Com medidas e desmedidas, uns passos para trás e outros avante, comunicados oficiais para aqui e acolá, tinta corrida e depois apagada nas revistas de entretenimento, a mais importante organização de cinema no mundo, a Academia, que conta com mais de seis mil membros, dá-nos a sensação de estar a brincar ao trapézio sem experiência alguma naquilo que está a fazer.

Voltando um pouco atrás no tempo, pois, para criticar, é sempre preciso desconstruir, a corajosa Academia de Artes e Ciências Cinematográficas constitui uma instituição de alto relevo no que a mudar o mundo diz respeito.

O filósofo Aristóteles anunciou que a arte imita a vida, e, por oposição, o dramaturgo Oscar Wilde esclareceu que a vida é que imita a arte.

A América, com os olhos internacionais sempre à espreita e prontos para a mimese, acaba por retirar muitos dos exemplos que pelo cinema e respetivas premiações e reconhecimentos são dados. E isso sempre nos importou, pois o pensamento ocidental é algo comum a ambos os mundos.

Em 1940, a atriz Hattie McDaniel, negra, foi galardoada com o Oscar de Melhor Atriz Secundária pelo seu papel em E Tudo o Vento Levou (1939), de Victor Fleming, tornando-se assim na primeira afro-americana a ser nomeada e a vencer uma premiação deste calibre – tudo isto numa altura em que, até à aplicação da lei dos direitos civis de 1964 (que só teve repercussões práticas pela década de 70), se quisessem deslocar-se de transportes públicos, os negros teriam de o fazer na traseira do veículo, de acordo com os ideais de “separado mas igual“, uma derivação da lei do Luisiana de 1890.

E recorde-se que ainda 28 anos depois, em 1968, morria o ativista político Martin Luther King Jr., assassinado, durante a sua luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos da América.

Mas pode ainda regressar-se a 1964 para as luzes da ribalta sorrirem novamente a um marco histórico na luta pela qual Martin Luther King Jr. acabou por morrer lutando: o famoso ator Sidney Poitier, conhecido por No Calor da Noite (1967) e Adivinha Quem Vem Jantar (1967), vence o Oscar de Melhor Ator Principal por Os lírios do campo (1963), batendo desta maneira a marca do primeiro ator afro-americano a receber tal distinção.

A Academia estava sempre um passo à frente.

Também através dos movimentos #MeToo e Time’s Up, gerados pelo escândalo sexual em volta do megaprodutor Harvey Weinstein, vencedor do Oscar de Melhor Filme do ano por A Paixão de Shakespeare (1998), e consequente expulsão da Academia, podemos, ainda que com alguma falta de perspetiva que apenas o tempo nos trará, perceber que esta organização tem um poder imenso nos Estados Unidos e no mundo e a capacidade de o moldar (diga-se que para melhor, até agora).

Mas a credibilidade deve ser mantida.

No passado dia 14 de fevereiro, foi reposto o antigo molde de apresentação das 24 categorias na cerimónia dos Oscars. A decisão surgiu três dias após a mudança da emissão completa para a apresentação de quatro premiações, relativas à cinematografia, edição, maquilhagem e penteado e curta-metragem, nos intervalos do programa. Tal alteração na grelha a que o público estava habituado levou à natural indignação por parte dos membros da Academia e dos cinéfilos por todo o mundo. Alfonso Cuarón foi incisivo:

A evolução do cinema, arte que surge em França no fim do século XIX pelo génio dos irmãos Lumière, é também acompanhada pelo comportamento da Academia, e vice-versa. E Cuarón, realizador do brilhante Roma (2018), com um reparo tão pequeno, coloca a verdadeira questão em jogo.

Dê-se, portanto, valor ao que o tem, e ignore-se o que não.

No verão passado (a 8 de agosto de 2018), a Academia, numa tentativa de dar espaço às grandes produções que insistentemente ficam de fora das corridas aos Oscars (nomeadamente os filmes de super-heróis), anunciou a inserção de uma nova categoria, relativa ao Melhor Filme Popular. A posição acabou igualmente por ser repensada, e desta feita adiada para o próximo ano. A ver se vai mesmo acontecer…

Por fim, fica no ar um clima de incerteza em relação ao que a Academia estará a tentar fazer. Quererão eles agradar a todos? Ou transformar o conceito de bom filme? Estará o cinema a passar por um crise tão drástica que fica necessário gerar ainda mais dinheiro para os filmes sobreviverem?

A resposta nem sequer importa para o que aqui exponho. Do que se fala quando se fala de cinema todos os anos? De racismo? De feminismo? De lucro? Deixem isso para a lei, para a economia. A indústria cinematográfica tem o dever de formar bons cidadãos, é verdade, mas também tem o dever de entreter. E já não se discute bom entretenimento, já não se discutem viagens à lua pelo ecrã como se fazia em 1968 [2001: Odisseia no Espaço (1968)], mesmo antes de o homem sequer lá chegar. Já não se discute se Moonlight (2016) foi efetivamente um filme superior ao La La Land: Melodia de Amor (2016) de Damien Chazelle, mas apenas se fala da controvérsia que o engano gerou. Discute-se política, discute-se se aquele filme é socialmente justo, ético ou moral. Discute-se tudo menos cinema.

Por agora, é deixar a Academia fazer a sua música. Mas, desta vez, o melhor é não dançar.