marie kondo arrumação
Fonte: Instagram @mariekondo

Como Marie Kondo mudou a nossa casa — e a nossa vida

Primeiro, no Japão. Depois, na Europa. Mais tarde, nos Estados Unidos. Marie Kondo, o fenómeno da arrumação que promete transformar casas, vidas e mentalidades faz sucesso por todo o globo.

O seu livro Arrume a Sua Casa, Arrume a Sua Vida andou pelas bocas do mundo quando foi editado há quase uma década. Hoje, com 8,5 milhões de cópias em mais de 40 línguas, continua a ser um best-seller que faz todo o sentido.

Marie Kondo, uma Messias da arrumação

A japonesa Marie Kondo chegou a Portugal em 2015, quando a Pergaminho editou em língua portuguesa o livro Arrume a Sua Casa, Arrume a Sua Vida. Um ano depois, lançou mais um livro (Alegria! Guia Ilustrado da Arte de Arrumar a Sua Vida) e agora chega aos pequenos ecrãs das casas portuguesas com uma série no Netflix.

O reality show Magia da Arrumação estreou no primeiro dia de 2019 e conta com oito episódios onde Marie Kondo difunde as suas dicas de arrumação por várias famílias norte-americanas, orientando-as na construção de um lar repleto de objetos que apenas proporcionam alegria aos seus ocupantes.

Seja uma família frenética sem tempo para arrumações, um casal à espera de um bebé ou até uma viúva que procura um novo início, esta série mostra-nos que qualquer um pode beneficiar do método “KonMari“.

Um método que, por sinal, é muito simples: se, à pergunta “este objeto traz-me alegria?”, a resposta for sim, devemos mantê-lo. Se for não, devemos agradecer-lhe pelo serviço que nos prestou e livrarmo-nos dele. Parece uma ideia alienígena? (Porque é.)

Já respeitaste a tua roupa hoje?

O animismo característico da abordagem de Marie Kondo é conhecido por provocar uns quantos sobrolhos franzidos e comentários menos simpáticos. Pedir desculpa a umas cuecas que nunca usámos logo após as termos atirado desdenhosamente para a pilha do “deitar fora”, agradecer a um par de meias rotas antes de as descartarmos, ou cumprimentar quatro paredes antes de começar a arrumar pode revelar-se verdadeiramente estranho.

Porém, é esta ligação aos objetos que nos leva a arrumar efetivamente, isto é, a escolher o que queremos acolher na nossa casa — e na nossa vida.

Há certas coisas que, quando pensamos nelas, nos enchem o coração. Sentimo-nos abraçados pela luz quente que advém de estar com um amigo que nos compreende genuinamente ou que nos faz rir até esguicharmos leite pelo nariz (se tivermos um copo de leite à mão, claro). De conduzir o nosso carro que pode não ser grande espingarda, mas que esteve sempre lá para nós nos dias mais chuvosos. Sentimo-nos mais felizes apenas por usar a nossa camisola favorita, comer naquele conjunto especial de loiça, olhar para aquela caixinha no nosso quarto que não trocávamos por nada deste mundo.

E atenção: as coisas que nos fazem felizes não precisam de ser as melhores coisas do mundo. Elas só são as melhores coisas do mundo porque nos fazem as pessoas mais felizes do mundo. No meu caso, uma dessas coisas pode ser uma gabardina verde-seco que ata à cintura e me faz sentir como uma elegante espia alemã, à la Marion Cotillard no filme Aliados. É este o sentimento de alegria de que Kondo fala e quer que todos experienciemos.

Esta guru das limpezas não nos ensina apenas a aplicar um sistema que organize as nossas casas e vidas, mas a sentir o processo de arrumação. Não nos oferece lições de minimalismo, arte de nos desfazermos do maior número de bugigangas possível, sob pretexto de já não nos serem úteis ou de já possuirmos mil e uma réplicas do mesmo artigo, até que o nosso roupeiro se reduza a cinco t-shirts neutras, dois pares de calças de ganga e uns quantos enfadonhos sapatos pretos.

Não, o método “KonMari” ensina-nos a reconectarmo-nos com os nossos sentimentos. A deixarmo-nos guiar pelos nossos instintos.

Traz o sentimentalismo de volta à organização, orientando-nos na descoberta daquilo que realmente valorizamos. Ajuda-nos a identificar aquilo que queremos, em vez daquilo que não queremos. E isso não nos faz sentir um bocadinho menos culpados quando estamos prestes a libertarmo-nos daquelas cuecas horríveis que a tia Adelaide nos deu porque achava que “poderíamos precisar ;)”?

O paradoxo do controlo

Outra questão importante sobre a qual este método de organização incide é o facto de tocar num dos desejos mais profundos e essenciais do nosso ser: o prazer do controlo. Quando os trabalhos para a faculdade são tantos que já nem nos lembramos da última vez que lavámos o cabelo ou quando as relações familiares entram em tensão de tal forma que só nos apetece arrancar a cabeça do nosso irmão mais novo fazer uma limpeza purgatória ao nosso quarto, livrando-o de tudo o que é supérfluo e nos desconforta o olhar, dá-nos uma enorme sensação de relaxamento  — daquelas de que já nem nos lembrávamos que existia.

Muitos fãs da arrumação garantem que é uma experiência catártica. Alguns dizem mesmo terapêutica.

Reconheço que isto parece quase doentio, mas a verdade é que o controlo supramencionado abre espaço à liberdade. Liberta-nos da prisão que é mantermos objetos dos quais nunca gostámos muito em cativeiro só porque nos foram oferecidos por amigos ou familiares. Liberta-nos do ligeiro desespero de possuir uma biblioteca cheia de livros que não nos interessam. Liberta-nos da angústia de olhar para um roupeiro cheio de peças que nos fazem sentir culpados por nunca as usarmos.

Arrumar para uma vida ideal

Ler um dos livros de Marie Kondo ou ver um episódio da sua nova série deixa-nos com uma vontade incomportável de começar a organizar. A estrela da arrumação é excelente a criar este desejo em nós, convencendo-nos de que todas as divisões da nossa casa podem ser otimizadas com o seu método. E ainda leva esta fantasia mais longe, alegando que todos os aspetos de nós mesmos podem ser melhorados com o seu método. Afinal, a nossa vida não seria melhor se nos rodeássemos apenas de coisas que nos trazem alegria?

Eu não acredito numa vida perfeita. Às vezes, o universo atira-nos com cada bojarda que a vida já se torna difícil o suficiente, de uma maneira ou de outra. Acredito que Marie Kondo apenas tenta fazer com que tudo seja mais fácil, livrando-nos das pequenas agonias do dia-a-dia que tornam a nossa existência menos prazerosa. E porque perguntar “que tipo de vida queres viver?” é também perguntar “que coisas fazem parte dessa vida ideal?”, arrumar com este método é, no fundo, uma tentativa de nos aproximarmos da nossa vida ideal.

A nossa casa: uma galeria das coisas de que gostamos

O resultado final do processo de arrumação é estranho, mas recompensador. Aprendemos que não precisamos de tantas montanhas de roupa, livros e bilhetes de cinema que alimentem a nossa nostalgia. Ganhamos uma nova apreciação pelas coisas que temos, quando nos conectamos com as mesmas.

E as nossas assoalhadas podem parecer quase vazias, mas a verdade é que agora temos uma vida escolhida a dedo. Uma casa onde, a cada passo que damos, nos rodeamos de coisas que amamos. Diz lá: não apetece começar já a arrumar?

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