Já se sabe que estamos em tempo de retrospetivas e no Espalha-Factos não desperdiçamos a oportunidade. Este ano vi muitos e muitos bons filmes, e fi-lo sempre com este top em mente. De janeiro a dezembro, houve filmes a ganhar lugar na minha lista de melhores do ano, mas também de sempre.

Não sou esquisita com filmes—do terror à animação, a lista conta com um pouco de tudo. Assim, de entre os filmes estreados nas salas de cinema portuguesas, nas plataformas de streaming  ou VOD em 2018, estes foram os meus dez preferidos.

Em décimo lugar, Beautiful Boy, um tearjerker (não dispenso), sobre a luta de um pai contra o vício do seu filho. Segue-se Os Incríveis 2, a sequela de um dos clássicos da minha infância que, mesmo catorze anos depois, manteve a sua essência. Cold War vem em quinto lugar. O filme polaco de Paweł Pawlikowski, conquista na sua humildade e realismo.

Em sétimo, o vencedor dos Oscar de Melhor Filme, A Forma da Água. Apesar de não ter sido o melhor filme do meu ano, uma fantasia contemporânea, com prestações espetaculares, em particular de Sally Hawkins. O realizador Luca Guadagnino arrecada dois lugares na lista. Aqui em sexto lugar, a sua adaptação de Suspiria. Mais que um remake do original de Dario Argento (1977), o filme é uma lufada de ar fresco no género de terror, completado pela belíssima banda sonora de Thom Yorke.

Os cinco mais marcantes

Em quinto lugar, The Florida Project. Este delicioso indie de Sean Baker está repleto de contradições. Desde logo, passa-se num motel pobre às portas da megalómana Disney World. É neste modesto espaço que o filme se desenrola e em que Moonee vive a sua infância, que tem tanto de feliz como triste, empolgante e brutal. Além de uma fotografia brilhante, o filme destaca-se pelas prestações inigualáveis da amadora Bria Vinaite e a pequena Brooklyn Prince. The Florida Project merecia mais atenção por parte da indústria do que a que teve, mas sem dúvida que se tornará um dos clássicos do cinema indie.

Segue-se Lady Bird, o coming-of-age de que precisávamos. A estreia de Greta Gerwig atrás das câmaras está cheia de simbolismo: além de realizado e escrito por uma mulher, o filme retrata precisamente esse processo de mulher-em-formação. Se há paixões e namoricos, estes não são em qualquer momento mais relevantes do que a relação que Lady Bird tem com as mulheres na sua vida. Desde amigas e professoras e, principalmente, a sua mãe, cada uma destas personagens representa um todo e um só: o que é crescer rapariga. Mas o filme não critica nem dramatiza; é um espelho claro duma fase complicada mas fascinante pela qual todos passamos. Nas contradições da adolescência, torna-se universal. Gerwig faz-nos sentir em casa com um filme que, mesmo em circunstâncias específicas, é extremamente familiar.

Se calhar paradoxalmente, as escolhas do pódio foram as mais fáceis. Isle of Dogs, o regresso à animação de Wes Anderson, conquistou o terceiro lugar ao fim de alguns quinze minutos de filme. Trata-se duma história matura num cenário tão aparentemente ingénuo. Não há como não nos apaixonarmos pelos amigos de quatro patas que aqui conhecemos, bem como os seus companheiros humanos. Mas é na técnica que o filme se destaca. A mestria do stop-motion é fascinante. A atenção que Anderson dá a cada frame—desde as marionetas, à complexidade dos sets—espelha a sua paixão pela sétima arte. Isle of Dogs é uma lição do que é fazer cinema por pura dedicação.

O vice-campeão chegou tarde, mas sem deixar dúvidas. Roma, de Alfonso Cuarón, é uma arrebatadora película sobre a vida mundana. Cuarón mostra-nos o que há de belo no dia-a-dia, nas lutas e conquistas da vida familiar. Inspirado nas memórias do realizador, sobre a sua infância na Cidade do México, este é um filme que nitidamente vem “do coração”. E que tanto nos aperta como aquece o coração, também, com estas personagens tão humanas que nos fazem esquecer que não são reais. O seu quotidiano é embelezado apenas por uma fotografia quase perfeita e a fluidez do argumento. Roma é um clássico sem o ser—sem as pretensões “hollywoodescas” ou artefactos excessivos. O filme fala por si.

Se Roma veio em dezembro, por sua vez, o filme do (meu) ano foi um dos primeiros. Chama-me Pelo Teu Nome chegou em janeiro e veio para ficar. O filme leva-nos numa viagem pela paixão, amor e a perda, e o que é crescer com eles. A história flui com uma liberdade que espelha mais uma vez a mestria subtil de Guadagnino e as escolhas que faz. Em colaboração com Sayomhbu Mukdeeprom (diretor de fotografia), os dois pintam o quadro de um verão em família no Sul da Europa. É mesmo isso: em Chama-me Pelo Teu Nome, os visuais assemelham-se a uma pintura impressionista. Luz, movimento e o enquadramento perfeito de cada shot dão vida a um filme que, além de tudo mais, é bonito de se ver. Também quase impressionista é o modo como se desenrola o enredo—como que uma captura de memórias deste verão marcante na vida de Elio Perlman. Completado por um elenco excepcional, especialmente no que toca a Amira Casar, Armie Hammer, e o famoso discurso do pai Perlman, interpretado por Michael Stuhlbarg. Mas claro, o filme pertence a Timothée Chalamet, que carrega consigo essa energia do que é ser jovem e estar apaixonado, e que a sabe trabalhar sem esforço, numa das melhores prestações do ano.

Soube-o em janeiro, mas digo agora com ainda mais convicção: Chama-me Pelo Teu Nome é um filme para a vida, e 2018 valeu por isso. Que 2019 nos traga mais assim.