Russian Doll estreou em fevereiro, na Netflix, e acompanha a vida de Nadia,  que morre e revive o seu dia de aniversário repetidamente. Há quem lhe chame uma imitação ou até uma homenagem a Groundhog Day. Acima de tudo, simboliza a procura por algo maior que nós: um propósito para a vida.

Tudo começa na casa de banho, na festa de aniversário de Nadia. Este é o local onde tudo começa e recomeça, vezes e vezes sem conta. Quando comecei a ver a série, não sabia isto. Não tinha lido a sinopse, nem visto o trailer. À medida que as letras vermelhas iam aparecendo no ecrã, a minha expectativa ia crescendo ao ler nomes como Amy Poehler e Natasha Lyonne. Ainda assim, vi Russian Doll com o que achava ser uma total abertura e disponibilidade para ser surpreendida.

Nadia na casa de banho, local onde (re)começa o dia (Fotografia: Netflix/ Divulgação)

No entanto, acho que isto foi um erro desta vez. Gostava de ter tido alguma pista sobre o fio condutor da narrativa, porque no final do primeiro episódio estava quase a desligar-me da história.

Parecia-me só uma comédia sem graça nenhuma sobre os problemas de uma mulher infeliz de 36 anos. Não me identificava com nada. Tentei ser paciente, algo difícil quando temos tantas séries à distância de um clique, até que percebi: é o Groundhog Day dos dias de hoje.

Depois de perceber isto, não fiquei logo rendida. Achei que seria chato estar a ver uma pessoa a repetir o mesmo dia vezes sem conta, ainda por cima alguém que se esforçava tanto por ser engraçada. Tudo parecia exagerado: as personagens e as situações. Porém, ao contrário daquilo que me pareceu à primeira vista, Russian Doll cria o seu próprio universo e fá-lo com sucesso.

Personagens simbólicas e atuações emocionantes

As personagens que pareciam exageradas tornam-se simbólicas. Tal como uma fábula usa animais para nos fazer compreender uma mensagem, a série recorre a personagens com traços fortemente demarcados. Para além de as personagens estarem bem definidas, o seu casting foi bem feito.

A atuação de Nastasha Lyonne é emocionante e Nadia começa a cativar-nos e a pedir-nos que lhe prestemos mais atenção. É aí que surge alguém que vai transformar tudo: Alan, interpretado por Charlie Barnett.

Primeiro encontro entre Nadia e Alan (Fotografia: Netflix/Divulgação)

Alan tem um papel muito importante na história. Com ele tudo muda, tudo passa a ter outro significado. Se soubesse que Alan ia aparecer, teria logo ficado mais entusiasmada com a série.

A personagem dele encaixa perfeitamente na narrativa porque traz uma perspetiva diferente. É bom que haja conflito na rotina a que nos tínhamos acabado de habituar: a de Nadia. Mas se prestarmos atenção, a verdade é que Alan está lá desde o início, apenas escondido, como uma sombra ou um pensamento que acabamos por esquecer.

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Viver mata

Como a série é pequena, e os episódios são curtos, parece que tudo acontece muito rapidamente. E apesar de as situações se estarem sempre a repetir, a série não é de todo repetitiva. Tudo o que acontece tem várias camadas de significado e os pormenores importam. Cada momento do mesmo dia que as personagens (re)vivem é diferente e apresenta-nos novas questões. Torna-se tudo mais profundo a cada episódio.

Russian Doll consegue ser simultaneamente profunda e engraçada. É também altamente irónica. Apenas após oito minutos do começo do primeiro episódio vemos um poster na parede de Nadia que diz: “Life is a Killer”. Mesmo que reparemos neste pormenor, parece-nos só um detalhe engraçado. Mas não é meramente decorativo, tem significado. É, aliás, a premissa de toda a série.

Russian Doll não é sobre viver e morrer repetidamente, tal como Groundhog Day não é sobre isso. A série é sobre a angústia de viver, sobre a solidão, sobre como às vezes precisamos de parar para pensar se as nossas decisões realmente nos fazem felizes, se há algo enterrado no passado ou dentro de nós que estamos a reprimir. No final, é também sobre como a felicidade ou um sentido para a vida só podem existir se forem partilhados.

A série é um retrato fiel de algo que não é novo: a procura de um propósito para a vida. Vemos as personagens a viver dia após dia sem saber se existe sequer algum propósito ou razão para tudo estar a acontecer. Procuram uma resposta: estarão vivos ou mortos? Procuram uma solução: para que serve tudo isto?

Nós não vivemos e morremos repetidamente como Nadia e Alan. Mas adormecemos e acordamos todos os dias para viver algo que pode parecer igual ao dia anterior. Para quê? É exatamente a isto que Russian Doll tenta responder e a resposta está aberta à interpretação de cada um.

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