Poemas de Natal

O amor, o erotismo e o romance: 6 clássicos da poesia romântica

Com a chegada do dia 14 de fevereiro, chegam também as compilações amorosas. Casais românticos, filmes, séries, livros… e claro, poemas. Há para todos os gostos: poemas sobre o lado negro do amor ou a celebrá-lo. O poema é das formas literárias mais românticas que existe e era comum, há poucos anos, ver cartas de amor com poemas incluídos. Se gostas do romance “à antiga” ou se simplesmente gostas de ler clássicos da poesia romântica, esta compilação é para ti.

Fernando Pessoa, O Amor Quando se Revela

Pessoa escreve sobre um amor que se revela aos poucos e a timidez do protagonista do poema em falar à sua amada. Um clássico do poeta português – apesar de Pessoa não ser considerado um poeta romântico (chegou até a escrever sobre o seu cepticismo em relação ao mesmo, na pele de outros heterónimos).

“O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

fernandopessoa
Fernando Pessoa

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.

Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse
P’ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar… ”

Manuel Alegre, A Teoria do Amor

Da forma única e forte que caracteriza a escrita de Manuel Alegre, este poema explora de forma quase “crua” todas as dimensões que o amor entre duas pessoas pode ter. O espectro vai desde a alegria até ao desamor e tudo isso é, em última instância, o amor.

MA
Manuel Alegre

“Amor é mais do que dizer.
Por amor no teu corpo fui além
e vi florir a rosa em todo o ser
fui anjo e bicho e todos e ninguém.

Como Bernard de Ventadour amei
uma princesa ausente em Tripoli
amada minha onde fui escravo e rei
e vi que o longe estava todo em ti.

Beatriz e Laura e todas e só tu
rainha e puta no teu corpo nu
o mar de Itália a Líbia o belvedere.

E quanto mais te perco mais te encontro
morrendo e renascendo e sempre pronto
para em ti me encontrar e me perder.”

Ary dos Santos, Soneto de Mal Amar

Este poema vai além do amor convencionalmente bonito – Ary dos Santos desconstrói as várias camadas do amor, e chega a explorar o seu lado mais negro. O protagonista da trama sofre de amores e anseia pela ‘ternura’ correspondida.

“Invento-te recordo-te distorço
a tua imagem mal e bem amada
sou apenas a forja em que me forço
a fazer das palavras tudo ou nada.

A palavra desejo incendiada

Ary dos Santos

lambendo a trave mestra do teu corpo
a palavra ciúme atormentada
a provar-me que ainda não estou morto.

E as coisas que eu não disse? Que não digo:

Meu terraço de ausência meu castigo
meu pântano de rosas afogadas.

Por ti me reconheço e contradigo
chão das palavras mágoa joio e trigo
apenas por ternura levedadas.”

Pablo Neruda, Corpo de Mulher

Pablo Neruda é um dos poetas chilenos mais conhecidos do mundo pelos seus poemas de amor (entre outros). No poema abaixo, explora as complexidades do corpo feminino e a sua beleza – num dos poemas mais eróticos e românticos do autor.

Pablo Neruda

“Corpo de mulher, brancas colinas, coxas brancas,
pareces-te com o mundo na tua atitude de entrega
O meu corpo de lavrador selvagem escava em ti
e faz saltar o filho do mais fundo da terra.

Fui só como um túnel. De mim fugiam os pássaros,
e em mim a noite forçava a sua invasão poderosa.
Para sobreviver forjei-te como uma arma,
como uma flecha no meu arco,
como uma pedra na minha funda.

Mas desce a hora da vingança, e eu amo-te.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávido e firme.
Ah os copos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah a tua voz lenta e triste!

Corpo de mulher minha, persistirei na tua graça.
Minha sede, minha ânsia sem limite, meu caminho indeciso!
Escuros regos onde a sede eterna continua,
e a fadiga continua, e a dor infinita.”

António Botto, Quem não Ama não Vive

Botto foi um dos poetas portugueses que marcou uma geração. Assumidamente homossexual, foi alvo de críticas e envolto em controvérsias. Mas isso nunca o impediu de escrever sobre o amor, esse que valorizava acima de qualquer género e que o fazia viver – como descreve no poema abaixo.

António Botto

“Já na minha alma se apagam
As alegrias que eu tive;
Só quem ama tem tristezas,
Mas quem não ama não vive.

Andam pétalas e fôlhas
Bailando no ár sombrío;
E as lágrimas, dos meus olhos,
Vão correndo ao desafio.

Em tudo vejo Saudades!
A terra parece mórta.
– Ó vento que tudo lévas,
Não venhas á minha pórta!

E as minhas rosas vermelhas,
As rosas, no meu jardim,
Parecem, assim cahidas,
Restos de um grande festim!

Meu coração desgraçado,
Bebe ainda mais licôr!
– Que importa morrer amando,
Que importa morrer d’amôr!

E vem ouvir bem-amado
Senhor que eu nunca mais vi:
– Morro mas levo commigo
Alguma cousa de ti.”

Natália Correia, O Livro dos Amantes

Natália Correia ficou conhecida pelo seu estilo erótico e cru, algo bastante escandaloso para a época em que viveu, principalmente porque Portugal vivia uma ditadura. Mas a censura não travou esta mulher que nos deixou inúmeras obras acerca do amor, entre elas O Livro dos Amantes, poema que se divide em 9 partes e por isso, ficam aqui algumas dessas partes. Podes ler na íntegra aqui.

Fonte: jornal Sol.
Natália Correia

“II

Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.

V

Toma o meu corpo transparente
no que ultrapassa tua exigência taciturna
Dou-me arrepiando em tua face
uma aragem nocturna.

Vem contemplar nos meus olhos de vidente
a morte que procuras
nos braços que te possuem para além de ter-te.

Toma-me nesta pureza com ângulos de tragédia.
Fica naquele gosto a sangue
que tem por vezes a boca da inocência.

VIII

Eis-me sem explicações
crucificada em amor:
a boca o fruto e o sabor.”

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