Sophia de Mello Breyner

Celebrar 100 anos de Sophia (de Mello Breyner Andresen)

Se fosse viva, Sophia de Mello Breyner Andresen celebraria 100 anos. Por todo o país e além-fronteiras, Sophia vai ser celebrada e relembrada – a festa começou este sábado dia 12 e vai prolongar-se ao longo do ano de 2019.

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Apesar de hoje a medicina possibilitar a alguns um centenário de vida, a poetisa não viveu para ver os seus 100 anos celebrados, tendo falecido em 2004 – mas nós sim.

Nas celebrações do centenário em honra da poetisa vamos poder contar com espetáculos, colóquios, exposições, leituras, concertos, prémios, filmes sobre a vida e a herança de uma das autoras mais marcantes do século XX em Portugal e no mundo.

“Há mulheres que trazem o mar nos olhos”

Nasceu a 6 de Novembro de 1919. Sophia de Mello Breyner Andresen tinha um amor inexplicável pelo mar e o dom da palavra decerto antes de sequer esboçar a primeira. É o vasto espólio de palavras, poemas e textos que irão ser celebrados ao longo deste ano com festividades já iniciadas no passado sábado. Ainda há, no entanto, muito para ver até ao fim de 2019.

Jovem Sophia de Mello Breyner Andresen. Foto: Fundação Calouste Gulbenkian

Segundo a Comissão das Comemorações do Centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen, celebrar Sophia é “lembrá-la em comum”. Esta comissão está curiosamente sediada no Centro Nacional de Cultura, instituição que a poetisa e o marido, o jornalista Francisco Sousa Tavares assumiram funções de direção numa época em que a ditadura portuguesa dificultava uma cultura livre.

As celebrações, coordenadas e organizadas pela filha Maria Andresen, poeta e académica, irão estender-se para lá das fronteiras portuguesas mas não só: os eventos não se ficarão apenas pela escrita, sendo que outros tipos de arte irão integrar as celebrações. Dança, música, artes plásticas, cinema ou até teatro. Para além de Maria Andresen são também integrantes da comissão organizadora Federico Bertolazzi, Fernando Cabral Martins, Guilherme d’Oliveira Martins e José Manuel dos Santos.

O programa de festas conta ainda com um programa na Galeria da Biodiversidade no Centro Ciência Viva do Porto, antiga casa da família Andresen. Martim Sousa Tavares, o neto de Sophia, organizou este programa em paralelo que promete celebrar passado, presente e futuro. A figura central será sempre Sophia, mas com uma série de expressões artísticas inspiradas na autora ao longo dos anos.

Teatro e Música

Em Maio as homenagens a Sophia são levadas a palco e as palavras serão transformadas em performance teatral. A Menina do Mar, um dos mais famosos contos infanto-juvenis da autora, será interpretado pelo Teatro LU.CA, em Lisboa. A peça está a cargo da encenação de Ricardo Neves-Neves e direção musical do neto Martim Sousa Tavares. É ainda responsável pela produção o MPMP (Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa) e a peça conta regressar com uma digressão por várias cidades do país.

No dia do nascimento da autora, na Casa Andresen, está ainda programada uma apresentação especial da peça em causa, sem cenário e apenas com luzes – consistirá numa projeção de ilustrações originais de Mariana a Miserável.

Edição antiga do clássico “Menina do Mar”, ilustração Sarah Affonso

As parcerias com o MPMP não se ficam pela peça anterior – juntam-se a estes o Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto e assim nasce o Prémio Musa (título de uma das obras da autora). Este prémio, segundo a organização, pretende “distinguir a excelência musical da composição contemporânea de tradição erudita ocidental”. A única condição para participar na iniciativa é que as músicas compostas sejam inspiradas na poesia da autora em Navegações e que sejam escritas para serem interpretadas a capella. Os prémios incluem 3 mil euros, estreia num concerto a realizar na Casa Andresen e a gravação da faixa pelo Ensemble MPMP. As participações são aceites até dia 31 de janeiro e o prémio será entregue dia 31 de Março.

Abril e Julho vão ser meses marcados pelas celebrações teatrais – Tatiana Salem Levy e Flávia Lins são as autoras responsáveis por três textos escritos a pedido do neto Martim Sousa Tavares. As peças, com um público alvo infanto-juvenil, serão encenadas por Anabela Sousa e o resultado de uma co-produção com o Teatro do Bolhão. Martim Tavares convidou ainda o compositor Eurico Carrapatoso para criar uma música original para A Noite de Natal – convite que acabou por se transformar numa peça teatral ao som de harpas.

Dia 6 de novembro, dia do centenário do nascimento de Sophia, está reservado para um Concerto Comemorativo da Orquestra Sinfónica Portuguesa, no Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa. Para além da música clássica inspirada na autora portuguesa, este concerto trará a palco novos talentos do canto lírico nacional e contará com uma sessão solene.

As celebrações neste campo serão mais que muitas com três dias dedicados a Sophia: espetáculos com palavra e música, um concerto de Filipe Raposos no Palácio de Belém; bem como a reedição em CD de 1959 d’ A Menina do Mar (com a colaboração do maestro Fernando Lopes-Graça e voz de Eunice Muñoz).

Cinema e Literatura

Fazem parte do programa deste centenário também iniciativas cinematográficas. A Cinemateca Portuguesa vai acolher ciclos de cinema relacionados com a obra e vida da autora, escolhidos por Maria Andresen, Margarida Gil, Rita Azevedo Gomes, José Manuel Costa e Manuel Mozos. Outros projetos cinematográficos estão ainda à espera de aprovação, sendo que o calendário de festividades ainda não está fechado.

No que toca à palavra serão realizadas quatro sessões de leitura dedicadas a Sophia: O Mar de Sophia (21 de janeiro), Sophia: Liberdade (25 de Março), Sophia: A Poesia das Ilhas (24 de junho), Sophia e os Clássicos (23 de setembro) – todas no Povo-Lisboa, no Cais do Sodré, em Lisboa.

Sophia de Mello Breyner Andresen fotografada por Eduardo Gagueiro

No dia internacional da Poesia a celebração terá destaque: dia 21 de março haverá declamação de poesia no Menina e Moça Livraria Bar, com música e material audiovisual a acompanhar. Já no Centro Cultural de Belém (CCB) haverá: feira do livro, leituras, conferências e programação infanto-juvenil. Ainda com datas a confirmar está previsto o espetáculo multimédia O Mundo de Sophia do grupo Lisbon Poetry Orchestra – que, em princípio será editado em livro e em CD.

Serão também editadas algumas obras nesta celebração. Um volume dedicado à Antiguidade Clássica irá incluir a obra já esgotada O Nu na Antiguidade Clássica, bem como poemas sobre a Grécia e Roma Antiga – será organizado por Maria Andresen e com prefácio de José Pedro Serra (edição Assírio & Alvim). Será também editado um livro com “prosa ficcional” da autora, um conjunto de textos em prosa (por exemplo, intervenções políticas, críticas ou textos em jornais) e uma antologia de poemas bilingue traduzidos por Richard Zenith.

Colóquios

A celebração do centenário do nascimento de Sophia não poderia deixar de contar com colóquios. Na Fundação Calouste Gulbenkian vai ser discutida a obra da poetisa por um painel de especialistas nacionais e internacionais. A iniciativa, que será recebida dias 16 e 17 de maio, tem como objetivo explorar as camadas da vasta herança que Sophia nos deixou. Dia 3 de Outubro, o Centro Cultural de Lagos irá receber um outro colóquio: O Mediterrâneo e o Atlântico em Sophia. Este terá como objetivo pensar a relação da autora com o mar, uma marca da sua escrita sempre bem presente.

Foto: Porto Editora

Em novembro e dezembro deste ano haverá ainda um ciclo de conferências sobre Sophia e as Artes entre a Fundação de Serralves e a Biblioteca Almeida Garrett, no Porto. Serão debatidas vários tipos de relações entre a autora e várias artes nestas conversas: Sophia e a Música, a Dança, as Artes Plásticas e a Forma – que contarão com inúmeras figuras entre elas Carlos Mendes de Sousa, Teresa Andresen ou Nuno Faria.

A comemoração do centenário é repleto de festividades e de ocasiões para relembrar Sophia de Mello Breyner Andresen: dentro e fora de Portugal. Consulta o programa aqui.

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