Ninguém sabia o nome dele, mas ouvíamos as suas letras em todo o lado. Frank Ocean era o anónimo songwriter que cedia os seus dotes às maiores pop stars do mundo. Isto, claro, até se assumir como um dos melhores artistas R&B e tomar de assalto as playlists dos melómanos. Hoje, ele é um mito.

Frank Ocean é, então, aqui dissecado pelo Espalha-Factos. De desconhecido a rapaz sensação, o artista já teve uma vida pelo meio e deu-nos música entretanto.

De ghostwriter a homem dos sete ofícios

Nasceu na Califórnia, viveu metade da vida em Nova Orleães e com o furacão Katrina tudo mudou. Voltou às raízes com a intenção de acabar a sua primeira mixtape e por lá ficou. Conheceu Tyler, The Creator e entrou no coletivo de hip-hop Odd Future. A vida deu voltas quando deixou de ser um escritor fantasma e passou a assumir o controlo da sua própria arte.

Nostalgia, Ultra foi apenas o início. O EP do músico deu que falar e colaborou com Kanye West e Jay-Z, um feito digno no início da sua carreira. O rapaz da bandana vermelha via-se então a lançar Thinkin’ About You, de Channel Orange, e o universo ajoelhava-se perante si. Nunca mais foi o mesmo assim que conheceram a verdadeira faceta de Ocean.

Channel Orange: o começo de um reinado infinito de Ocean

Uns dizem que é um visionário, outros que sabe apenas como fazer as melodias certas. Certamente não é apenas a persona tímida que ele criou à sua volta que atrai tantos fãs. Frank Ocean conta as suas histórias confortavelmente a partir do estúdio. Não é pessoa de se revelar em demasia ao público, não sendo o mais interativo em redes sociais e outras lides semelhantes. Isto contribui para o mito que constitui mantendo os esforços criativos sempre bem definidos e sem espaço para distrações.

Acima de tudo, conseguiu com que a sua sexualidade não fizesse os headlines dos tablóides, deixando essas conversas para a forma enigmática de storytelling. Embora clássico, o primeiro álbum faz todo o sentido quando o recuperamos depois de ouvir os trabalhos mais recentes do artista.

A pureza do R&B presente em Channel Orange tornou-o naquele artista do qual se partilhavam fotografias no Tumblr e se faziam publicações a questionar o seu regresso. Não havia notícias, música nova ou digressões a acontecer. Tudo estava concentrado na música que havia de começar a lançar novamente em 2016. Os vários fragmentos que ele tinha em cima da mesa, com necessidade de os abordar, tornaram Blonde um álbum uno, homogéneo e estrondosamente importante para toda uma geração.

Blonde: o álbum introspetivo que definiu gerações sem as magoar

As suas lutas diárias com a masculinidade e o sentimentalismo estão imortalizadas em 17 canções que deram vida aos jovens (na sua maioria) que o têm como role model. É importante perceber que também nos guiamos por pessoas como Ocean, daí entender o fenómeno que ele é na cultura pop. Não é só o visual aprazível e a figura do artista por si: é a catarse a que nos leva sempre que ouvimos Blonde.

A base do seu segundo disco é o dreamscape para onde nos transporta, o experimentalismo e as texturas sónicas bem conseguidas. O esforço estoico na lírica de Frank Ocean apaixonou-nos desde a primeira audição de Blonde. As vicissitudes da vida e a sua incoerência constante resultaram na desordem emocional que é este disco, mas que no fundo compreendemos sem grande explicação. O minimalismo imposto por Ocean é o que nos hipnotiza lá no fundo. Seigfried é o máximo do pontencial de Frank. A atmosfera, a paz que finalmente chega depois de tantas músicas, a textura pacífica capaz de nos colocar num coma emocional.

O homem que repensou o conceito de masculinidade

Trabalha com produtores de topo e colegas de profissão que o completam (James Blake, por exemplo, ou mesmo Rostam, ex-membro dos Vampire Weekend). Em Seigfried até Jonny Greenwood, dos Radiohead, contribui com a parte orquestral do tema. Enquanto Ocean não volta com um novo trabalho, está com Tyler, The Creator, A$AP Rocky ou Jay-Z, a colaborar no que lhe chama a atenção.

Frank Ocean é o mito da nossa geração mesmo que não seja o ativista que esperamos que possa ser. Simplesmente rendemo-nos à intimidade que coloca na música e deixamo-nos levar até que o Spotify ou o vinil nos dê o último segundo dos seus discos. E quando precisarmos de amparo, Frank Ocean vai lá estar com a sua lucidez sonhadora para nos dizer que ser vulnerável não é ser fraco.