Dizer que a carreira de M. Night Shyamalan tem sido atribulada é um eufemismo. Depois do grande O Sexto Sentido, em 1999, seguiram-se escassos sucessos como Signs – Sinais (2002), e logo então uma corrente de fracassos críticos, todos críticos e alguns comerciais, encabeçados por títulos infames como A Senhora da Água (2006) e O Acontecimento (2008). Desde 2015, contudo, ano em que estreou A Visita, o realizador indiano voltava a prometer novos tempos de glória, uma corrente em que se seguiu Fragmentado (2017), que no seu final revelava partilhar universo com O Protegido (2000), o seu primeiro sucesso pós-Sexto Sentido. Formando uma trilogia, chega agora até nós Glass, o capítulo final. E Shyamalan, voltou a acertar desta?

Após o final de Fragmentado, o vigilante David Dunn (Bruce Willis) persegue Kevin Wendell Crumb (James McAvoy), conhecido pelas múltiplas personalidades, que voltou a raptar jovens adolescentes. Após confronto, são encerrados num hospital psiquiátrico, onde se encontra internado o velho arqui-inimigo de Dunn, Elijah Price (Samuel L. Jackson), a responder pelo nome de Mr. Glass. Lá, vão ser objeto de estudo da Dra. Ellie Staple (Sarah Paulson), uma psiquiatra especializada em megalomania, que vai querer fazê-los entender que nenhum dos três tem superpoderes.

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Fonte: Divulgação/NOS Audiovisuais

Há um mérito que pode sempre ser dado a Shyamalan, e é esse o de nos dar filmes que arriscam sempre. Parte da sua inconsistência enquanto realizador e argumentista dever-se-á também a isto, mas é um facto que não se vê um filme de Shyamalan na esperança de ver algo académico ou banal. Enquanto obra maioritariamente decorrida num único cenário, Glass explora todas as potencialidades sem alguma vez ser uma fita aborrecida. Não fosse este um filme sobre a banalidade daquilo que pode ser um super-herói na vida real, não é de estranhar a ausência de um grande confronto regado a muito CGI.

Seria fácil propor que todas as derradeiras ideias de Glass, essencialmente, já tinham sido igualmente expostas por Shyamalan em O Protegido há quase duas décadas. Não obstante, numa realidade em que o cinema de super-heróis e adaptado de BD prolifera a ritmo acelerado a cada ano, é de aplaudir a abordagem terrena de Glass, que até salta à vista como inusitada, perante uma banalização daquilo que um confronto final entre figuras sobre-humanas deva ser hoje em dia.

Contudo, Shyamalan não se coíbe de cair uma e outra vez em erros antigos. Se o primeiro e segundo atos são um crescendo de tensão e admiração, em todas as escolhas narrativas e estilísticas, não há como se alhear do facto de que o clímax da obra, ainda que perfeitamente coeso, pareça por vezes uma construção sucessiva, em que autor vai inventando à medida, apresentando os factos sem deixar a audiência familiarizar-se com eles.

A construção do próprio encerramento, ainda que ousada na sua inteligência, recorre também a convencionalismos e momentos menos inspirados, mas sempre rumo a este desfecho que Shyamalan vê como arrebatador. Há toda esta mística com que imbui a fita, quase a fazer-nos crer que estamos a ver grande cinema, uma ilusão de grandeza da parte de Shyamalan tão grande como a apontada às suas personagens. E ainda assim, acreditamos nele. E enquanto cineasta mainstream, talvez seja esse o maior trunfo do indiano – é alguém cuja crença no transcendente que pode haver no seu próprio trabalho atravessa para lá do ecrã.

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Fonte: Divulgação/NOS Audiovisuais

Glass vive obviamente dos personagens, e no meio da sua parada por sucessivas obras menores destinadas ao DTV, é sempre fantástico ver Bruce Willis a retomar um dos grandes papéis da sua carreira, numa obra que exige mais de si do que o costume. Já Jackson é incrível como apanágio, num papel com a dose certa de loucura a que já nos tem habituados. O grande destaque é, obviamente, McAvoy, que retoma as suas tantas personalidades no corpo de Kevin, num esforço brilhante na sua multiplicidade, em particular na figura de Hedwig, que puxa as escassas gargalhadas da fita.

A finalizar uma saga que até há dois anos não julgávamos possível, Glass acaba por se revelar um portento de entretenimento que fica sempre aquém de O Protegido e Fragmentado. Desengane-se quem achar, ainda assim, que vai encontrar uma fita vazia e forçada, fruto da sede de lucro de Hollywood. Shyamalan continua presente, e está aí para ficar, sempre a jogar com as expetativas e pronto a enganar-nos até ao fim, para o melhor e para o pior.

Um final quase extraordinário, para uma trilogia nunca menos que irreverente.

Título original: Glass
Realização: M. Night Shyamalan
Argumento: M. Night Shyamalan
Elenco: James McAvoy, Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Anya Taylor-Joy, Sarah Paulson, Spencer Treat Clark, Charlayne Woodard
Género: Drama, Mistério, Ficção científica
Duração: 129 minutos

'Glass': Um invulgar confronto final
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