O seguinte artigo está recheado de relatos horríveis sobre uma história deprimente. O leitor não será julgado se evitar um conto tão contemptível, uma palavra que neste caso quer dizer “digno de desprezo”.

Seria assim que Lemony Snicket começaria um texto sobre A Series Of Unfortunate Events. A série original da Netflix chegou ao fim com a sua terceira temporada. Ao todo foram 13 livros infanto-juvenis adaptados num total de 25 episódios.

O estilo característico da saga distinguiu-se do resto das ofertas do serviço de streaming. Valerá a pena entrar neste mundo bizarro ou deve-se desviar o olhar?

O riso que vem da miséria

A narrativa debruça-se sobre os orfãos Baudelaire, três crianças que perdem os pais num incêndio. Violet, Klaus e Sunny ficam a cargo de Count Olaf, um vilão com planos de ficar com a herança considerável dos irmãos.

Cada livro é adaptado em dois episódios, com a exceção do último que tem apenas um. Os capítulos focam-se na tentativa dos orfãos escaparem de Olaf, enquanto são adotados por diferentes guardiões, quase todos incompetentes. Pelo meio, uma conspiração que envolve uma organização secreta torna-se cada vez mais preponderante. As crianças descobrem que os seus progenitores ocultaram muito do seu passado.

À primeira vista, a história parece típica de uma série para jovens, porém a série tem uma personalidade única que a torna diferente do expectável.  O mundo alternativo onde as personagens vivem mistura o modernismo com a antiguidade e está recheado de um humor negro e absurdo.

Lê também: TVI VOLTA A LIDERAR E QUEBRA SEQUÊNCIA VITORIOSA DA SIC

Como exemplificado no início do artigo, todos os episódios reforçam a ideia que as aventuras dos Baudelaire não são mágicas, muito pelo contrário, tratam-se de tragédias que provam a injustiça da vida e a sua ambiguidade moral. Nem tudo é deprimente, ou seja, existe sempre uma pequena luz de esperança ao virar da esquina, mesmo que as personagens descubram sempre que é infundada.

O valor de A Series Of Unfortunate Events reside na capacidade de provocar risos nas situações mais sombrias da vida dos orfãos, sem que estas percam impacto emocional. É, sem dúvida, dos contos mais pitorescos já apresentados em televisão.

A Series Of Unfortunate Events

A Series Of Unfortunate Events – Netflix

Mestre dos Ofícios

Não se pode falar da equipa por detrás da série sem começar pelo homem que encarna Count OlafNeil Patrick Harris é a estrela a destacar de um elenco bem composto. O ator brilha no papel de antagonista, aliando o seu carisma cómico à capacidade para momentos mais dramáticos e ameaçadores.

De disfarce em disfarce, Harris constrói um portefólio diverso dentro de uma só personagem e justifica todo o foco que recebe. Sotaques, números musicais, o ator revela-se um mestre capaz de fazer um pouco de tudo, sem nunca revelar uma falha. É o típico vilão que adoramos odiar.

Patrick Warburton assume o pseudónimo de Lemony Snicket, o narrador e investigador da história trágica dos Baudelaire. Os seus à partes teatrais proporcionam piadas consistentes, ao mesmo tempo que revelam, lentamente, o seu próprio passado infortunado.

Lê também: LA CASA DE PAPEL: REVELADAS AS PRIMEIRAS IMAGENS DA SEGUNDA TEMPORADA

O papel de cada um dos três jovens protagonistas é bem desempenhado, sem nenhum deslumbre particular. O elenco conta, de resto, com um grupo de atores mais ou menos reconhecidos de outras andanças.

À medida que a história desenvolve, as personagens revelam-se mais ambíguas do ponto de vista ético. O conflito moral aumenta a cada aventura que passa. Esta é das melhores qualidades da série.

De realçar o excelente trabalho do realizador Barry Sonnenfeld e do designer Bo Welch. A cinematografia e os cenários que esta captura são de um pormenor fenomenal e um autêntico regalo para os olhos. A componente sonora também se destaca, quer pelos efeitos utilizados para obter valor cómico, quer pelas músicas que fornecem mais impacto aos acontecimentos.

A Series Of Unfortunate Events

A Series Of Unfortunate Events – Netflix

Percalços pelo caminho

Nem tudo funciona em A Series Of Unfortunate Events. Os episódios iniciais sofrem de um ritmo vagaroso, devido à necessidade de introduzirem os pontos importantes da narrativa.

Só na parte final da primeira temporada é que se sente que os criadores começam a ter confiança para arriscar mais na adaptação do material original. No entanto, uma vez que cada livro está dividido em apenas dois episódios, o espectador poderá sentir algumas oscilações na fluidez da história.

Lê também: OSCARS NÃO TERÃO APRESENTADOR PELA PRIMEIRA VEZ EM TRÊS DÉCADAS

Apesar da série desenvolver melhor a mitologia do universo da obra, existem certos pontos narrativos deixados no ar de uma forma insatisfatória. Há certas soluções demasiado convenientes para os problemas, mesmo considerando os padrões da narrativa. Contudo, isto são falhas que advêm dos livros e não da adaptação em si.

Nenhuma das falhas apontadas é desconcertante ou arruína a experiência. Tratam-se de pormenores que impedem a série de ir mais longe. Tendo isso em conta, deve-se dar mérito aos criadores por conseguirem corrigir os erros à medida que as temporadas progridem.

A Series Of Unfortunate Events

A Series Of Unfortunate Events – Netflix

O Fim

O derradeiro episódio da série adapta o último livro da saga. Depois de tantas desventuras, a conclusão prefere dar atenção ao clímax emocional da evolução das personagens principais, ignorando as narrativas secundárias.

É uma aposta acertada, pois os momentos finais adequam-se à temática da história e proporcionam uma finalidade tranquila aos espectadores. Neil Patrick Harris brilha na sua despedida da série, provando uma última vez a combinação rara de talento que possui.

A Series Of Unfortunate Events

A Series Of Unfortunate Events – Netflix

A Series Of Unfortunate Events é uma viagem marcante. Por cada momento melancólico existe uma gargalhada caricata. Por cada crueldade do mundo real, existe uma ternura esperançosa escondida.

É esta combinação de sensações, unida a uma narrativa interessante e bem adaptada que faz deste projeto um sucesso.

Nota Final: 8/10