A segunda (e provavelmente a última) aventura de The Punisher na Netflix vem com expectativas elevadas. Não só é uma das últimas restantes séries da Marvel, mas a excelente primeira temporada foi posta em produção a pedido dos fãs depois da receção estrondosa à primeira aparição de Frank Castle como vilão-virado-aliado em Daredevil.

A segunda temporada é infelizmente menos consistente. A tensão que dominou a primeira série perde-se entre duas histórias que infelizmente permanecem paralelas.

Apesar de não apresentar o mesmo nível de coesão da primeira, esta temporada traz uma dimensão emocional forte que, aliada a desempenhos excecionais por todo o elenco, acaba por prevalecer à falta de orientação da narrativa.

Justiceiro sobre rodas

Depois de receber uma nova identidade através de um cover-up por parte da segurança nacional, Frank Castle (Jon Bernthal) deixou a caveira para trás e está a vaguear pelos EUA à procura de paz.

Jon Bernthal em The Punisher, segunda temporada

Imagem: Netflix

É aqui que é obrigado a usar o seu lado violento para salvar uma rapariga de 16 anos (Giorgia Whigham) metida com o tipo de criminosos que costumam estar na mira de Frank.

O Punisher tem agora de proteger a rapariga do grupo de assassinos que estão atrás dela e descobrir o que ela tem de tão valioso.

Jon Bernthal e Giorgia Whigham em The Punisher

Imagem: Netflix

Estes primeiros episódios passados no meio rural americano fazem um excelente trabalho ao criar consequências reais para as ações de Frank, mesmo quando tenta fazer a coisa certa.

Assumem um ritmo mais deliberado, em que a parceria relutante entre Frank e a rapariga tem destaque principal e guia a narrativa.

A relação entre os dois é irresistível, e uma das melhores execuções desta trope que já inspirou histórias em outros formatos como Logan no cinema e The Last of Us nos videojogos.

Há também um forte tema religioso em torno do vilão Pilgrim (Josh Stewart), um assassino guiado por uma fé devota que caça a rapariga por algo importante que ela tem.

Josh Stewart em The Punisher

Imagem: Netflix

Esta personagem é, aparentemente, o oposto de Frank. Extremamente contido e metódico na sua execução (perdoem o trocadilho). Mantêm uma distância das suas ações através do seu seguimento à letra de ordens “de cima”, como uma versão corrompida e extremista de Matt Murdock.

De volta à teia

Em Nova York, Billy Russo (Ben Barnes) está a fazer uma recuperação milagrosa depois de ter sido mutilado e posto em coma por Frank, mas a sua memória ficou presa no tempo que passou nos fuzileiros com Frank, sem saber que o traiu.

Billy Russo no hospital em The Punisher, segunda temporada

Imagem: Netflix

A Agente Madani (Amber Rose Revah) está obcecada com Billy, convencida de que ele está a mentir e a planear uma fuga.

À medida que Russo recupera a sua força física e junta o puzzle da sua mente, torna-se uma ameaça cada vez maior. Isto leva Madani a trazer Frank de volta para a cidade para acabar o trabalho.

Frank Castle e Curtis em The Punisher, segunda temporada

Imagem: Netflix

É aqui que começa o problema que impede esta temporada de atingir o seu potencial: Inicialmente, parece elementar que ambos os vilões se vão unir para destruir Frank, mas isso nunca acontece. Estas duas storylines nunca se cruzam e são constantemente postas em pausa para deixar a outra desenvolver.

Qualquer tensão gerada acaba por ser perdida enquanto a outra metade da série decorre. A certo ponto, até as personagens comentam como as duas ameaças não têm qualquer relação, numa espécie de meta-conversa não intencional. O espetador fica com potencial não realizado, com ideias melhores do que aquela seguida pelos guionistas.

Esta arritmia espalha-se para outras áreas. Certos cortes entre episódios podiam ter mais impacto se fossem movidos uma cena para a frente ou para trás, especialmente nos últimos episódios.

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Performances de topo e ação arrepiante

Dito isto, muitas das cenas e sequências que constituem a temporada valem a pena pela qualidade da execução. Todas as personagens têm momentos para brilhar e recebem a devida atenção.

The Punisher, segunda temporada

Imagem: Netflix

O elenco faz um trabalho fantástico, com especial atenção a Jon Bernthal, que se integra completamente no papel mais uma vez, e a excelente Giorgia Whigham, que traz à série (e a Frank) uma inocência e leveza juvenil pelas quais vale a pena lutar.

Giorgia Whigham em The Punisher

Imagem: Netflix

Ben Barnes vai ao próximo nível no papel de Billy Russo. O ator consegue ultrapassar a caracterização facial demasiado leve e transmitir o estado devastado da sua personagem de forma muito convincente. Contudo, nota-se que a sua recuperação às vezes é acelerada para deixar a história prosseguir.

Ben Barnes como Billy Russo em The Punisher, segunda temporada

Imagem: Netflix

As sequências de ação, em particular no brutal combate corpo-a-corpo e estilo gun-fu, colocam esta série entre as melhores, junto a Daredevil. Há muita atenção ao detalhe na forma como as personagens ex-militares se movem, lutam e manipulam armas de forma autêntica.

As consequências de golpes e tiros também são bem estabelecidas através de feridas e limitações que ajudam a contextualizar o combate no mundo real. Há muito sangue, mas não é em vão.

Frank Castle (Jon Bernthal) em The Punisher

Imagem: Netflix

Tal como o seu vilão principal, esta temporada sofre pela falta de coesão nas suas ideias. Apesar disto, se esta é mesmo a última vez que vamos ver Frank a impor justiça, há bastante aqui para agradar fãs da personagem e quem esteja à procura de boa ação com consequências palpáveis.

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