Pessoa

Porto Editora confirma omissão, mas nega censura de versos de Fernando Pessoa

A editora responsável pelo manual Encontros, de 12º ano, nega ter censurado a Ode Triunfal de Álvaro de Campos, o heterónimo de Fernando Pessoa que tinha em si “todos os sonhos do mundo”. A Porto Editora afirma que o poema “está disponível na integra” na versão do professor, defendendo que o ensino de todos os versos depende do mesmo.

A razão da omissão

Depois de noticiada, pelo Expresso, a omissão de partes do poema da Ode Triunfal, a Porto Editora esclareceu a questão, numa publicação no seu site, afirmando que não se tratou de uma censura, mas sim de “uma preocupação didático- pedagógica”, uma vez que os versos ocultados foram escritos numa “linguagem explícita e que se relacionam com a prática de pedofilia”.

Substituídos por linhas a tracejado foram os versos 153, 169 e 170: “Ó automóveis apinhados de pândegos e de p*tas“; “E cujas filhas aos oito anos – e eu acho isto belo e amo-o! – / Masturbam homens de aspeto decente nos vãos de escada“.

O alerta

O manual Encontros foi aprovado pelo Ministério da Educação e adotado por cerca de 90 escolas, em todo o país.

O alerta de que o poema Ode Triunfal não estava transcrito na integra foi dado por uma dessas instituições ao Expresso, após um grupo de alunos ter escutado uma gravação do poema e se ter apercebido que os versos em questão não constam na página 99 e 100 do manual.

Manual Encontros
Foto: Divulgação

A explicação dos autores

Noémia Jorge, Cecília Aguiar e Miguel Magalhães, autores de Encontros, assinalaram, no manual do professor, os versos que se encontram omitidos na versão do aluno. Com isto pretendiam, segundo consta na nota de esclarecimento da Porto Editora, dar ao professor a oportunidade de abordar, ou não, em contexto de sala de aula os três “polémicos” versos.

A diferença entre livro do professor e livro do aluno assenta no pressuposto de que cada docente tem um papel central na preparação e na organização das suas aulas, em função das características específicas de cada turma”, referiram ainda os autores do manual.

Segundo os mesmos, “Os professores conhecem as suas turmas e conhecem o poema integralmente, pelo que saberão também se têm ou não condições para abordarem os referidos versos com o tempo e o cuidado necessários, uma vez que podem, obviamente, constituir fator de desestabilização ou de desvio da atenção dos alunos”.

"Ode Triunfal"
O excerto do poema “Ode Triunfal”, no manual do professor

Professores de Português são contra a omissão dos versos

Em declarações ao jornal Público, Rosário Andorinha, presidente da Associação Nacional de Professores de Português, mostrou-se contra o corte dos três versos da Ode Triunfal de Álvaro de Campos. “Não consigo aceitar que um poema seja cortado, porque ao fazê-lo já não estamos perante o mesmo texto, nem a respeitar o seu autor”, afirmou a presidente e professora do ensino secundário.

Estamos a falar de alunos do 12.º ano, que têm entre 17 e 18 anos. Não faz qualquer sentido estar a escamotear versos só porque alegadamente têm uma linguagem menos própria”, sublinhou Rosário Andorinha, que afirma que a solução encontrada pela Porto Editora desrespeita o estudo de Álvaro de Campos, uma vez que este utiliza “uma linguagem que pretende agredir, chocar”.

Livro "Ode Triunfal"
Fonte: Wook

“Ode Triunfal”, um texto de facultativo

Ode Triunfal não é um texto de leitura obrigatória no 12º ano. De acordo com as Aprendizagens Essenciais, definidas pelo Ministério da Educação, no módulo sobre Fernando Pessoa, cabe ao professor escolher seis poemas do ortónimo, dois de Alberto Caeiro, três de Ricardo Reis e três de Álvaro de Campos.

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