Fotografia: André Henriques / Gig Club

Olhos nos olhos com Jessy Lanza: uma noite no Lux Frágil

Quando a olhamos nos olhos, significará isso que Jessy Lanza nos ama? É uma leitura dúbia da ainda mais dúbia It Means I Love You, cartão de visita da artista canadiana. A verdade é que, na noite de 24 de janeiro, no Lux Frágil, essa proposição fez algum sentido (desde que sejamos contidos na definição desse amor). A sua estreia em nome próprio na capital foi magnética e reverberante, uma hora de emoções em fluxo e evolução.

Lanza veio ao espaço à beira-rio pela mão da Gig Club, nova promotora que no dia anterior a levou ao Pérola Negra no Porto. Era a próxima etapa lógica após ter dominado o circuito de festivais em 2017: encabeçou o segundo Lisboa Dance Festival; atuou no aquecimento para o NOS Primavera Sound e foi parar ao Clubbing do NOS Alive. Tudo num período de três meses. Chegada a 2019, a artista da Hyperdub conseguiu preencher comodamente a sala Discoteca, mas resta a sensação de que o trabalho da canadiana merece mais.

A envolvência multicolor do Lux Frágil espelha a música de Lanza. (André Henriques)

Lanza produz um som que, apesar de angular e complexo, é fácil de amar, cheio de texturas estimulantes e refrões orelhudos. É como um cruzamento prodigioso entre dois dos músicos que mais cita: um canal luminoso e tátil entre o footwork áspero do desaparecido DJ Rashad e a pop sofisticada de Miharu Kosha. O footwork é um resíduo importante, ora amornado em paisagens R&B intimistas, ora destilado em pop ofuscante. Nunca é emulação, é música de experimentação temperada e autoria distinta. E, por cá, devia ter mais do que só aclamação crítica e apelo underground.

A verdade é que, para Lanza, isso parece interessar pouco. Não pela falta de empatia com quem a assistia, até porque assistimos a exatamente o contrário, uma progressão enorme. (No Lisboa Dance Festival, segurava-se ao seu equipamento em palco, dele despegando-se, reticente, em direção a um público que a recebeu numa gradação de indiferença, curiosidade e dança tímida. Há alguma justificação para a estranheza: foi no pós-jantar—o ingrato daytime de um festival de música eletrónica.)

Jessy Lanza no pico hipnótico da faixa-título de 'Oh No'. (André Henriques)
Jessy Lanza no pico hipnótico da faixa-título de ‘Oh No’. (André Henriques)

O que interessa, então, a Lanza? A chave está algures num círculo mágico (que num festival pode acontecer ficar a tracejado): a sua música tem de despertar sentimentos num público que tem de os manifestar de forma a que ela o possa sentir e retribuir com mais música. Tem de nos seduzir, para que a olhemos nos olhos. Para que abandone a timidez e torne recíproco o olhar. Para que nasça o sentimento.

No Lux, aconteceu e resultou em generosidade e adoração mútua. E não é só romantização bacoca. É uma Jessy Lanza que, embevecida pela reação ao tema-título de Pull My Hair Back, nos confessa que o nosso apoio é uma razão para viver.

Não nos iludamos. Essa força é global, de todos que a ouvem, é mais do que 100 pessoas a dançar. Mas também é isso, e é fundado na música e não na celebridade. Não é difícil imaginar que cada noite, por muito material repetido e jet lag, valha a pena por algo maior. Algo que transcende a dimensão do espaço e os números na assistência—ambos reduzidos para esta atuação. Basta pensar em como a tempestade pulsátil que entra a meio de It Means I Love You também assola a pista de dança. De repente, a energia transborda e dezenas de pés concordam numa feliz dissonância.

Conexão estabelecida. (André Henriques)

A energia nem sempre é assim: adequa-se a cada minuto, como nas primeiras três canções, mais emotivas e fechadas. Esse tríptico de I Talk BB, New Ogi5785021 merece estupefação pela beleza da voz de Lanza, o seu falsete é de cortar a respiração. Os nossos olhos vidrados em Lanza, ainda não nos seus, porque ainda estão concentrados em si mesma. E nos panos de fundo hilariantes: stock photos de gente bizarra de meia idade, sinais de stop; também panoramas da sua pacata terra-natal, Hamilton.

Quando a batida se torna mais insistente em Kathy Lee e VV Violence, todos saímos do transe induzido, incluindo Lanza, e movemo-nos em direção à soltura total. O momento que o firma é a pop hi-NRJ de Never Enough, celebrada com pura efusão. Uma efusão ininterrupta até à faixa final, a triunfante faixa que dá nome a Oh No, o seu segundo disco, editado em 2016 (e que, com tantas outras, está em competição para a melhor música de Lanza. O seu terceiro álbum está para breve.)

Continuamos a agradecer. (André Henriques)

A resposta é consentânea. Os corpos perdem-se na fúria do ritmo, desaceleram-se na ponte da canção, voltam a dar tudo até ao fim. Lanza tem-nos na palma da sua mão e sabe-o, mas também sabe quando é hora de acabar. Faz o pequeno teatro da despedida antes de nos brindar com um encore estratégico, para apagar as chamas com cuidado: a ponderada You Never Show Your Love, de baixo forte e cadência lenta, convida à última dança. Olhos nos olhos. E quando Lanza nos olha nos olhos, pode não significar amor, mas é algo quase tão precioso.

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