargreeves.

Vanya e Pogo em The Umbrella Academy

Imagem: Netflix

Por fim, a música. A série está recheada com uma banda sonora que fica espetada na memória. Desde êxitos clássicos de Tiffany, The Doors e Queen até ao rock alternativo de Noel Gallagher e, como não podia faltar, Gerard Way.

Se ficaram adeptos das playlists de Guardians of The Galaxy ou Baby Driver, preparem-se para cantar Dancing In The Moonlight no meio da rua.

É uma seleção escolhida a dedo para acentuar momentos-chave de cada episódio, ao ponto que músicas com 50 anos por vezes parecem escritas para a série.

Klaus, Luther e Diego em The Umbrella Academy

Imagem: Netflix

The Umbrella Academy é uma daquelas séries que só vêm de vez em quando. Captura a nossa atenção com uma premissa que intriga e uma identidade visual marcante. Mas a verdadeira armadilha está numa família disfuncional que é impossível não amar. No final, deixa-nos inspirados, em choque e desesperados por mais.

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