Climax, de Gaspar Noé, chegou às salas de cinema e VOD no dia 7 de fevereiro de 2019. É uma história alucinante sobre um grupo de dança prestes a iniciar uma digressão que, na última noite de ensaios, festeja com sangria “minada” por um dos integrantes do grupo. O filme ganhou o prémio máximo na Quinzena dos Diretores em Cannes.

Ver um filme de Gaspar Noé é quase como andar numa montanha russa. Sentimos a antecipação, a adrenalina antes do filme começar. Prendemos o ar no início, quando as coisas ainda não estão assim tão más, como que a guardar fôlego para a descida que inevitavelmente nos espera. E, durante essa descida, fechamos os olhos algumas vezes para ver se passa mais rápido. A única diferença é que o alívio, depois de um filme de Noé, nunca chega.

Climax é o filme mais curto e  “leve” do realizador franco-argentino mas, ao mesmo tempo, engloba tudo aquilo pelo qual o realizador é conhecido: narrativas construídas sobre abuso de drogas (desta vez acidentalmente), incesto, vingança, violência. A isto junta-se a presença de um miúdo de 5 anos ao barulho e têm a receita perfeita para o desastre.

O filme é toda uma panóplia de cores, sons. A câmara acompanha os diferentes integrantes da banda nos diferentes atos do filme. Primeiro, dançam, depois conversam trivialmente, bebem e, por fim, enlouquecem – à sangria foi juntada LSD, e a partir do momento em que descobrem isso os ataques de raiva, de depressão e desejo são enaltecidos a um nível que nem todos aguentam assistir. É difícil estar-se indiferente ao ambiente degradante, apetece não olhar, mas algo nos força a fazê-lo: ora a banda sonora eletrizante ora os movimentos da câmara, que a certo ponto gira em 360º graus mas, sobretudo, a atuação destes atores de primeira mão, que na verdade são dançarinos escolhidos a dedo pelo realizador através de Krump battlesvoguing balls e vídeos do YouTube.

Poster promocional de Climax

“O nascimento e a morte são experiências extraordinárias”

Algo a reconhecer nos filmes de Gaspar Noé é que, por mais chocantes que sejam, é indubitável a criatividade do realizador tanto nos termos técnicos como narrativos. As cores vibrantes, neon, os créditos quase epilépticos já viraram trademark do realizador. Neste filme, não é diferente. Apesar de menos flashy que Enter the Void – Viagem Alucinante, Climax continua a ser repleto de cor – há cenas monocromáticas onde vemos tudo a vermelho e apenas sombras ou vultos das personagens, sentimos a sua raiva; outras numa luz verde, onde a personagem principal se olha no espelho, enojada consigo própria.

A atuação dos dançarinos escolhidos a dedo por Gaspar Noé é surpreendente. Para além de dançarem lindamente e fazerem mais death drops que as drag queens fazem num episódio de RuPaul’s Drag Racesão ótimos atores. Parece que todos fazem isto há anos enquanto que, na verdade, apenas Sofia Boutella (Kingsman: Serviços Secretos) é atriz profissional. Para além disso, o filme foi gravado em duas semanas e o guião tinha apenas cinco páginas, sendo que a estratégia de Noé foi dizer aos atores para improvisarem os diálogos e interações uns com os outros, algo que poderia ter corrido muito mal à partida, mas que não aconteceu.

Gaspar Noé nas gravações de Climax / CCA

Apesar disto tudo, o filme está muito longe da perfeição. Noé parece obcecado, apaixonado pelo seu próprio estilo, nunca fugindo aos moldes daquilo que conhece. Apesar de diferente, Climax é tão familiar, mas sem muito a acrescentar. Irreversible é uma verdadeira acid-trip mas, ao mesmo tempo, um drama intenso sobre uma vítima de violação. Enter The Void – Viagem Alucinante também é uma acid trip, mas é também um filme profundo e até emocionante sobre a morte um traficante de drogas fora do seu país e os danos que o consumo causa. Climax é apenas uma acid trip. É perturbador, mas os outros dois também são. É hipnotizante, mas os outros também. Até o inesperado, como os créditos finais a passarem no início do filme, acaba por ser esperado de Noé. As personagens são unidimensionais e vazias. Muitas das cenas acabam por se tornar torpe apenas pelo shock value. 

Climax acaba por ser um pesadelo caleidoscopiano com cerca de 10 minutos de apresentação de personagens, 30 de (belas) danças, e 1 hora e 10 minutos de “a sério que estes são os efeitos de LSD?”.

Climax estreou no dia 7 de fevereiro e está em exibição no Cinema UCI – El Corte Inglés.

Título original: Climax

Realização: Gaspar Noé 

Argumento:  Gaspar Noé

Elenco:  Sofia Boutella, Kiddy Smile, Roman Guillermic, Souheila Yacoub, Claude Gajan Maull, Giselle Palmer, Taylor Kastle, Thea Carla Schott

Género: Drama, Thriller, Musical, Terror

Duração: 96 minutos

O número de pessoas que saiu da sala durante a exibição em Cannes
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Votação do Leitor 2 Votos
8.5