‘Correio de Droga’: Uma viagem clandestina na companhia de Clint Eastwood
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Correio de Droga estreou esta quinta-feira nas salas de cinema portuguesas, marcando o regresso do aclamado realizador e ator Clint Eastwood ao grande ecrã. Desde Gran Torino (2008) que o cineasta não desempenhava as duas funções no mesmo filme.

Inspirado na história real de Leo Sharp, veterano americano da segunda guerra mundial, Correio de Droga revela-se uma agradável surpresa na qualidade de cautionary tale moderno, reforçando a importância dos valores familiares e o caráter ilusório das aparências.

Uma tarefa simples

A narrativa inicia-se com uma filmagem harmoniosa de flores, cuidadas por Earl Stone (Clint Eastwood), um octogenário horticultor, próspero em todos os aspetos da sua vida profissional. Esta imagem contrasta com o cenário caótico que sucede em paralelo, relativo ao casamento da sua filha mais velha (Alison Eastwood), em que a falta do pai é, mais uma vez, notoriamente sentida.

Alison Eastwood e Clint Eastwood em Correio de Droga. Fonte: IMDB

Dez anos passados, Earl difere bastante do homem espirituoso e bem-sucedido dos primeiros minutos de filme. Falido e sem saber para onde ir, tenta reatar os laços familiares, prometendo contrariar a sua tendência para colocar os parentes em segundo plano.

Face à hostilidade da família, Earl aceita uma nova oferta de trabalho que lhe parece muito fácil: conduzir. Com o passar do tempo apercebe-se que está ao serviço de um famoso cartel de droga mexicano, transportando grandes quantidades de mercadoria para várias localidades dos Estados Unidos da América.

Afinal, Earl Stone, agora denominado de El Tata, é o candidato perfeito para a tarefa. Dificilmente, alguém desconfiaria de um homem caucasiano de oitenta e muitos anos, sem qualquer tipo de cadastro.

Fonte: NOS Audiovisuais

A atividade do cartel acaba por chamar à atenção do agente especial Colin Bates (Bradley Cooper), que embarca numa extensa investigação para averiguar a identidade do misterioso correio de droga. Tal descoberta afigura-se difícil, pois, mesmo quando Colin se aproxima de desmascarar Earl, os preconceitos do polícia e o estatuto de “cidadão sénior que serviu o país” jogam em favor de El Tata.

No estilo típico de Eastwood, o filme acaba como começou, focando as plantas que Earl tanto ama, paisagem distante do tumulto que o idoso experienciou nos últimos anos de vida.

O homem por trás da máscara

Um dos aspetos mais inebriantes da obra, talvez até a principal temática de todo o enredo, é, sem dúvida, a família. A demanda pela aceitação dos parentes, bem como a noção de que o dinheiro trará amor e reconhecimento, são temas retratados de forma exímia na narrativa de Clint Eastwood.

Esta vertente mais conscienciosa de Correio de Droga é personificada em Earl Stone, que é o protótipo do anti-herói: consegue criar empatia no espetador, apesar da sua ideologia retrógrada e inúmeras falhas de caráter.

Fonte: NOS Audiovisuais

Até as entregas de droga que o idoso realiza conseguem ser facilmente perdoadas, pois, o que começou por ser uma ocupação em benefício próprio, acaba por se converter em altruísmo, com a maioria dos lucros utilizados em prol dos seus entes queridos.

Espera-se sempre que El Tata saia vitorioso, uma vez que a imagem de velhinho simpático apegado à família esconde as más ações e o vocabulário racista utilizado com uma inocência quase infantil.

Aliás, a forma como este engana constantemente as autoridades, acaba por se refletir no público, que se sente impelido a apoiar, ao invés de condenar, o protagonista.

Bradley Cooper como Colin Bates em Correio de Droga. Fonte: Alan in Belfast

Assim, Eastwood oferece às audiências mais uma excelente atuação ao interpretar esta complexa personagem modelada, que procura a todo o custo redefinir prioridades antes que seja demasiado tarde.

Bradley Cooper excede também as expectativas no papel de Colin, conferindo ao polícia uma certa comicidade, sem esquecer a ambição e determinação que motivam a sua ânsia por justiça.

Autenticidade versus Moralidade

Correio de Droga merece ser reconhecido pelo equilíbrio narrativo entre o suave e o dramático. É um filme que deixa espaço tanto para respirar, como para o suspense que prende o espetador ao ecrã.

Vale a pena destacar várias nuances que transformam esta produção, à partida mais pesada, num relato cómico de inesperadas peripécias: a imagem de Earl a cantarolar no carro, com quilos e quilos de estupefacientes na bagageira; as improváveis amizades que o velhinho trava com os barões de droga; e as festas milionárias em que o ancião parece totalmente deslocado.

Fonte: IMDB

Contudo, o filme cai no erro de renunciar à sua autenticidade ao moralizar de maneira forçada certos acontecimentos, algo que acaba por afastar Earl Stone do original El Tata, Leo Sharp.

A título de exemplo, quando Earl é, por fim, apanhado e enfrenta julgamento oferece-se corajosamente para ir preso, ignorando os argumentos da sua advogada com grande teatralidade. No fundo, como a família promete visitá-lo, o encarceramento deixa de ter qualquer importância, atitude que marca a redenção final do personagem.

Clint Eastwood e Leo Sharp (El Tata). Fonte: MundoDVD

Na realidade, Sharp lutou para manter a sua liberdade, alegando demência e oferecendo-se para plantar papaias havaianas como forma de pagar a multa que lhe foi imposta. Uma oportunidade perdida para introduzir um desfecho mais realista e interessante.

Apesar da propensão para o dramatismo, Correio de Droga vale realmente a pena, não só para os fãs da habitual filmografia de Eastwood, mas também para aqueles que procuram um bom thriller sobre o mais improvável traficante da história americana.

 

Título original: The Mule

Realização: Clint Eastwood

Argumento:  Nick Schenk

Elenco: Clint Eastwood, Bradley Cooper, Alison Eastwood, Dianne Wiest

Género: Drama, Thriller

Duração: 116 minutos