Bruno Ganz, ator de 77 anos, que marcou a história do cinema ao interpretar Adolf Hitler em A Queda e o anjo Damiel no filme As Asas do Desejo de Wim Wenders, morreu no passado sábado. O seu percurso  no cinema nunca deixou de andar lado a lado com o teatro.

Bruno Ganz em A Queda/IMDB

 

A notícia da sua morte foi avançada ao jornal alemão Frankfurter Allegemeine Zeitung pela sua agente Patricia Baumbaur, que explicou o diagnóstico de cancro no cólon que o ator suíço recebeu no verão passado, durante a sua participação no Festival de Salzburgo.

Embora se tenha destacado, nos últimos 15 anos, pela interpretação de Hitler em A Queda, em 2004, participou em dezenas de outras produções cinematográficas e teatrais, como As Asas do Desejo, em 1987, de Wim Wenders, obra que representa a época dividida da cidade de Berlim.

Uma carreira entre o teatro e o cinema

Nascido em Zurique, em 1941, com pai suíço e mãe italiana, Ganz passou a interessar-se pelas artes cénicas quando, ainda muito jovem, começou a assistir às produções de teatro. Acabando por, mais tarde, abraçar esta carreira quando resolveu entrar na Faculdade de Artes.

Começou o seu percurso no teatro e, nos anos 60, a sua carreira em Berlim estava consolidada. O seu trabalho em A Marquesa d’O, de Erich Rohmer, rendeu-lhe um salto ao internacional. Um primeiro marco que lhe permitiu colaborar com importantes realizadores como Wim Wenders, já referido, Werner Herzog, em Nosferatu, o Vampiro da Noite, ou Gillian Armstrong, em Os Últimos Dias Em Que Ficamos Juntos.

A carreira de Ganz passou, também, por Portugal. Foi protagonista de A Cidade Branca, um filme de Alan Tanner filmado em Lisboa, no início da década de 1980, no qual contracenou com a atriz portuguesa Teresa Madruga. Um filme centrado na imagem poética de Lisboa perdida no tempo, durante os festivais internacionais que começavam a descobrir a cinematografia. Ainda durante a sua carreira, regressou diversas vezes a Portugal. Em 2015, foi um dos convidados especiais do Lisbon & Estoril Film Festival, criado e dirigido por Paulo Branco, produtor com quem trabalhou diversas vezes.

Bruno Ganz em As Asas do Desejo

Entre os trabalhos mais recentes de Bruno Ganz encontramos Comboio Noturno Para Lisboa, de Bille August, Remember, de Atom Egoyan, Amnésia, de Barbet Schroeder, e The Witness, de Mitko Panov.

Apesar da intensa carreira no cinema, Ganz nunca deixou o teatro e fez parte de peças de Shakespeare, Ibsen e Brecht, bem como colaborações com encenadores como Luc Bondy e Peter Stein, acabando por fundar com este último, em 1962, a Schaubuhne, em Berlim, uma das companhias teatrais mais relevantes da Europa do Século XX.

Na sua lista de prémios não deixou o teatro de parte, tendo recebidoo um Anel Iffland, atribuído há mais de 200 anos ao maior ator de teatro em língua alemã. Um anel vitalício que o seu dono indica a quem deixar após a sua morte. Ganz recebeu-o em 1966 por herança de Josef Meinrad e a imprensa pergunta-se já quem é que o ator suíço terá escolhido como seu sucessor.

Em agosto esteve em palco pela última vez, onde foi narrador da ópera A Flauta Mágica, de Mozart, no festival de Salzburgo, na Áustria. No cinema, o seu último trabalho foi Radgund, um filme de Terence Malick que está ainda em pós-produção.

Hitler, a história de um ditador

Será certamente injusto recordá-lo apenas por um notável e controverso papel, como Hitler em A Queda. Contudo, foi a sua estreia no filme que levou Joachim Fest, autor de uma das mais relevantes biografias de Hitler, a tecer grandes elogios ao ator ao reconhecer a sua perfeita transmissão da personalidade do ditador.

A Queda adapta alguns capítulos do livro Inside Hitler’s Bunker: The Last days of the Third Reich, de Joachim Fest, e tem ainda com base anotações da última secretária pessoal de Hitler, Traudl Junge, que descreve os dias finais no Bunker de Berlim até à morte de Hitler, em 1945.

O filme de 2004 foi a primeira produção alemã desde 1977 e arrecadou 82 milhões de euros nas bilheterias, segundo a BBC. Elevou a figura sinistra do III Reich da Alemanha ao grande ecrã, meticulosamente investigado, na voz e nos gestos, onde ninguém se esquece das mãos trémulas atrás das costas curvadas, que seguia na base da convicção que Hitler sofria de Parkinson. Ganz, em 2004, explicou ao The Guardian como se desenvolveu o processo de interpretação do ditador alemão, onde passou largos meses a preparar-se para o papel com recurso a gravações históricas de Hitler e observação de pessoas afetadas pela doença de Parkinson.

Bruno Ganz foi altamente elogiado e severamente criticado por humanizar o por muitos considerado um monstro. Contudo, colou-se-lhe à pele e fugiu-lhe ao controlo. Uma das cenas fulcrais do filme gerou memes em todo o mundo e, durante alguns anos, a raiva do próprio Ganz tornou-se parte fundamental dos alicerces da era da viralidade.

Em Berlim, as reações fizeram-se logo sentir e a morte de Ganz foi manchete dos principais jornais coincidindo com a entrega de prémios da Berlinale , que decorreu na noite de sábado. Uma figura preponderante no teatro berlindense desde a década de 1970, a perda do ator que fez de Hitler continua a ser muito lamentada.