Na 76ª edição dos Golden Globes que se realizaram na noite deste domingo, Bohemian Rhapsody e Green Book foram os grandes vencedores das categorias de cinema, tendo conquistado os prémios de Melhor Filme – Drama e Melhor Filme – Musical ou Comédia, respetivamente. No campo das séries de televisão, The Americans prevaleceu na categoria de Melhor Série Dramática e The Kominsky Method levou a melhor para ser eleita Melhor Série – Musical ou Comédia.

Já cantava Freddie Mercury: “We are the Champions”. De facto, Bohemian Rhapsody e Rami Malek foram campeões na cerimónia dos Golden Globes. Além de vencer o prémio de Melhor FilmeDrama, o filme que conta a história da formação dos Queen e do seu vocalista também viu o seu ator principal arrecadar o prémio de Melhor Ator em Drama. Malek considerou que receber o prémio foi um “honra profunda”. Nos agradecimentos, o ator apontou para Brian May e Roger Taylor, presentes na plateia, e disse: “E claro, aos Queen. A ti, Brian May. A ti, Roger Taylor. Por garantirem que a autenticidade e inclusão existam na música e no mundo, e em todos nós”.

No final do seu discurso, Rami Malek virou as suas atenções à personalidade que interpretou em Bohemian Rhapsody: “Obrigado ao Freddie Mercury por me dar a alegria de uma vida. Adoro-te, seu homem lindo. Isto é para e por tua causa”.

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Green Book foi o filme que levou mais prémios para casa. Além de Melhor Filme – Musical ou Comédia, o filme realizado por Peter Farrelly ficou com a distinção de Melhor Argumento (Nick Vallelonga, Brian Currie, Peter Farrelly) e de Melhor Ator Secundário (Mahershala Ali). Em 2017, Ali esteve nomeado na mesma categoria por Moonlight, tendo perdido para Aaron Taylor-Johnson (Nocturnal Animals). Mas desta vez o desfecho foi diferente. Ali interpreta um pianista clássico afro-americano que tem como condutor um italo-americano da classe operária (Viggo Mortensen) que o vai conduzir na sua tour pelo Sul dos Estados Unidos nos anos 60.

Mahershala Ali. Fonte: HFPA

Eu só digo ‘sim’ a algo que me faz desconfortável”, começou Ali por dizer aos jornalistas acerca de Green Room.Quando recebo um guião e o pequeno ego em mim toca o colarinho e diz ‘Eu consigo fazer isso’, é quando eu digo ‘não’. Normalmente digo ‘sim’ a projetos que me assustam até um certo ponto”.

Roma venceu na categoria de Melhor Filme de Língua Estrangeira e de Melhor Realizador, com Alfonso Cuarón a ser o terceiro mexicano dos últimos quatros anos a conseguir tal feito, depois de Alejandro G. Iñárritu (2016 – The Revenant) e Guillermo del Toro (2018 – The Shape of Water). “No seu melhor, o cinema deitas muralhas abaixo e constrói pontes para outra cultura”, afirmou Cuarón. “Começamos a perceber que estas novas formas e estas novas caras, apesar de serem estranhas, não são não-familiares. Começamos a perceber exatamente o quanto temos em comum”.

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Glenn Close venceu o Golden Globe de Melhor Atriz em Drama por The Wife. A atriz já tinha outros dois Golden Globes na sua carreira, ambos na área da televisão. Em 2005, venceu o prémio de Melhor Atriz numa Minissérie ou Filme para Telvisão por The Lion in Winter, e em 2008, ao ser considera a Melhor Atriz num Série Dramática pelo seu trabalho em Damages. A sua primeira distinção nos globos no cinema foi pela sua interpretação de uma mulher que viaja até Estocolmo para acompanhar o marido. “Sigam os vossos sonhos. Temos de dizer ‘Eu consigo fazer aquilo, e eu devo ser permitido fazer aquilo”, afirmou Close, visivelmente contente em palco.

Vice era o filme da noite incluído num maior número de categorias (6), mas só ficou a ganhar numa. Christian Bale foi eleito o Melhor Ator num Musical ou Comédia com a sua interpretação de Dick Cheney, ex-vice-presidente dos Estados Unidos, seis anos depois de ter sido Melhor Ator Secundário por The Fighter. Na hora de agradecer, ator surpreendeu: “Obrigado, Satanás, por me dares inspiração para interpretar este papel”. No Twitter, a Igreja de Satanás fez eco das palavras de Bale e considerou que “Satanás é um símbolo de orgulho, liberdade e individualismo”.

Adam McKay, realizador de Vice, e Christian Bale. Fonte: HFPA

Olivia Colman, que interpretará a Rainha Elizabeth na terceira temporada de The Crown, substituindo Claire Foy, arrecadou o Golden Globe de Melhor Atriz em Musical ou Comédia pelo papel da Rainha Anne em The Favourite, de Yorgos Lanthimos. Foi uma atriz emocionada a que foi ao palco agradecer. “Yorgos, muito obrigado. E às minhas cabras, Emma [Stone] e Rachel [Weisz], obrigado. Cada segundo a trabalhar com vocês foi uma alegria e fiquei triste que tivesse acabado”, disse.

Regina King foi eleita Melhor Atriz Secundária pelo seu trabalho em If Beale Street Could Talk, filme de Barry Jenkins que nos fala de uma jovem afro-americana que, juntamente com a sua família, tenta provar que o seu marido é inocente de um crime. Num discurso de aceitação feito numa época marcada pela discussão dos direitos da mulher, a atriz deixou uma promessa para o futuro: “Só quero dizer que vou usar esta plataforma agora mesmo para dizer que nos próximos dois anos, tudo que eu produzir… Estou a fazer um voto – vai ser duro. Ter a certeza que tudo o que produzo seja 50% feminino”.

Spider-Man: Into the Spider-Verse venceu a categoria de Melhor Filme de Animação. Nas categorias musicais, Justin Hurwitz viu a sua música em The First Man ser escolhida como a Melhor Banda-Sonora Original, e Shallow, canção do filme A Star is Born composta por Lady Gaga, Mark Ronson, Anthony Rossomando e Andrew Wyatt, ganhou o Golden Globe de Melhor Canção Original.

Quando ouviu a sua música anunciada, Lady Gaga não conteve as emoções. A cantora e atriz afirmou que adora Bradley Cooper, realizador, co-argumentista e ator principal de A Star is Born, e fez um desabafo: “Tenho de dizer, como mulher, é muito difícil ser levada a sério como música e compositora”.

Também houve oportunidade para homenagear Jeff Bridges, que recebeu o prémio Cecil B. DeMille e proferiu um discurso positivo: “Pode parecer que não estamos à altura da tarefa, mas estamos. Estamos vivos. Podemos fazer a diferença. Podemos virar este barco para o lado que quisermos ir. Para o amor, para criar um planeta saudável para todos nós”.

Pela primeira e última vez, The Americans

The Americans estreou em 2013, mas nunca tinha sido sequer nomeada para Melhor Série Dramática. Tudo isso mudou neste domingo, depois da série criada por Joseph Weisberg sobre espiões russos infiltrados nos Estado Unidos ser ter despedido do pequeno ecrã em 2018 com a sua sexta temporada. Matthew Rhys e Keri Russel foram duas vezes nomeados para Melhor Ator e Melhor Atriz (2017 e 2019), respetivamente, mas nunca ganharam.

Nas categorias das séries de televisão, The Kominsky Method, foi outra grande vencedora ao ser distinguida como Melhor Série – Musical ou Comédia e Melhor Ator (Michael Douglas). Douglas, quinze após ter recebido o prémio Ceci B. DeMille, agradeceu aos colegas de Kominsky e deixou uma palavra ao seu pai, o lendário ator Kirk Douglas: “E parece que isto tem de ser dedicado ao meu pai com 102 anos, Kirk”. O Douglas filho revelou o melhor conselho que recebeu de Douglas pai, ator em filmes como “Spartacus” (1960) e “Lonely Are The Brave” (1962): “Energia e tenacidade”.

The Assassination of Gianni Versace foi embora com duas distinções: Melhor Série Limitada ou Filme para Televisão e Melhor Ator – Série Limitada ou Filme para Televisão (Darren Criss). Numa cerimónia em que os discursos ficaram marcados pelas questões de inclusão e minorias, Criss não fugiu à regra. “Como temos visto, tem sido um ano maravilhoso para a representação em Hollywood e estou contente por ter um pequeno papel nisso”, afirmou.

A coreana-canadiana Sandra Oh, que também apresentou a cerimónia ao lado de Andy Samberg foi considerada a Melhor Atriz em Drama, terminado um interregno de 35 anos em que nenhuma atriz de descendência asiática venceu a categoria. “Estão aqui duas pessoas esta noite que eu estou agradecida por estarem comigo”, disse uma emocionada Sandra Oh. “Gostaria de agradecer à minha mãe e ao meu pai”. Foi a segunda vez que a atriz venceu um Golden Globe; a primeira foi em 2006, quando arrecadou o galardão de Melhor Atriz Secundária por Grey’s Anatomy.

Sandra Oh. Fonte: HFPA

Muitos o conhecem como Robb Stark de Game of Thrones, mas Richard Madden está a fazer os possíveis para não ter uma carreira definida por um só papel. Deu dois passos nessa direção ao vencer o Golden Globe de Melhor Ator em Drama pelo seu papel em Bodyguard. Madden mostrou-se surpreendido com a vitória e agradeceu à equipa de Bodyguard, que “trabalhou muito durante cinco meses para fazer esta série acontecer”.

Pelo segundo ano consecutivo, Rachel Brosnahan foi eleita a Melhor Atriz em Série Musical ou Comédia por The Marvelous Mrs. Maisel. Brosnahan lançou uma palavra de apreço à Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood:[Por] serem umas das primeiras pessoas a apreciar a série descobrir que nós existimos”.

Sobre The Marvelous Mrs. Maisel, Rachel Brosnahan disse que é uma série sobre “uma mulher a encontrar a sua voz”. “Tem sido agradável ouvir de diferentes idades, raças e backgorunds que se ligaram a muitas das personagens”.

Patricia Arquette, que venceu a categoria de Melhor Atriz – Série Limitada ou Filme para Televisão por Escape at Dannemora, teve parte do seu discurso censurada devido a utilizar palavras consideradas não apropriadas. “Quantos desses filhos da mãe é que uma pessoa precisa?”, interrogou em relação aos dentes tortos da sua personagem, Tilly Mitchell. “Eu nasci com dentes lixados. Obrigado na mesma”.

Patricia Clarkson, da série Sharp Objects, arrecadou o Golden Globe de Melhor Atriz SecundáriaSérie Limitada ou Filme para Televisão e teve a dizer o seguinte sobre Jean-Marc Vallée, realizador da série: “Exigiste-me tudo menos sexo o que é exatamente como devia ser no nosso interesse”.

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A categoria de Melhor Ator Secundário – Série Limitada ou Filme para Televisão foi vencida por Ben Wishaw. Na série baseada em factos A Very English Scandal, o ator interpreta o papel de Norman Scott, que acusou Jeremy Thorpe (Hugh Grant), líder do Partido Liberal, de ter uma relação consigo. Wishaw agradeceu ao próprio Norman Scott por o ter permitido interpretar. “[Ele] enfrentou o establishment com coragem e desafio que eu acho completamente inspiradores. Ele é um verdadeiro herói queer e um ícone. E Norman, isto é para ti”, afirmou.

A histórica Carol Burnett foi a recipiente do mais recente prémio baptizado em seu nome, Carol Burnett Award, que premeia uma carreira e excelência em televisão. “Foi-nos dado um presente – uma tela para pintar com o nosso talento – um presente que consegue fazer as pessoas rir ou chorar, ou os dois ao mesmo tempo”, declarou Burnett.