O poeta Luís Vaz de Camões escreveu um dia que o amor é “fogo que arde sem se ver” ou, nas palavras de Matilde Campilho, “em tudo semelhante à forma física do mercúrio no mundo”. Certo é que, apesar da sua multiplicidade de formas, conceções e categorizações, o amor é transversal, é a raiz da nossa humanidade comum. Sendo assim, também a forma como a Arte o tem vindo a retratar influencia o modo como o experienciamos. Aqui, poderás recordar ou descobrir  algumas das mais marcantes histórias de amor da literatura que subiram aos palcos de teatro.  

Memorial do Convento, José Saramago

Este romance histórico é incontornável na Literatura Portuguesa e tem sido adaptado inúmeras vezes por companhias de teatro, tendo até inspirado a ópera Blimunda de Azio Corghi, apresentada no Scala de Milão.

Recuamos ao século XVIII, no qual reinava D.João V que mandava erguer um convento franciscano em Mafra, para assegurar descendência. É no seio desse enredo que nasce um amor único entre duas das principais personagens: Baltasar e Blimunda. Baltasar regressa a Lisboa após ter sido abandonado pelo exército durante a Guerra da Sucessão Espanhola, devido à perda da sua mão esquerda. É nesse regresso que conhece Blimunda, uma jovem do povo que possui o dom de ler o interior das pessoas durante o jejum . Aí, encantam-se um pelo outro e vivem um amor puro e livre, que vai além das normas tradicionais do seu tempo. Mantém uma relação de igualdade e nunca casam oficialmente. Blimunda é apelidada de Sete-Luas e Baltasar de Sete-Sóis. O sol, a lua e o número sete simbolizam, assim, a união completa e perfeita.

Atualmente, a peça está em cena no Palácio Nacional de Mafra pela mão da Éter – Produção Cultural. Podes encontrar todas as informações aqui.

Foto: ‘Memorial do Convento’, uma das adaptações da obra de José Saramago pela Éter – Produção Cultural (2019)

Os Maias, Eça de Queiroz

Não poderia faltar nesta lista o clássico queirosiano, bem como o amor controverso e impossível  que ele encerra.

Numa época em que os estudos da Hereditariedade e da Psicologia emergiam, Eça coloca Carlos e Maria Eduarda num conflito entre o sentimento e a sua origem comum. Após um momento de entrega ao amor que nutria por Maria Eduarda, apesar de já saber que esta é sua irmã, Carlos cessa o seu envolvimento e vai viajar pelo mundo.

Desde o Teatro Experimental do Porto, à Éter – Produção Cultural, ao Etc Teatro, bem como escolas, várias têm sido as dramatizações d’Os Maias. A peça vai a cena no próximo dia 22 de fevereiro no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, pelas 21h30.

Foto: ‘Os Maias no Trindade’, uma das adaptações da obra de Eça de Queiroz pelo Teatro da Trindade (2019)

O Amor nos Tempos de Cólera, Gabriel García Marquez

Para além de Cem Anos de Solidão, esta obra é uma das mais aclamadas de García Marquez. Em O Amor nos Tempos de Cólera viajamos até à América Latina do século XIX e à história de um amor que, apesar de não concretizado, atravessa toda a vida das personagens. Florentino e Fermina, as personagens do triângulo amoroso, conhecem-se em jovens, visto que a profissão de telégrafo de Floretino o leva a trocar correspondência com o pai de Florentina. No entanto, após longos meses de troca de correspondência entre os apaixonados, que culmina num pedido de casamento, o pai de Florentina muda o seu rumo ao fazê-la casar-se com Juvenal, que considerava um melhor partido. E assim se ditam cinquenta anos de distância entre os dois. Volvidas cinco décadas, e após a morte de Juvenal, Florentino e Fermina concretizam finalmente o seu amor.

Este é certamente um enredo que vai além da ficção e nos relembra de que nunca é tarde para se viver um grande amor. A obra foi adaptada para o teatro, por exemplo, em 2013 no Brasil, sob o título Gardénia pelo O Outro Grupo de Teatro.

Foto: ‘Gardénia’, uma das adaptações da obra de Gabriel García Marquez pelo O Outro Grupo de Teatro (2013)

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Orgulho e Preconceito, Jane Austen

Também o amor de Mr. Darcy e Elizabeth Bennet foi adaptado para o palco. Em 1936 foi feita pela primeira vez uma dramatização da peça, Orgulho e Preconceito, Uma Comédia Sentimental em Três Atos , por Helen Jerome que colaborou também com a sua adaptação cinematográfica em 1940.

É na Inglaterra do século XIX, no seio da aristocracia, que Mr. Darcy e Elizabeth se apaixonam. Mas este não é o típico amor à primeira vista a que os filmes e livros tantas vezes nos habituaram. O amor de Elizabeth e Mr. Darcy é talvez um amor em sentido contrário, porque ele se vai construindo ao longo da obra e apenas no final triunfa. Mr. Darcy é um jovem rico, atraente e inteligente que mostra desdém quando conhece Elizabeth. Esta, é a segunda de 5 filhas de uma família rural pobre mas releva-se determinada a não casar apesar de tal ser profundamente reprovado pelos seus pais. Assim, podemos assumir Elizabeth como um símbolo do nascer de uma postura feminista. É ao longo da obra que Mr.Darcy e Elizabeth vão além das suas diferenças, e se permitem conhecer colocando o preconceito de lado. É que muitas vezes focamo-nos no objeto do amor e esquecemo-nos de que este também é uma jornada de construção e crescimento mútuos.

Foto: carta da primeira encenação de ‘Orgulho e Preconceito’ (1936)

Madame Bovary, Gustave Flaubert

O percursor romance realista experimentou pela primeira vez o palco português, em 2014, no Teatro São Luiz.

Flaubert conduz-nos através de uma história de inicial idealização do amor e um posterior desconcerto profundo acerca dele. Emma Bovary, jovem sonhadora e requintada, que sai do campo para casar com Charles, um médico do interior, na busca pelo amor que encontrava na literatura sentimental. Contudo, encontra-se irremediavelmente mergulhada no tédio, apesar do papel de esposa e mãe. Consequentemente, procura algum consolo e emoção junto de vários amantes. Mas, desiludida com a vida que mantém, Emma conduz-se até à morte e, em seguida, Charles perece de desgosto. Sob um certo ângulo, podemos analisar a atitude inicial de Emma à luz da influência que tantas vezes a Arte, neste caso a literatura, exerce sobre os nossos sonhos e ambições, fazendo-nos esquecer que o amor a longo prazo também se pauta pelo hábito, e que a rotina não anula a sua beleza.

Foto: ‘Madame Bovary‘, uma das adaptações da obra de Gustave Flaubert pelo D.MariaII (2015)

Romeu e Julieta, William Shakespeare

Seria quase insensato abordar as mais marcantes histórias de amor da literatura que foram adaptadas para o teatro sem invocar aquele que é um dos mais marcantes enredos da obra shakesperiana, bem como uma das que mais vezes foi levada a cena.

Duas famílias rivais, os Montecchio e os Capuleto, matém uma longa história de disputas que vai impossibilitar a concretização do amor de Romeu e Julieta (filhos respetivos), que se apaixonam num baile de máscaras em Verona. No desfecho trágico, ambos morrem por amor. Há quem associe tal desfecho à grande intensidade do amor juvenil, ou quem veja nele um amor irracional, levado até às últimas consequências.

Em todo o caso, poderás ver ou rever esta peça a partir de 17 de abril, no Teatro da Trindade Inatel, em Lisboa. Podes obter mais informações aqui.

Foto: ‘Romeu e Julieta’ adaptação da obra de William Shakespeare pel’O Grupo de Teatro Fábrica (2017)

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