Catarina Requeijo criou o espetáculo É pró menino e prá menina, que procura, a partir do ato de brincar, desfazer alguns preconceitos e estereótipos de género enraizados na sociedade atual.

A peça tem estreia marcada para o dia 17 deste mês, no Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa. Os atores João Nunes Monteiro e Marta Cerqueira são os protagonistas do espetáculo, em que dão vida a duas crianças, separadas por uma linha vermelha e estereótipos de género.

Nesta representação teatral, construída praticamente sem texto, as duas personagens divertem-se com brinquedos que, de uma forma normativa, estão associados a estereótipos masculinos e femininos – o rapaz brinca com luvas de boxe, carrinhos e bolas de futebol, enquanto que a rapariga se entretém com um serviço de loiça cor-de-rosa, com um boneco bebé e umas sapatilhas de ballet.

Poderão as crianças trocar de brinquedos?

Num determinado momento da peça, as crianças interagem e experimentam os brinquedos um do outro, infringem as regras e constroem uma ponte, que transgride a linha vermelha que os dividia.

O que é que as meninas podem fazer e os meninos não podem?” e vice-versa, questiona a encenadora.

“É pró menino e prá menina”

Foto: divulgação

As crianças e as questões de género

Em palco, recorrendo simbolicamente aos brinquedos, são abordados, de forma singela, diversos estereótipos de género. Catarina Requeijo construiu esta peça a pensar no público mais novo, entre os três e os seis anos de idade.

Na opinião da encenadora, embora seja difícil falar de questões de género com os mais novos, é nestas idades que se podem “abrir as mentes” e fazê-los pensar de outro modo.

As pesquisas da encenadora

Catarina Requeijo realizou, para esta peça, pesquisas em contexto escolar, com o intuito de perceber melhor o comportamento das crianças enquanto brincam. A encenadora verificou, através do trabalho de campo, que inconscientemente os estereótipos ainda perduram, tanto no ambiente escolar, como familiar.

Catarina colocou questões às crianças e utilizou as suas respostas, hesitações e silêncios como ponto de partida para a construção de É pró menino e prá menina.

Catarina Requeijo

A criadora, Catarina Requeijo. Foto: YouTube

Um lado “pró menino” e outro “prá menina”

A linha vermelha que divide o palco prolonga-se na plateia. O público é separado por género, tal como ocorre na peça. De um lado sentam-se os meninos e de outro as meninas. A ideia é levar o espectador a questionar, fazê-lo pensar e refletir sobre as divisões e preconceitos existentes na sociedade.

Com esta disposição de lugares, a encenadora pretende que, do espetáculo, as crianças e adultos saiam a pensar que tudo é possível. Segundo Catarina, tanto podem existir meninos que gostam de vestidos, como meninas que gostam de subir às árvores.

A peça de Catarina Requeijo defende que as crianças devem descobrir por si mesmas os seus gostos, sem limitações, uma vez que a tendência geral nem sempre corresponde à personalidade de cada um.

A política e as suas ideologias

Dias antes da estreia, a atualidade política intrometeu-se na dramaturgia. O espetáculo inicia-se com a audição de uma frase proferida por Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos do Brasil: “É uma nova era no Brasil: menino veste azul e menina veste rosa“.

Para Catarina Requeijo, a frase da ministra justifica a existência deste espetáculo, que é “necessariamente político, não no sentido de partidário, mas é político, é um posicionamento político“.

Menino e menina

Ilustração: ©Dika Araújo/Reprodução

“É pró menino e prá menina”

A peça de Catarina Requeijo estará em cena em Lisboa até ao dia 23 de janeiro, estando previstas oficinas sobre o tema destinadas especificamente para educadores de infância.

Depois da capital, a peça viajará pelo país, estando confirmadas representações em Ovar, Loulé, Guimarães, Almada e concelhos do Vale do Tejo.

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