Um ano depois do lançamento de O Pianista de Hotel, o jornalista e escritor Rodrigo Guedes de Carvalho, lançou um novo livro, Jogos de Raiva, que expõe ao mundo os fantasmas das almas através do novo mundo da comunicação global e instantânea. O Espalha-Factos leu também este romance e conta-te agora quais as suas conclusões.

Não se preocupando com o politicamente correto, Rodrigo Guedes de Carvalho faz uso da sua mestria com as palavras, conjugando-a com a sua inegável habilidade de ler as pessoas e a humanidade contida nelas, e escreve. Escreve sobre José Francisco Sereno, artista falhado, com variações de humor, que podia ser o teu avô. Escreve sobre Ana Teresa Sereno, música de sucesso, que toca baixo descalça e que podia ser a tua irmã. Escreve sobre Nuno Maria Sereno, conceituado jornalista, que podia ser o teu pai. Escreve sobre Santiago, que, tal é o fado da vida, podias ser tu. Escreve sobre o anjo e o diabo, que espreita no cimo das escadas.

jogos de raiva rodrigo guedes de carvalho

Fonte: Wook

Através da família Sereno, Rodrigo Guedes de Carvalho coloca a nu a tecnologia, as redes sociais, e todas as suas nuances, principalmente na medida em que esta nos afeta, a nós, e às nossas relações com quem nos é próximo. Tal como a par de O Pianista de Hotel, o reconhecido jornalista fala sobre temas interessantes e sempre atuais da sociedade, como o racismo, amor, arte, amizade, sexualidade, depressão e divergências familiares – aqui fica logo patente a tentativa de descodificar a génese humana.

Mais uma vez, a trama de Guedes de Carvalho é bastante influenciada pelo passado, o qual mina o presente e a vida das nossas personagens. Basta um passo em falso no presente e o passado pode sair da toca para voltar a assombrar-nos, por mais que o tivéssemos ignorado e mantido fechado numa gaveta que nos parece longínqua. Quem sabe, pode bastar esquecermo-nos de uma fotografia dentro de um livro que a nossa neta descobre mais tarde.

Jogos de Raiva tece uma dura crítica à sociedade, critica-nos a nós e aos nossos. Obriga-nos a pensar e a repensar. A escrita é simples, fluída e rasgada. Apostando numa transferência quase intacta da linguagem oral para a escrita, Guedes de Carvalho estabelece uma conversa com o leitor, como muito poucos escritores conseguem fazer.

É uma conversa de 439 páginas onde são abordados os mais variados temas, pois,

Este é um livro abrangente

A alma humana é muito complexa e indecifrável, mas Rodrigo Guedes de Carvalho oferece-se corajosamente, (tal como se ofereceu o avô de José Francisco Sereno, em tempos, num ato de extrema bravura, no qual o neto iria para sempre viver na sombra), para tentar dar-lhe algum vislumbre, para deixar a ponta desta característica intangível de cada um, visível para todos nós, comuns mortais.

Este é um livro abrangente. Rodrigo Guedes de Carvalho retrata, cruamente, as novas tecnologias, que nos permitem espalhar a semente do ódio através de um clique. Na sua perspetiva, a internet e as redes sociais não inventaram novas pessoas. As pessoas sempre existiram e sempre foram o que são hoje. A diferença é que atualmente a internet permite-lhes atingirem os outros, ou não nos esqueçamos de que “ter o mundo todo à porta é ficar mais vulnerável”.

Este é um livro abrangente. Ratoeiras da vida, são tantas, dispostas a apanhar-nos ao mínimo descuido. Ratoeiras plantadas pela vida, ou mesmo por nós próprios, pois  “Nos momentos felizes esquecemos sempre pedrinhas que vão reaparecer, com toda a certeza, quando o caldo entornar.

Este é um livro abrangente. O jornalismo é nele dissecado, como um dos principais culpados da perigosa situação que vivemos nos dias de hoje, por precisar do que acontece, por precisar de sangue, de desgraça – “Se só o bom acontece, não há notícias”. Mas não nos esqueçamos que o jornalismo de hoje é o jornalismo de sempre, apenas, tal como toda a gente, tem novas ferramentas.

Este é um livro abrangente, consegue até ir “dar uma perninha” a África, à guerra do ultramar e voltar, para explicar mais uma vez como o passado pode minar o presente. Desta vez, não em sentido literal, pelo menos.

Este é um livro abrangente. No qual a música volta a estar presente, não fosse Rodrigo Guedes de Carvalho um aficionado por ela. Através dos dedos escuros de Ana Teresa no seu baixo, ou do violoncelo ainda exposto na parede de Pedro Gouveia – sim, esse mesmo, o já conhecido (para quem leu o Pianista de Hotel) médico que defende que “os médicos não percebem um c****** de medicina”.

Mas afinal…

Que poder é este da literatura, afinal apenas letras arrumadas no papel, como nos fazem sentir tantas coisas”?

Embora poderoso, ligeiramente complexo com substância, Jogos de Raiva lê-se fácil e muito rapidamente – uma vez embrenhados na história, devoramo-la.

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