Fonte: Uma Pedra no Sapato/Divulgação

‘Terra Franca’ – a simplicidade tem sempre razão

Terra Franca, a primeira longa metragem de Leonor Teles, estreou no dia 10 de janeiro nas salas de cinema portuguesas. A história sobre o pescador de Vila Franca de Xira e a sua família veio confirmar aquilo que já sabíamos: a simplicidade é mesmo o último grau de sofisticação. Terra Franca podia chamar-se “uma família que não faz cerimónia quanto ao copo onde o vinho é servido”.

 

O filme, uma produção de Uma Pedra no Sapato, começa devagar. O próprio Albertino Lobo é uma pessoa que leva o seu tempo a fazer as coisas. Fuma o seu cigarro tranquilamente, saboreia a sua bifana, aperta as jardineiras uma alça de cada vez, emenda as suas redes de pesca sem pressa e olha para o vazio o tempo que for preciso. É um homem de poucas palavras que vai, pouco a pouco, conquistando a nossa simpatia. É humilde, com um olhar tão sério como o seu bigode, que anda sempre muito bem aparado. Passamos muito tempo com Albertino durante as suas viagens de barco, nas pausas à porta de casa a ver o comboio passar, no seu tempo de almoço. A expressão desanimada de Albertino demonstra uma angústia que é dele (não lhe é dada a licença para exercer o seu ofício – pescar), mas que também é do espectador que sente por e com ele. No fim do filme parece que já o conhecemos, desejamos beber com ele um café nem que seja para comentar os resultados do Benfica.

Albertino Lobo | Fonte: Uma Pedra no Sapato/Divulgação

São várias as conversas tidas pela família Lobo ao longo do filme. Fala-se da compra de um aspirador, do casamento da filha mais velha, sobre a distância emocional que se vive na sociedade atual.

“As pessoas não discutem, mas vão se afastando”

Albertino raramente fala, mas quando o faz acerta no que diz. A sua mulher, Dália, trabalha num café e orgulha-se do tempo que tem para ela. Aproveita-o com as filhas e diz à sua colega que “[deixam] os homens em casa e [vão] jantar fora, [vão] ao teatro”. A amiga anseia por passeios como esses – lá em casa tem de “trazer sempre o homem atrás, até para comprar soutiens”. O grande tumulto interior de Dália dá-se por causa do casamento da filha mais velha, Ana Lúcia. O nervosismo da mãe, a ânsia para que corra tudo bem, os stresses do vestido, a escolha do fato, das colunas de som, da comida e da bebida são situações genuinamente retratadas, tornando-as identificáveis a qualquer um.

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Para cada cena faladora ou mais agitada, temos uma com um Albertino pensativo, calado. Apesar de díspares, há um sentido de proximidade entre as cenas. Na maioria das vezes, vemos o pescador desanimado, mas quando o seu sorriso espreita por trás do bigode, apanhamo-nos a sorrir com ele. Quando ele celebra, apetece-nos celebrar com ele. Por mais simples que sejam, os seus gestos parecem grandiosos pelo seu significado emotivo – pôr o cinto de segurança na neta, dançar com as filhas no baile de verão ou no casamento da mais velha, dar um abraço desengonçado ao cunhado ao entregar a filha no altar mostram o lado castiço de Albertino, a bondade que carrega com ele, que a família Lobo carrega consigo.

Albertino Lobo festeja o seu aniversário | Fonte: Uma Pedra no Sapato

Outra coisa marcante no filme é o olhar meigo, mas nervoso, de Dália, que após 31 anos de casamento mostra alguma carência que até as filhas notam. Num baile de verão, dão-lhe uns shots para “se sentir mais solta” e dizem ao pai para “sussurrar-lhe alguma coisa ao ouvido”, mas Albertino não gosta da ideia. Depois de três décadas, o ponto de vista do casal quanto às relações é um tanto diferente – Albertino diz que não deviam durar mais de 5 anos; Dália refere que depois da fase dos beijinhos e abracinhos é que vêm as coisas boas. Albertino não é muito aberto aos afectos, e a sua mulher parece ter aprendido a viver com isso.

Dália Lobo e Albertino Lobo | Fonte: Uma Pedra no Sapato/Divulgação
Dália Lobo | Fonte: Uma Pedra no Sapato/Divulgação

O filme é diferente de qualquer outro que Leonor Teles já realizou, porque não lida diretamente com as suas vivências. A única coisa que a realizadora e o protagonista têm em comum é a cidade de onde vêm. De resto, pouco da realizadora é visto no filme: apesar de ser um documentário, não há voice-off que narre os acontecimentos, não há entrevistas nem “cameos” da realizadora nem de ninguém da sua equipa, como acontece habitualmente. É um filme que tem apenas aquilo que realmente precisa ter como, por exemplo, a coexistência das músicas Azar na Praia’, de Nel MonteiroI Keep Missing My Water’, de Otis Redding na banda sonora do filme, uma banda sonora inesperada que complementa perfeitamente as estações e situações que o documentário retrata. Na verdade, muito do que se vê em Terra Franca é inesperado – os cortes súbitos que fazem a transição de uma cena para a outra, as vozes da televisão que não são apagadas, o comboio que passa e assusta a pequena Alice, neta de Albertino. Todos esses pequenos fragmentos compõem a essência de Terra Franca e faz desse filme a belíssima, simplíssima obra que é.

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Terra Franca
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