Fotografia: Olga Baczynska

‘Gallipoli’ de Beirut: a mesma viagem, uma embarcação diferente

A música de Zach Condon, líder dos Beirut, sempre nos trouxe à memória postais de diferentes cidades. Gulag Orkestar (2006) leva-nos às paisagens sonoras dos Balcãs. The Rip Tide (2011), por sua vez, traz o natural de Santa Fé, Novo México, de volta a casa, na mistura dos sopros mariachi e ukeleles com um indie barroco, sóbrio e elegante.

O novo trabalho não foge à regra. Gallipoli, editado pela 4AD, continua o que No No No (2015) iniciou em termos de sonoridade. O acústico próprio dos primeiros álbuns é gradualmente combinado com elementos eletrónicos. Contudo, o que no disco anterior soava a um indie pop mais alegre e juvenil, soa agora a nostalgia e a lugares distantes – algo que não é, de todo, novidade para o grupo americano.

De facto, Gallipoli segura-se demasiado aos princípios sonoros a que os Beirut já nos tinham habituado. Apesar de introduzir de forma interessante novas texturas eletrónicas e punchlines distintas, tudo parece manter o mesmo fio condutor de trabalhos anteriores. São exploradas as mesmas emoções, as estruturas melódicas não ambicionam mais do que antes já tinha sido conseguido e a lírica de Zach Condon é frágil e muito rabiscada.

Capa de Gallipoli (via 4AD)

We tell tales to belong
Or be sparred the sorrow
You’re so fair to behold
What will be left when you’re gone?
(Gallipoli)

Mas nem tudo o que Gallipoli apresenta invoca o que antes já era pelo público bem conhecido. Condon inicia o álbum de forma sólida com When I Die, uma balada épica que comprova que o compositor ainda sabe o que faz, mesmo passados quatro anos desde o último trabalho. Deixa-nos curiosos e sorridentes, ansiosos por mais canções.

Gallipoli, o primeiro single do álbum, surge logo após e labuta o mesmo sentimento de nostalgia. Zach Condon ficou inspirado com uma procissão religiosa numa cidade italiana com o mesmo nome, escreveu a música num dia explica que ficou bastante satisfeito com o resultado final: “Pareceu-me uma mistura catártica de todos os discos, antigos e novos, e devolveu-me às velhas alegrias da música enquanto experiência visceral.”

Os sons frescos do órgão inicial fundidos com os instrumentos de sopro imponentes e a batida constante tornam a música que batiza o disco num dos seus momentos mais marcantes.

O entusiasmo mantém-se na primeira parte do álbum. Varieties of Exile traz ukeleles e acordeões, sabe-nos a verão e cria uma atmosfera de melancolia tropical. I Guardini junta a subtileza do piano com uma percussão presente e oferece algumas das letras mais marcantes em todo o projeto. As cinco primeiras músicas do trabalho emanam sensações de grandeza e de espaço, lembram-nos da beleza de temas antigos e exploram as capacidades de Zach Condon enquanto compositor da melhor forma.

With chalk I outline my affairs
And that is how I disappear
(I Guardini)

Depois surge Gauze für Zah e, com essa faixa, a saturação de todo o potencial que a banda tinha apresentado até então. Gauze für Zah é a sexta música do álbum e a mais demorada, com mais de seis minutos de duração. O que começa por ser sereno e agradável acaba com três minutos de quase nada, um som de fundo sem graça e sem objetivo.

O mesmo sentimento de aborrecimento invade canções como Light in the Atoll e We Never Lived Here, que tornam a repetição de melodias em algo mais cansativo que prazeroso. Os próprios instrumentais que por três vezes se apresentam no alinhamento de Gallipoli saturam quem os ouve, sobretudo à medida que o disco gira, por apresentarem os mesmos sons, as mesmas ideias e a mesma emoção.

Em toda a segunda parte do trabalho reinam pedaços soltos e rabiscados da mesma nostalgia tom sépia a que Condon nos habituou em músicas anteriores. Das demais destacam-se Landslide, outro single, e Family Curse, que trazem de volta a aura espaçosa e épica dos primeiros temas.

Contudo, Gallipoli não é um álbum mau por ser cansativo. No final de contas, falha apenas por não ambicionar mais do que já tinha sido conseguido em discos anteriores. Com as novas texturas que este álbum introduziu, os Beirut fizeram arranjos e reparos na embarcação que Zach Condon já comanda há alguns anos. O destino, no entanto, é o mesmo.

Tal como se de uma viagem se tratasse, apesar de todos os suspiros e bocejares de aborrecimento, trazemos lembranças, guardamos memórias e continuamos a sorrir. Nem que seja por voltarmos a casa.

Beirut - 'Gallipoli'
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Apesar de introduzir de forma interessante novas texturas eletrónicas, Gallipoli segura-se demasiado aos princípios a que os Beirut já nos tinham habituado.
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