Imagina que estás prestes a fazer 30 anos e a tua vida é um desastre. Odeias o teu trabalho na cave da câmara municipal, vives no consultório do teu pai com todas as tuas coisas em caixas e não consegues superar o teu ex, que te traiu com a atual noiva e te deixou há dois anos. Felizmente tens duas amigas que te adoram e estão dispostas a tudo para te ajudar. E elas têm um plano secreto que é capaz de correr bem demais.

Atenção: O artigo pode conter spoilers.

Esta é a premissa de ‘Amor Ocasional’, a mais recente série francesa da Netflix. A comédia romântica chegou à plataforma de streaming há um mês (7 de dezembro) e tem cativado os fãs. Com o título original ‘Plan Coeur‘ (traduzido literalmente para ‘Plano Coração’), divide-se em oito capítulos de cerca de meia hora cada e conseguiu a classificação de 7.6 em 10 no iMDb.

Enquanto comédia romântica, ‘Amor Ocasional‘ aposta fortemente nos clichés, mas de uma forma que os torna engraçados. Com um humor muito francês, damos por nós a rir de situações que, apesar de por vezes bastante irrealistas, nos fazem pensar em temas mais profundos, como a amizade, a confiança e o amor. Ligeira e descontraída, a série apresenta uma narrativa fácil de acompanhar, mas que ainda assim consegue cativar o suficiente para valer uma sessão de binge watching. 

Ainda que não tenha a Julia Roberts e o Richard Gere, ‘Amor Ocasional‘ faz-nos lembrar — às vezes de uma forma até bastante óbvia, mas agradável — o filme ‘Pretty Woman‘. A série alcança ainda um outro feito. Apesar de falada em francês e muito focada naquilo que é a sociedade parisiense, consegue, com algum sucesso, que os espetadores se identifiquem com os protagonistas, mesmo que eles próprios não sejam mulheres de 30 anos a viver desventuras amorosas na cidade do amor.

Mas afinal porque gostamos de ‘Amor Ocasional‘?

Se quisermos eleger algo que realmente nos cativa em ‘Amor Ocasional‘, então as personagens são a resposta. Isto deve-se, em grande parte, ao excelente trabalho que foi feito na criação de personagens que não se limitam a ser divertidas. Além do fator cómico, todas elas têm as suas qualidades, defeitos e inseguranças. Há que também elogiar o bom trabalho que foi feito na escolha do elenco. Mas falemos sobre cada um deles individualmente:

Elsa (Zita Hanrot):

Elsa tem trinta anos e tem a vida fora de controlo. Vive no consultório do pai e odeia o trabalho de secretária que faz na câmara municipal. Está sempre atrasada e bebe demais regularmente, o que geralmente resulta num conjunto bastante embaraçoso de ações e mensagens.

Além disso está completamente obcecada com o ex-namorado, Maxime (Guillaume Labbé), que a deixou há dois anos, depois de a trair com a mulher de quem acabou de ficar noivo. Ainda assim, Elsa quer-lo de volta e, na verdade, no início ele até parece um bom tipo… compreensivo e até encantador, parece alguém que errou ao trair, mas tudo o que quer agora é seguir em frente. Claro que só gostamos dele no primeiro episódio, porque rapidamente revela não ter qualquer sentido de moralidade quando percebe que Elsa pode estar prestes a superá-lo.

Nerd, excêntrica e desastrada, Elsa está longe de ser uma Mary Sue. Pelo contrário, ela é a personagem completamente imperfeita que é impossível não adorar. Altruísta, parece ter deixado de acreditar no seu valor e de achar que merece ser tratada de forma melhor. Está constantemente a engolir os seus próprios sentimentos para não magoar os das outras pessoas, como quando as amigas preparam uma festa de aniversário “surpresa” que não é surpresa nenhuma ou quando a mãe lhe faz um bolo de anos com a foto da irmã em vez da dela.

E é assim, quando se sente no seu pior, que algo extraordinário acontece: Elsa conhece Jules Dupont (Marc Ruchmann), um professor charmoso e encantador. Claro que não sabe que é tudo um plano das amigas, que contrataram um “prostituto de luxo” para a ajudar a superar Maxime… até que o “plano” corre bem demais e ela apaixona-se pelo prostituto sob disfarce.

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Sobre o arco narrativo de Elsa não há muito a dizer. O número reduzido de episódios de curta duração obrigam a que o desenvolvimento da relação com Jules pareça precipitado (principalmente da parte dele, que num minuto está apenas interessado no negócio e logo a seguir já está apaixonado). Fora isso, Elsa é uma personagem com quem nos identificamos facilmente (ou por quem sentimos uma certa empatia) e a atriz fez um bom trabalho a transmitir como ela se sente socialmente desajustada.

A única nota a mencionar é que seria ótimo — principalmente se houver segunda temporada — ver um pouco mais de “girl power” por parte da protagonista. Ainda que nos últimos episódios ela comece a tomar decisões por si (abandonar o trabalho, ir morar sozinha), Elsa passa a maioria do tempo a depender dos homens da vida dela, quase que sem encontrar a sua própria voz.

Charlotte (Sabrina Ouazani):

Charlotte é a autora do plano que corre bem demais. Obviamente que também aquela amiga bem intencionada que todos temos, mas a quem os planos nunca correm exatamente como o previsto. Liberal, irreverente e descontraída, é um espírito livre que tem dificuldade em comprometer-se com as coisas a longo prazo, seja um emprego ou um namorado.

Assim, é muito interessante ver o desenrolar da sua relação com Mathhieu (Tom Dingler). Desde algo casual, à rejeição do rótulo “namorados”, até assumirem a relação e começarem um negócio juntos, assistimos ao percurso pessoal de Charlotte e ao quanto ela cresce em tão poucos episódios.

Emilie (Joséphine Draï):

O terceiro membro do trio de amigas é a controladora e conflituosa Emilie, que está grávida, mas parece estar em negação quanto ao que está a mudar na sua vida. Fria, com um certo sentido de superioridade e incapaz de aceitar que as coisas não sejam como ela quer, é a personagem que não vamos gostar.

A forma como ela trata o namorado, Antoine (Syrus Shahidi) — que é calmo, carinhoso e tem uma paciência de santo — incomoda-nos… até que percebemos o que motiva em Emilie… e de repente, ela já não é assim tão odiável. Começamos a perceber que a sua frieza esconde as inseguranças e medo de ser deixada. Começamos a perceber que, na verdade, apesar de ela ter dificuldades em demonstrar, ela adora os amigos e o namorado. Claro que esta justificação só é aceitável até certo ponto e parece-me pouco razoável que Emilie só comece a sentir-se maternal em relação ao bebé quando resolve todos os problemas com o pai da criança.

Apesar de tudo — e ainda sem saber se haverá uma segunda temporada — não podemos negar que seria interessante ver como seriam mais desenvolvidas estas personagens.