Fazer uma listagem dos melhores filmes do ano foi um desafio. Fez-me relembrar das circunstâncias em que foram vistos e que lições retirei deles. Terminou um 2018 em que, para minha felicidade, o Terror voltou a dizer “presente!” e o cinema independente continuou a mostrar a sua qualidade e capacidade de inovação (estou a olhar para vocês, Kogonada e David Robert Mitchell).

O que todos estes filmes têm em comum, além de serem muito bons, é o facto de terem sido vistos em sala. Não que tenha mal ver um filme no serviço de streaming, mas considero que assim as suas qualidades não são potenciadas ao máximo.

A reflectir o meu gosto eclético, este top tem um pouco de tudo, até um grande blockbuster, algo que não costumo ver muito neste tipo de listas. No final, o que mais me marcou em 2018 foi um filme que eu ganhei para a vida.

Em 2018…

 

Em 2018, despedi-me de Daniel Day-Lewis como ator. Em A Linha Fantasma (#7), o três-vezes vencedor do Oscar de Melhor Ator Principal tem um belo canto de cisne ao interpretar o papel de um estilista na Londres dos anos 50. É um filme com um belo design de produção e cheio de tensão ao longo das suas duas horas, muito graças à surpreendente Vicky Krieps na pele de Alma, uma personagem muito bem desenvolvida por Paul Thomas Anderson.

Em 2018, fiquei feliz ao ver que um dos meus géneros favoritos continua num bom momento de forma e que mais filmes do género continuam a estrear em sala. Um Lugar Silencioso (#4) e Suspiria (#6) mostraram que um filme de Terror não vive só de famílias a mudarem-se para uma casa assombrada ou de cães a ladrar para quem passa perto do quintal. Aliás, esse barulho é substituído por um silêncio ensurdecedor e provocador de ansiedade em Um Lugar Silencioso, brilhantemente realizado por John Krasinski, que a maioria só conhecia como Jim Halpert, de The Office. Suspiria é o oposto, pois tem barulho, muito barulho. Luca Guadagino fez um remake que o é sem o ser: o grosso do enredo não muda muito, mas depois envereda por caminhos que surpreendem (pela positiva) tanto os que não viram como os que viram o clássico de Dario Argento, de 1977. O que a nova versão tem de melhor é a banda-sonora composta por Thom Yorke.

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Em 2018, altura em que se discutiu muito os direitos e o papel da mulher na sociedade, tivemos Três Cartazes à Beira da Estrada (#2). Mildred (Frances McDormand) é uma das personagens femininas mais cativantes do cinema, e o Oscar de Melhor Atriz Principal conquistado por McDormand não foi por acaso. O papel de uma mãe à procura de justiça pela morte da sua filha é uma das melhores interpretações da carreira da atriz. Num filme em que todas as personagens são memoráveis, é importante destacar Sam Rockwell, que dá vida a Dixon, um polícia racista mas que também se preocupa com a sua mãe. No início do filme, olhei para Dixon como um perfeito idiota, mas depois pedi-lhe desculpa por o julgar tão cedo. É uma personagem complexa, e muito bem escrita por Martin McDonagh, que também realiza.

Em 2018, não faltou um bom blockbuster. Aliás, um excelente blockbuster. Missão Impossível: Fallout (#9) é o melhor da série que continua a subir a parada a cada capítulo que sai. Desta vez, a saga não muda nada de forma excecional, mas melhora aquilo que tem vindo a fazer desde 1996, data em que saiu o primeiro filme. O sucesso de Missão Impossível deve-se muito a Tom Cruise, que se move neste filme como um peixe dentro de água. Mais uma vez, o ator arriscou-se a fazer as cenas que normalmente são atribuídas aos duplos. Saber isto atribui uma maior sensação de realismo ao filme.

Em 2018, Lady Bird (#8) mostrou-me uma cena que me tocou muito. Kyle Scheible (Timothée Chalamet) está sentado na borda da piscina a ler um livro e a fumar um cigarro. Ora, numa era em que a tecnologia é um bem primário para muita gente, é refrescante ver um filme que nos mostra um tempo em que as pessoas não andavam sempre agarradas aos smartphones e computadores. É um pormenor delicioso, algo de que Lady Bird vive muito. É uma realização imaculada de Greta Gerwig, que certamente estará mais vezes nomeada para o Oscar de Melhor Realizador.

Em 2018, Utoya, 22 julho (#3) proporcionou-me umas das experiências mais viscerais que já vivi numa sala de cinema. A obra do norueguês Erik Poppe baseia-se no ataque de Anders Breivik na ilha de Utoya, a noroeste de Oslo. Um único take de 1h30 leva-nos para dentro da ação dos jovens do acampamento que tentam arranjar maneira de sobreviver. Não é um filme fácil de ser ver nem de ouvir, porque os tiros, tal como aconteceu na realidade, são ouvidos durante mais de uma hora, mas vale muito a pena.

Em 2018, Spike Lee lançou o seu melhor filme desde Malcom X. BlacKkKlansman (#5) vê o realizador a pegar na temática do racismo sem nunca cair no ridículo com recurso a personagens fortes e engraçadas. Este era um filme que tão bem precisávamos: se Três Cartazes à Beira da Estrada é importante por nos fazer ver uma mulher fazer frente a vários homens, BlacKkKlansman obriga-nos a pensar no racismo (esperem pelos créditos!). Lembro-me de ter ficado de boca aberta com os créditos silenciosos de Spotlight (2015). Em BlacKkKlansman, também fiquei impressionado, mas desta vez foi ao ver uns créditos ruidosos compostos por imagens de arquivo de 2017 que mostram que o racismo nos Estados Unidos da América está tão presente como uma arma de fogo.

Em 2018, mais especificamente no penúltimo dia do ano, assisti a um filme muito ambicioso de David Robert Mitchell, que em 2015 nos brindou com o original Vai Seguir-te. O Mistério de Silver Lake (#10) é um cruzamento entre O Grande Lebowski (1998) e À Beira do Abismo (1946), resultando num filme de suspense noir com elementos cómicos. Andrew Garfield carrega às costas a missão de desvendar o desaparecimento da rapariga que conheceu na noite anterior. Ao longo de quase 2h30 de viagem, Mitchell sabe quando introduzir momentos mais misteriosos e outros mais hilariantes, que vivem muito da comédia física brilhantemente protagonizada por Garfield.

Em 2018, o filme que mais me marcou e que vai ficar comigo para sempre foi…

#1 – Columbus

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Haley Lu Richardosn e John Cho em Columbus. Fonte: IMDb

Estreado cá um ano depois de ter saído nos Estados Unidos, Columbus foi um filme que o público português ignorou. Por um lado, percebe-se porquê: não tem as superestrelas do cinema que chamam milhares às salas e é um filme todo ele composto por diálogo. A generalidade dos espectadores não tem paciência para enredos que não contenham uma cena de perseguição ou a aparição de uma arma. Algo que ilustra isto é uma das cenas mais marcantes do filme, quando Gabriel (Rory Culkin) fala com a sua amiga Casey (Haley Lu Richardson) sobre o conceito de capacidade de atenção. As armas que Columbus apresenta são as palavras. E que belas palavras essas.

Jin (John Cho) viaja de Soul para a cidade de Columbus, Indiana, uma espécie de Meca da arquitetura, para ajudar o seu pai moribundo. Entretanto, conhece Casey e os dois desenvolvem uma amizade. Não, este não é mais um filme em que as duas personagens se apaixonam, e aí está o toque de mestre de Kogonada, que se estreia aqui na realização de forma majestosa (além disso, tem a seu cargo a edição e o argumento). O cineasta sul-coreano criou um guião em que as duas personagens se ligam pelas palavras (ao invés da carne), trocam impressões, falam de sonhos deixados para trás e projetam os seus futuros, ao mesmo tempo que visitam vários locais de Columbus marcados pela arquitectura Moderna.

Identifiquei-me com a maioria das coisas que foram ditas nos muitos diálogos do filme, e refleti comigo próprio acerca da forma como as personagens reagiram ao que foi dito e feito e se eu faria ou diria a mesma coisa.

O que Columbus também nos ensina é que os momentos de silêncio também são importantes como os de diálogo, e o equilíbrio entre os dois tipos está bem patente no filme, em que o espectador é várias vezes desafiado a descodificar os silêncios que se instalam. Depois de silêncio e palavras, temos a música a cargo dos Hammock. O que a banda norte-americana faz bem é ir contra a tendência das banda-sonoras de hoje em dia, aquelas que quase passam por cima do diálogos das personagens, tornando-se quase impercetíveis.

Columbus caiu de para-quedas e sem qualquer tipo de promoção nos cinemas portugueses. É um filme que deve ser visto em sala, dada a oportunidade, pois a cinematografia é de se tirar o fôlego. A julgar pela maneira como os espaços são filmados e as personagens enquadradas, a arquitetura torna-se numa personagem neste filme.